Ou quando a farinha é pouca, meu pirão primeiro

Há cidades que produzem café. Outras produzem pimenta, gengibre, mamão… Ecoporanga, pelo visto, descobriu uma nova vocação econômica: a multiplicação dos pães e das diárias.
Enquanto o capixaba comum anda calculando se compra o café ou o filtro, a Câmara Municipal resolveu enfrentar um drama muito mais urgente: o sofrimento dos vereadores em trânsito.
A situação devia ser mesmo desesperadora. Afinal, sobreviver com uma diária de R$ 500 para viajar para fora do Espírito Santo era algo comparável à travessia do Saara de chinelo havaiana. Sensibilizados com essa tragédia humanitária, os nobres representantes do povo decidiram corrigir a injustiça.
Elevaram a diária para até R$ 1.185,19. No caso do presidente da Câmara, o valor chega a R$ 1.283,96.
É um salto tão espetacular que faria inveja a atleta olímpico.
Para efeito de comparação, o salário mínimo gira em torno de R$ 1.630. Ou seja: uma única diária do presidente da Câmara equivale a aproximadamente 79% do que milhões de brasileiros recebem para trabalhar o mês inteiro.
Traduzindo para o português do boleto: em um dia de viagem oficial, um agente público, o nobre edil de Ecoporanga receberá quase o mesmo que um trabalhador ganha em trinta dias de expediente, ônibus lotado, chefe mal-humorado e marmita requentada.
Mas a matemática fica ainda mais emocionante.
A cesta básica custa algo entre R$ 700 e R$ 900 pelas terras capixabas. Isso significa que uma única diária interestadual é suficiente para comprar mais de uma cesta básica completa para uma família. Enquanto isso, tem cidadão que faz turismo dentro do próprio supermercado, passeando pelos corredores e admirando produtos que não cabem no orçamento.
A justificativa técnica é que foi uma obra-prima da criatividade administrativa. Os valores deixam de ser fixados em reais e passam a ser vinculados ao tal Valor de Referência do Tesouro Estadual, o famoso VRTE.
Quando o assunto é reajustar benefício para quem está no poder, a engenharia financeira alcança níveis de sofisticação que fariam um físico nuclear pedir explicações. Curiosamente, a mesma genialidade raramente aparece quando o tema é fila de consulta médica no postinho municipal, pavimentação de ruas ou melhoria do transporte público.
Ah! Mais um detalhe encantador: foi eliminado o limite mensal de concessão das diárias. É a democratização da viagem. Antes havia uma cerca. Agora abriu-se a porteira.
O cidadão talvez imagine que diárias são uma compensação eventual para despesas específicas. Pensamento antiquado. A modernidade ensina que elas podem se transformar numa espécie de programa de milhagem institucional. Quem sabe, no futuro, cada vereador não ganhe também um cartão fidelidade? A cada dez viagens, uma diária grátis. Cashback está em estudo.
O mais admirável é a sintonia com a realidade nacional. De um lado, trabalhadores discutem como esticar o salário até o fim do mês, e como ter um dia a mais pra ficar com a família. Do outro, representantes públicos discutem como esticar a diária até o tamanho de um salário. É uma harmonia tão perfeita que chega a emocionar.
Ecoporanga talvez esteja apenas sendo pioneira a adotar o recente formato de reajuste. Mas, com certeza, não é a única. Enquanto economistas falam em crescimento do PIB, reforma tributária e produtividade, a Câmara local, assim como um bom quinhão das representações das 78 cidades capixabas, parece apostar numa estratégia mais simples: fazer o dinheiro viajar.
Porque, no Espírito Santo e no Brasil, há uma lei econômica que nunca falha. Quando falta dinheiro para o povo, dizem que os cofres estão apertados. Quando sobra dinheiro para os políticos, chamam isso de atualização monetária.
Rubem Roschel é jornalista e cronista de quinta.

