O impacto das candidaturas ligadas à polícia e forças armadas no Estado; candidatos com risco de inelegibilidade em 2026; e mais

A Agência Pública de Jornalismo Investigativo publicou reportagem nessa segunda-feira (17) destacando que 1.229 profissionais ligados às forças policiais e militares participarão das eleições deste ano, o que representa 5,99% das candidaturas registradas no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) – uma ligeira redução em relação a 2022. Especialistas ouvidos pela agência apontaram como riscos da “policialização” e “militarização” da política o fato de que muitos desses candidatos costumam focar em pautas corporativistas e punitivistas, em detrimento de um debate mais amplo sobre segurança pública. Há, também, uma discussão sobre “policiais influencers” utilizando as forças de segurança como trampolim político, além de questões relacionadas a quanto tempo precisam se afastar do cargo público antes de se candidatar – há quem defenda um período de pelo menos um ano de “quarentena” antes da candidatura, para evitar contaminação. Hoje, um servidor das Forças Armadas ou da polícia tem o privilégio de escolher o partido em que vai se filiar apenas momentos antes do registro eleitoral.
Mas como está essa situação no território capixaba?
Dados
No Espírito Santo, segundo informações do portal de dados abertos do TSE, 33 candidatos registrados (5,6% do total de 585) declararam ocupações relacionadas às forças de segurança, sendo 25 policiais militares, cinco bombeiros militares, dois policiais civis e um militar reformado. Muitos utilizam diferentes referências a patentes (major, cabo, sargento, coronel, etc) e outras identificações no nome urna: 13 para deputado federal e 21 para estadual, sendo 29 homens e cinco mulheres.
Direita e esquerda
Todos os candidatos com “patente” no nome de urna estão filiados a partidos de direita ou centro-direita: Republicanos (8), PL (5), Podemos (4), Novo (3), Democrata (2), DC (2), MDB (2), Missão (2), PSDB (2), PP (1), União Brasil (1) e SDD (1). Nas eleições majoritárias, entre os mais identificados com forças de segurança o candidato a governador Lorenzo Pazolini (Republicanos), delegado da Polícia Civil, e sua vice Eliane Leal (PL), policial militar reformada. No Senado, há também as candidaturas de Fabiano Contarato (PT, delegado da Polícia Civil), à esquerda; Rodney Miranda (PRTB, delegado da Polícia Federal) e Marcos do Val (Avante, instrutor de segurança privada), à direita. Em 2022, teve um candidato a governador filiado a um partido da chamada esquerda radical que era policial militar: Capitão Vinicius Souza (PSTU), que recebeu apenas 4,5 mil votos. Entretanto, esse último caso foi completamente fora da curva.
Mandatos
Dentre os atuais deputados federais, Da Vitória (PP) fez carreira como policial militar, e Gilvan da Federal (PL), como policial federal. Na Assembleia Legislativa do Estado (Ales), cumprem mandatos atualmente Capitão Assumção (PL, Polícia Militar), Coronel Weliton (DC, Forças Armadas) e Danilo Bahiense (PL, Polícia Civil).
Cúpula estadual
Neste ano, pelo menos três ex-membros da gestão estadual que atuaram nas áreas de Segurança e Justiça se colocam como candidatos: o delegado civil Romualdo Gianordoli (Republicanos), ex-subsecretário de Inteligência na Secretaria de Estado da Segurança Pública e Defesa Social (Sesp), que fez acusações ao governo após deixar o cargo; o policial federal Rafael Pacheco (PSB), ex-secretário estadual de Justiça; e o ex-comandante-geral da Polícia Militar do Estado (PMES), Coronel Douglas Caus (Podemos), que já se “estranhou” com a atual “bancada da farda” na Ales.
