Que o 1º de Maio não seja só memória, e sim organização
Por José Carlos Pigatti
O Dia do Trabalhador não é uma data qualquer no calendário. Ele nasce da luta, do sangue e da organização coletiva. Nasce da recusa de aceitar jornadas desumanas, da coragem de enfrentar patrões e governos, da convicção de que a vida vale mais que o lucro. Celebrar o 1º de Maio, portanto, não é apenas olhar para o passado. É, sobretudo, entender o presente e disputar o futuro.
E o presente, para milhões de brasileiros e brasileiras, ainda tem nome e sobrenome: precarização, insegurança e exploração disfarçada de normalidade.
A chamada escala 6×1 é um retrato disso. Trabalhar seis dias para descansar um não é apenas cansativo, é um modelo que rouba tempo de vida. Rouba convivência familiar, saúde mental, lazer, estudo. Rouba, no limite, a própria dignidade.
Quando naturalizamos isso, estamos aceitando que o trabalhador exista apenas para produzir. Mas o trabalho não pode ser uma prisão moderna.
A luta histórica do movimento trabalhista sempre foi justamente o oposto: reduzir jornadas, ampliar direitos, garantir tempo de vida. Foi assim com a conquista das 8 horas, com férias, com descanso semanal. Nada disso caiu do céu. Tudo foi arrancado com mobilização.
E aqui entra um ponto central: direitos não são permanentes, eles dependem de correlação de forças.
É por isso que o 1º de Maio dialoga este ano diretamente com as eleições de 2026. Porque não basta reconhecer que a escala 6×1 é desumana. É preciso perguntar: quem está disposto a enfrentá-la?
Quem defende, de fato, a redução da jornada sem redução de salário? Quem enfrenta a lógica da uberização e da informalidade extrema? Quem regula as novas formas de trabalho para proteger o trabalhador, e não apenas as empresas?
E, por outro lado: quem lucra com a precarização? Quem defende “flexibilização” que, na prática, significa menos direitos? Quem transforma o trabalhador em custo e não em sujeito de direitos?
A disputa de 2026 será, em grande medida, sobre isso. Não se trata apenas de nomes ou partidos. Trata-se de projeto de sociedade.
De um lado, um projeto que aceita jornadas exaustivas, instabilidade e concentração de renda como algo inevitável. De outro, um projeto que coloca a vida no centro, que entende que desenvolvimento só faz sentido se melhorar concretamente a vida de quem trabalha.
O 1º de Maio, portanto, é mais do que celebração. Precisa ser consciência organizada. Consciência de que cada direito conquistado veio da luta coletiva. Consciência de que cada retrocesso também tem responsáveis. Consciência de que o voto não é um ato isolado, é continuidade da luta por outros meios.
Se a escala 6×1 hoje ainda é realidade para tantos, isso não é destino. É resultado de escolhas políticas. E escolhas políticas podem, e devem, ser mudadas.
Que os efeitos do 1º de Maio sirvam para reacender algo fundamental: a ideia de que trabalhadores e trabalhadoras não são apenas força de trabalho. São força política.
E quando essa força se organiza, se conscientiza e se expressa nas urnas, ela muda a história. Porque, no fim das contas, a pergunta que fica é simples e poderosa: vamos aceitar o tempo roubado ou vamos disputar o direito de viver plenamente?
2026 já começou. Que o 1º de Maio não seja só memória. Que seja organização. Que seja coragem. Que seja decisão.
Porque quando os trabalhadores se unem, a história deixa de ser algo que acontece e passa a ser algo que se constrói.
E 2026 será mais um desses momentos de construção.

