Não passaria por baixo de uma escada com um gato preto por perto

Andava eu pelos caminhos da vida quando vi uma amiga, dessas com quem a gente não se depara todo dia. Abro os braços e um sorriso, e ela simplesmente muda de calçada. Muda fiquei eu, de espanto, já não se cultivam amizades como nos tempos em que se cruzavam dedinhos? Existe maior prova de amizade? Sigo meu caminho, triste e abatida com a desfeita, e ela corre atrás de mim, Espera! E vem de lá um abraço apertado. Amiga é coisa pra se guardar…
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Pensei que tinha se esquecido de mim. Claro que não, mas tive que desviar da emboscada; não ia passar por baixo de uma escada, ainda mais com um gato preto por perto. Mas você ainda acredita nessas superstições? Claro que não, mas por que arriscar? Logo hoje, sexta-feira treze…é convidar o azar. Pois acredite quem quiser, nesses tempos de Inteligência Artificial (IA) e Ozempic, ainda há quem acredite nessas superstições que remontam aos tempos dos Cavaleiros Andantes.
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Quando as bruxas andavam pelo mundo, eram sempre acompanhadas por um gato preto. Além de um corvo ou dois. Essa amizade resistiu ao correr dos séculos, tornando-se um enigma comparado ao da dupla ovo/galinha: ninguém queria um gato preto porque as bruxas os adotaram, ou as bruxas os adotaram porque ninguém os queria? Quanto a não passar por baixo de uma escada, a superstição tem origem religiosa: uma escada encostada na parede forma um triângulo, símbolo da Santíssima Trindade. Passando embaixo, você “quebra” esse símbolo e atrai o azar.
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No tempo em que pisar na sombra de uma pessoa era falta de respeito, as regras eram muitas e deviam ser rigorosamente respeitadas. Jogar sal por cima do ombro atrai boa sorte, mas cuidado: derramar o sal dá azar. Explico essas singelezas para a amiga, e ela não se deixa iludir: E quando a sexta-feira cai no dia 13? Nesse dia eu nem saio de casa. Jesus morreu na sexta-feira, e treze foi o número dos apóstolos na Santa Ceia. Ali Jesus foi traído e depois crucificado. Isso não quer dizer que foi culpa do calendário. Ela me encara com desconfiança… Virou ateia, amiga?
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A teoria de que quebrar um espelho garante sete anos de azar remonta ao tempo dos romanos e foi também inspirada na religiosidade. Os antigos acreditavam que os espelhos refletiam não apenas o corpo, mas também a alma, e não podia ser quebrada. E como os romanos acreditavam que a vida se renovava a cada sete anos, o descuidado que quebrasse um espelho só se livrava do azar passados sete anos…
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Coisas de outrora que chegaram até nós e ainda persistem: cobrir os espelhos durante as tempestades e rezar para Santa Bárbara. Comer lentilha no Natal e vestir branco ou amarelo na passagem de ano…fazer um pedido ao soprar as velinhas no dia do aniversário. A gente nem se dá conta, mas não consigo passar por baixo de uma escada…e se cair na minha cabeça?

