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Motoristas e entregadores cobram Uber após dias sem acesso a remuneração

Sindicato capixaba atua junto ao movimento nacional, que não descarta uma greve

Marcelo Casal/Abr

Motoristas por aplicativo cobraram formalmente a Uber por uma solução para as instabilidades na “Uber Conta” que impediram saques e transferências via Pix dos valores recebidos pelas corridas, recorrentes desde o último dia 24. A notificação extrajudicial foi encaminhada nesta semana pelo Sindicato dos Trabalhadores e Prestadores de Serviços de Aplicativos de Transporte e de Prestação de Serviços do Espírito Santo (Sintappes) e pela Aliança Nacional dos Motoristas por Aplicativos, com apoio da Aliança Nacional dos Entregadores e do Movimento dos Trabalhadores Sem Direitos.

Segundo as entidades, a indisponibilidade dos serviços afetou o acesso dos motoristas a valores recebidos pelas corridas. O documento cobra que a empresa se manifeste sobre a interrupção das transferências via Pix e a indisponibilidade de saques. A situação impacta diretamente a rotina de trabalho dos motoristas, alerta o presidente do Sintappes, Gessé Gomes de Souza Júnior, que atua na articulação das entidades envolvidas.

“Não tínhamos essa ocorrência de atrasos. Quando saímos para dirigir, nosso objetivo é atingir a meta. Os custos são realizados diariamente e a instabilidade acaba afetando muitos motoristas que não sabem a quem recorrer”, afirmou.

Ele aponta que a categoria busca um compromisso formal da plataforma em resolver a situação. Houve uma resposta do suporte da Uber no Brasil sem apresentação de um prazo para normalização completa dos serviços. Na mensagem, a empresa afirma que “está trabalhando para normalizar os serviços da Uber Conta após algumas instabilidades”, e por isso o repasse automático foi pausado temporariamente.

A orientação repassada aos motoristas é acompanhar as atualizações pelo aplicativo ou pelos canais oficiais do banco. A mobilização foi levada à manifestação do Dia do Trabalhor da Trabalhadora dessa sexta-feira (1º), na Praça Getúlio Vargas, Centro de Vitória. “Muitos foram prejudicados. Se o acesso ao dinheiro fica bloqueado, como o motorista continua trabalhando?”, questiona Gessé.

Relatos de motoristas publicados em redes sociais e plataformas de reclamação indicam que, durante o período de instabilidade, o saldo das corridas permanecia visível no aplicativo, mas as funções de saque e transferência apresentavam erro ou estavam indisponíveis. Em nota divulgada anteriormente à imprensa, a Uber informou que a instabilidade técnica afetou temporariamente os saques e operações da Uber Conta, serviço operado pelo banco digital Digio. Segundo a empresa, o problema teria sido solucionado na última segunda-feira (27).

O Digio informou que identificou um “comportamento atípico” em seus sistemas no dia 24 e que suspendeu temporariamente o Pix e o saque digital. O banco afirmou que não houve prejuízo financeiro nem vazamento de dados e que os serviços foram restabelecidos. Motoristas e entidades representativas, no entanto, afirmam que as dificuldades de acesso aos valores persistiram após essa data, com relatos de indisponibilidade de saques e transferências mesmo depois do período indicado pela empresa.

Trabalhadores também têm articulado novas mobilizações em diferentes estados do país, com convocações para novas paralisações – os “breques dos apps” – em cidades como Rio de Janeiro (RJ), João Pessoa (PB) e Recife (PE) nos próximos dias, em protesto ao modelo de trabalho das plataformas, que, segundo os organizadores, amplia a carga de trabalho sem garantir remuneração proporcional.

Entre os pontos defendidos por trabalhadores estão a remuneração mínima de R$ 10 por entrega e o valor de R$ 2,50 por quilômetro rodado, além do fim de práticas que reduzem os ganhos, como a “rota dupla”, quando o aplicativo direciona duas corridas ou entregas no mesmo trajeto, mas não remunera proporcionalmente o trabalho realizado.

O movimento defende uma regulamentação que estabeleça regras mínimas para o trabalho por aplicativos, mas a proposta construída por representantes da categoria, o PL 2479/25, que contemplava direitos, remuneração justa, medidas de segurança e transparência, não avançou em plenário.

O principal projeto em discussão no Congresso Nacional, o Projeto de Lei Complementar (PLP) 152/2025, foi alvo de protestos no último dia 14 de abril por ter sido ajustado aos interesses dos CEOs das plataformas e terminou sendo retirado de pauta pelo relator, deputado Augusto Coutinho (Republicanos-PE), antes de ser analisado pela Casa. A medida foi justificada pelo relator como uma tentativa de construir maior consenso. Ele afirmou que o texto sofreu ajustes após reações do setor produtivo e que a falta de apoio inviabilizou o avanço da proposta no momento.

Sintappes

Desde o aumento do número de trabalhadores inseridos nesse modelo de trabalho por aplicativos, motoristas e entregadores passaram a se organizar em diferentes regiões do país para reivindicar melhores condições de trabalho. Entidades como o Sintappes, a Aliança Nacional dos Motoristas por Aplicativos, a Aliança Nacional dos Entregadores e o Movimento dos Trabalhadores Sem Direitos atuam na defesa da regulamentação do setor e no enfrentamento à “pejotização”, modelo em que os trabalhadores são contratados como autônomos ou pessoas jurídicas.

Gessé explica que a forma como o trabalho é organizado nas plataformas dificulta a relação direta com as empresas. Ele descreve um novo momento nas relações de trabalho por causa da tecnologia e da inovação, sem a presença física do empregador, o que torna a relação com esse empregador ‘invisível’ totalmente individualizada e deixa o trabalhador sem proteção. Ele também critica a forma como as demandas da categoria têm sido tratadas, com “respostas evasivas e soluções inacabadas”, enquanto esses profissionais são exauridos em sua capacidade de trabalho, ao serem submetidos à regras de desempenho cada vez mais rígidas e sem o mínimo respaldo por parte de quem presta o serviço.

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