Ou como encontrar um candidato que possa chamar de seu

Às vezes a gente se pega pensando que o eleitor do Espírito Santo não vota: ele cumpre aviso prévio no purgatório. A política da terra da moqueca é um festival tão barroco que faria o Festival de Teatro de Guaçuí parecer uma quermesse de paróquia do interior.
Nas conversas de botequim na Praia do Canto ou mastigando um pastel na feira de Caratoíra, o capixaba se depara com o drama supremo de escolher o Chefe do Executivo nas Eleições 2026. A imprensa local destrincha as promessas como quem abre um caranguejo, mas o que sobra para o cidadão é apenas o sumo da contradição e o molho da gafe temperada.
Vejam só a fauna que se apresenta no cardápio eleitoral.
De um lado, temos o atual inquilino do Palácio Anchieta, Ricardo Ferraço. O homem, cria de Cachoeiro de Itapemirim e filho do lendário Theodorico Ferraço, é mais longevo na política do que a receita do Convento da Penha. Ricardo declarou um patrimônio de assustar a Apex: mais de R$ 27 milhões em heranças, casarões e ações. O plano de governo dele promete o “Agora é o Futuro”. Só esqueceram de avisar que o futuro do homem começou em 1983, quando virou vereador. Ele promete jorrar asfalto nas estradas do interior com a mesma facilidade com que o rio Itapemirim transborda na enchente, deixando o eleitor na dúvida se vota no candidato ou pede um empréstimo consignado direto ao governador milionário.
Do outro lado do ringue, com o apoio ruidoso do senador Magno Malta e das viúvas do bolsonarismo local, surge o ex-prefeito da capital, Lorenzo Pazolini. O homem é delegado de polícia, o que já faz o eleitor comum botar as mãos na cabeça antes mesmo de ouvir a proposta. Pazolini promete uma segurança pública tão implacável que as calçadas de Camburi serão vigiadas por drones com inteligência artificial e os pombos da Praça Oito serão fichados por vadiagem. O problema de Pazolini é convencer o morador da Grande Vitória de que o Espírito Santo pode virar uma Suíça armada. Sua campanha é um festival de pronunciamentos em tom de voz de operação policial às seis da manhã, com uma empáfia digna de Luís XVI.
Não podemos esquecer do professor de filosofia e deputado federal Helder Salomão. Helder fez sua fama governando Cariacica e agora tenta convencer o restante do Estado de que o paraíso na Terra fica logo após o trevo de Alto Lage. Ele vem com o plano da “Esperança”, prometendo incluir o sururu, o peroá e o quindim na cesta básica universal e jurando que a educação capixaba será tão profunda quanto os diálogos de Platão. Nas redes sociais, o professor tenta equilibrar a sisudez das salas de aula com a ginga do palanque. Mas a verdade é que o eleitor olha para ele e se pergunta se vai ganhar uma escola nova ou uma prova de recuperação de trinta questões no final do ano.
Para completar a salada capixaba, temos os extremos do espectro ideológico. O jovem Breno Barcelos, cria do MBL e agora chefe local do Partido Missão, declarou à Justiça Eleitoral que tem exatamente “zero reais” de patrimônio. Nada. Nem um Ford Ka velho. O eleitor, desconfiado por natureza, olha para o rapaz sem bens e pensa: “Se ele não conseguiu administrar a própria carteira para comprar uma bicicleta, como vai cuidar dos bilhões dos royalties do petróleo?”. Breno promete desestatizar até as pedras de Guarapari e privatizar o vento da Terceira Ponte, em discursos cheios de termos em inglês que o cidadão de Nova Venécia precisa de tradutor juramentado para entender.
E correndo por fora, hasteando a bandeira vermelha da Unidade Popular, está Rafael Demuner. Ele é servidor da Ufes e veterano de comandos de greve universitária. Rafael promete estatizar os quiosques de Curva da Jurema e fazer com que a moqueca seja distribuída de forma totalmente igualitária por meio de comitês populares de bairro. O discurso dele é lindo, mas o eleitor sabe que, se a utopia de Rafael vencer, até para comprar um pão de sal na padaria da esquina vai ser preciso organizar uma assembleia geral de três dias com direito a direito de resposta e ata assinada em três vias.
Assim, cidadão fica encurralado entre:
• O governador que tem mais posses do que o xeque de Dubai;
• O delegado que quer dar voz de prisão para o trânsito da Segunda Ponte;
• O filósofo que quer resolver o sumiço do esgoto com dialética e amor;
• O garoto que não tem um tostão furado no bolso, mas quer gerir o Estado;
• E o sindicalista que acha que o Palácio Anchieta é um DCE ampliado.
Diante de tamanha encruzilhada lítero-política, o eleitor do Espírito Santo faz o que sabe de melhor: suspira, morde um pedaço de torta capixaba e torce para que o próximo governador, pelo menos, não proíba o congo no carnaval de Regência e nem o forró de Itaúnas. Porque promessa de campanha a gente já sabe: é igual à ponte para o siri caminhar, some na primeira maré alta.
Rubem Roschel é jornalista e cronista de quinta.

