No começo era o escambo, hoje é o PIX
Uma das muitas coisas que estão desaparecendo da nossa agenda é o troco. Devagar e sempre, diria o descuidado. Uma simples transação econômica: ao comprar algum produto criamos uma dívida que será compensada por alguma forma de pagamento: dinheiro em espécie, Cabral, cheque bancário, cartão de crédito ou débito, algum tipo de favor ou trabalho, honesto ou nem tanto. No começo era o escambo, hoje é o PIX.
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Ou o nefando ‘dar o cano’: cheque sem fundo, cartão cancelado, nota falsa, prometer e não cumprir, essas coisas 100% familiares: todos já sentiram na pele ou já cometeram. Nos States, a maioria das lojas não aceita cheques, e dinheiro em espécie é visto com desconfiança. Houve um tempo perdido nas brumas do passado em que a maioria das transações comerciais era sacramentada com dinheiro vivo, em notas ou moedas, dependendo de quem pagava a conta.
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Reconhecido como uma das mais importantes invenções humanas, o dinheiro de papel nasceu na China, e foi citado por Marco Polo em suas famosas andanças. Donde surgiram os efeitos colaterais, usualmente chamados de inflação e troco. Se o produto adquirido custa $9,50, dou em pagamento uma nota de dez ou duas de cinco, ou… as opções são muitas, mas o nome é um só: Cadê meu troco? “Leva duas balinhas…” Se não tenho dinheiro para pagar, o vendedor não me deixa levar o produto, mas se a loja não tem troco, eu fico no prejuízo.
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Essa corriqueira obrigação financeira está desaparecendo do nosso cotidiano. Se ninguém mais paga as compras com dinheiro de papel, o troco, esse facilitador, está sumindo do contexto. No shopping: Levo a blusa de $50, mas põe $70 no cartão e me dá o troco em espécie. Não podemos fazer isso, Madame… Então não levo a blusa… Posso dividir no cartão… Mas tem um cartaz ali na porta: O freguês é quem manda!
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Se o troco financeiro está desaparecendo da rotina, temos um outro tipo de troco que resiste ao passar do tempo. Ela me abandonou, mas pode esperar que vou dar o troco. O troco emocional é uma forma qualquer de revidar uma ofensa sofrida, e muitas têm valor mais alto que a desfeita. Pode acontecer logo após a tragédia ou pode não acontecer jamais, mas a ameaça fica no ar, um consolo para o ofendido, uma preocupação para o ofensor: O que será que ele está tramando?
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O feminino de troco não é troca, mas homens e mulheres usam essa arma de dois gumes: às vezes o tiro sai pela culatra, quando o revide fere mais o ofendido que o ofensor, ou quando a ofensa é menor que o troco. Tem gente que desperdiça uma vida inteira arquitetando um revide que não vai acontecer. Tal como o troco na transação comercial, o troco emocional deveria também sumir do mapa.

