Sindibancários cobra ganho real de 5% e manutenção da convenção nacional

Os bancários realizam nesta quinta-feira (20) uma paralisação nacional de quatro horas em reação à proposta apresentada pelos bancos durante as negociações da campanha salarial da categoria. O Sindibancários, que representa a categoria no Estado, articula o fechamento de unidades na Grande Vitória e também busca mobilizar trabalhadores do interior. Segundo a entidade, a quantidade exata de agências que terão as atividades interrompidas só será conhecida ao longo desta quarta-feira (19), à medida que as equipes organizarem a adesão.
A paralisação foi aprovada após os bancários rejeitarem, em assembleias realizadas na segunda-feira (17), a proposta apresentada pela Federação Nacional dos Bancos (Fenaban). Para o sindicato, a oferta representa uma ameaça a um dos principais pilares da categoria: a existência de uma negociação nacional com pisos salariais e benefícios comuns aos trabalhadores de diferentes regiões do país.
De acordo com a avaliação apresentada pelo Sindibancários, a proposta dos bancos prevê reajustes diferenciados conforme a faixa de renda dos trabalhadores e mudanças nos valores de benefícios como vale-alimentação e vale-refeição. A entidade considera que esse modelo pode romper a lógica de uma convenção coletiva nacional, na qual bancários de diferentes estados possuem uma mesma base de direitos.
“Nós somos a única categoria no Brasil, hoje, que temos uma convenção coletiva nacional. Então, bancários de norte a sul do Brasil têm os mesmos pisos salariais, os mesmos pisos de vale-alimentação e vale-refeição, um arcabouço de direitos e garantias que são iguais”, afirmou o dirigente sindical André Tosta.
Na avaliação da entidade, a proposta apresentada pela Fenaban introduz diferenças que podem levar à fragmentação das condições de trabalho dentro da categoria. O sindicato afirma que os bancos propuseram reajustes salariais definidos de acordo com faixas de renda, além de mudanças nos valores de alimentação que também não seguiriam necessariamente a mesma lógica nacional.
A categoria reivindica, entre outros pontos, valorização salarial com ganho real. Segundo o diretor do Sindibancários, a indicação defendida pelos trabalhadores é de 5% de ganho real, além da recomposição salarial. O sindicato também cobra a manutenção das conquistas previstas na convenção coletiva nacional e a retomada do diálogo entre trabalhadores e instituições financeiras.
André Tosta também contesta um dos argumentos utilizados pelos bancos nas negociações: o avanço das fintechs e dos bancos digitais como justificativa para a redução de estruturas físicas e do número de trabalhadores. Segundo ele, as instituições financeiras têm associado a expansão dos serviços digitais à necessidade de reduzir custos, com fechamento de agências e diminuição do quadro de bancários. O sindicato, porém, sustenta que os resultados financeiros do setor não justificam a redução da massa salarial.
“Muitos bancos têm dito pra gente sobre o avanço das fintechs e dos bancos digitais sobre o modelo de negócios deles, que isso seria um novo agente de competição do mercado e isso está diminuindo a margem de lucratividade deles”, afirmou. “Quando a gente olha os dados, a lucratividade do setor financeiro não diminuiu. Ela desacelerou um pouco, mas eles não estão tendo prejuízo.”
A entidade questiona a ideia de que as agências físicas deixaram de ser necessárias e defende que a manutenção de serviços presenciais em correspondentes bancários, casas lotéricas e cooperativas de crédito demonstra que existe demanda por esse tipo de atendimento. O problema, segundo a avaliação sindical, estaria na forma como esse atendimento é organizado. Trabalhadores de correspondentes bancários, lotéricas e cooperativas não estão submetidos à mesma convenção coletiva dos bancários e, segundo o sindicato, recebem salários e possuem garantias diferentes. “Se os atendentes na lotérica, no correspondente bancário e nas cooperativas de crédito fossem remunerados, estivessem sob a proteção da convenção coletiva dos bancários, eles seriam trabalhadores mais protegidos, melhor remunerados”, afirmou.
O Sindibancários classifica esse processo como uma forma de precarização do trabalho. No caso dos correspondentes bancários e lotéricas, a entidade compara a situação a uma terceirização, enquanto, em relação às cooperativas, argumenta que os bancos estariam transferindo parte do atendimento presencial para um segmento com trabalhadores submetidos a outras regras.
Para o sindicato, a mudança ajuda a reduzir os custos das instituições financeiras sem necessariamente eliminar a necessidade de atendimento presencial. “O atendimento presencial acontece de forma mais barata, porque para o empregado de uma lotérica, de um correspondente bancário ou de uma cooperativa de crédito, o salário é menor, as garantias são menores, a cobrança é quase a mesma, os produtos são os mesmos”, disse.
A mobilização desta quinta-feira é tratada pelo sindicato como uma paralisação pontual, com duração de quatro horas, com objetivo de demonstrar a unidade da categoria e pressionar os bancos antes da retomada das negociações. Segundo o Sindibancários, a negociação nacional já passou por seis rodadas. Na última semana, o Comando Nacional dos Bancários recebeu uma proposta dos bancos em resposta à minuta de reivindicações apresentada pela categoria. A entidade considera que a oferta rompe com aspectos históricos da negociação coletiva.
“Foi uma proposta que o Comando Nacional dos Bancários colocou como uma provocação à categoria, por ela ser uma proposta que quebra alguns pilares antigos da nossa instituição”, afirmou o diretor do Sindibancários. A paralisação foi então aprovada pelas assembleias dos trabalhadores, que rejeitaram a proposta e deliberaram pela mobilização de quatro horas.
O sindicato espera ampliar a adesão ao longo desta quarta-feira. O número final de unidades que efetivamente terão as atividades interrompidas, no entanto, deve ser conhecido somente próximo à paralisação. Além da questão salarial, a organização vê a mobilização como uma forma de defender o modelo de negociação nacional construído pela categoria ao longo de décadas. O sindicalista lembra que, no passado, trabalhadores de uma mesma instituição podiam ter remunerações e garantias diferentes conforme o estado ou a região onde trabalhavam.
Essa diferenciação, segundo ele, produzia disparidades entre trabalhadores que exerciam as mesmas funções. A construção de uma negociação nacional teria reduzido essas diferenças e estabelecido uma base comum de direitos. “Os bancários estavam executando as mesmas atividades. Às vezes ocorria uma transferência de estado e demorava para se fazer o ajuste dessas remunerações”, afirmou.
Por isso, o sindicato considera que a proposta atual não representa apenas uma discussão sobre o percentual de reajuste, mas também sobre a preservação da estrutura nacional de direitos da categoria. As negociações devem ser retomadas na próxima semana, segundo o Sindibancários. Para a entidade, o retorno à mesa depende de uma proposta que permita avançar na valorização salarial e preserve a unidade nacional da categoria.