PPM
Desde a greve da Polícia Militar, ocorrida em 2017, a participação de representantes de entidades policiais e militares no processo político capixaba tem se ampliado. Foi nesse contexto que ganhou fôlego o Projeto Político Militar (PPM), movimento de articulação de associações militares estaduais. Neste ano, o PPM declarou apoio à reeleição de Marcos do Val ao Senado, tendo inclusive indicado um de seus suplentes, o cabo da Polícia Militar Nilton Góes. Também houve uma sinalização anterior de apoio a Lorenzo Pazolini para governador, mas o grupo tem se reunido com candidatos de diferentes espectros políticos, sem fechar declaração de voto. Também há representantes diretos do PPM nas disputas proporcionais, como Sargento Eugênio (Republicanos), candidato a deputado estadual, e Capitão Assis (Republicanos), na disputa por vaga na Câmara dos Deputados.
Número de urna
Em publicação nas redes sociais no último domingo (16), a jornalista Cecília Oliveira, especialista em segurança pública, destacou o número de urna escolhido pelo ex-secretário da Polícia Civil do Rio de Janeiro, Delegado Felipe Curi (PP): 1122. Trata-se de uma referência ao número de mortos na chacina do Complexo da Penha no ano passado (122, incluindo cinco policiais). Para Oliveira, “matar é uma estratégia político-eleitoral” muito utilizada por esse tipo de agentes públicos, mesmo que o “tiro, porrada e bomba” tenha resultados nulos no combate a facções criminosas. No Espírito Santo, o Coronel Caus, conhecido por expressões como “largar o aço” contra “bandidos”, adotou o número de urna 20190 – 190 é o telefone de emergência gratuito da Polícia Militar.
Candidatura ameaçada: Armandinho
O Ministério Público Eleitoral (MPE) pediu a impugnação da candidatura do vereador de Vitória Armandinho Fontoura (PL) para deputado estadual. Isso porque o parlamentar foi condenado em junho deste ano, em decisão colegiada, por falsidade ideológica. Ele utilizou o nome de “Dra. Laura” no WhatsApp para promover ataques contra o advogado Luciano Ceotto, segundo a sentença. De acordo com a Lei Complementar 219/2025, enquadra-se nas hipóteses de inelegibilidade de oitos anos a condenação proferida por órgão colegiado. A lei é alvo de análise em uma Ação Direta de Inconstitucionalidade (ADI) no Supremo Tribunal Federal (STF), mas, de qualquer forma, segundo o MPE, a regra está valendo para as eleições de 2026. A pena de dois anos e três meses de prisão do vereador foi convertida em prestação de serviços à comunidade e multa de R$ 50 mil.
Candidatura ameaçada: Gilvan da Federal
Outro bolsonarista com grandes chances de não conseguir se candidatar é Gilvan da Federal (PL). Ele foi condenado em segunda instância por violência política de gênero praticada contra a deputada estadual Camila Valadão (Psol), quando ambos eram vereadores de Vitória, mas o presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), ministro Kássio Nunes Marques, liberou o registro da candidatura, mesmo que não tenha anulado a condenação. Agora, o Ministério Público Eleitoral pede a impugnação de Gilvan em definitivo. O deputado também se tornou réu no Supremo Tribunal Federal (STF) por ter falado que desejava a morte do presidente Lula (PT).
Candidatura ameaçada: Tininho Batista
O MPE também pediu a impugnação da candidatura do ex-prefeito de Marataízes (litoral sul), Tininho Batista (PV). Em novembro de 2025, a Câmara Municipal de Marataízes acatou parecer do Tribunal de Contas do Estado do Espírito Santo (TCES) para julgar irregulares as suas contas referentes ao exercício de 2020, o que o tornaria inelegível por oito anos. O Ministério Público Eleitoral ressalta, ainda, que a gestão de Tininho incorreu em prática irregular contínua de utilizar recursos de royalties de petróleo para custear despesas correntes da prefeitura nos exercícios de 2017, 2018, 2019, 2020 e 2021, conforme o parecer do TCES.

