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Veneno em dose digital

Ou como a extrema direita oferece um curso internacional para sibilar melhor

Fernando Frazão / Agência Brasil

O Brasil virou palco de um espetáculo tragicômico: o eleitor alimenta cobras digitais sem perceber. Cada compartilhamento de fake news é um ratinho servido no banquete da desinformação. E as serpentes crescem. Sibilam daqui, mordem dali, até que o veneno escorre para dentro das urnas. E como se não bastasse o zoológico nacional, agora temos intercâmbio internacional de veneno. No Consulado dos EUA em São Paulo, o Governo Trump resolveu oferecer um curso especial para influenciadores da ultradireita brasileira. É a aula magna da serpente: rodas de conversa em pequenos grupos, com diplomatas ensinando como transformar mentira em “liberdade de expressão” e fake news em “debate democrático”.

Uma influenciadora do delirante Brasil Paralelo saiu de lá sorridente, como quem recebe certificado de “Mestre em Embuste Aplicado”. Ao lado dela, outros astros do ecossistema bolsonarista posaram para fotos, orgulhosos de terem participado da versão internacional do curso “Master em Manipulação”. O consulado virou sala de aula de serpentes: cada encontro é uma oficina de como sibilar melhor, como espalhar veneno com mais eficiência, como enganar o eleitor sem perder o sorriso.

Enquanto isso, o Tribunal Superior Eleitoral, o velho e bom TSE, já cansou de repetir: não existe fraude nas urnas eletrônicas. Em 2022, mais de quatrocentos conteúdos falsos foram removidos por ordem judicial, incluindo vídeos e postagens que atacavam o sistema eleitoral. Em 2024, o programa “Fato ou Boato” recebeu nove milhões de acessos, mostrando que o eleitor brasileiro vive cercado por mentiras em escala industrial. Em 2026, o TSE ampliou parcerias com plataformas digitais para criar páginas educativas e treinar partidos para a utilização de boas práticas. Ou seja: a Justiça Eleitoral virou domadora de cobras, tentando colocar coleira em serpente que insiste em rastejar.

E não faltam exemplos de como essas serpentes se alimentam. A primeira pérola é a mamadeira erótica. Em 2018, espalhou-se a ideia de que o Governo distribuiria mamadeiras com bicos em formato fálico para crianças nas creches. Sim, a cobra conseguiu convencer milhares de pessoas de que o Estado brasileiro tinha virado sex shop infantil. O boato foi tão absurdo que virou piada internacional, mas ainda assim foi compartilhado como se fosse revelação divina.

Depois veio o kit gay, ressuscitado a cada eleição como um zumbi. A mentira dizia que o Ministério da Educação distribuía cartilhas para “transformar crianças em homossexuais”. O MEC desmentiu, o TSE desmentiu, mas a cobra insistia em sibilar. E o eleitor, em vez de rir, engolia o veneno.

A terceira invenção é a eterna “fraude nas urnas eletrônicas”. Desde os anos 2000, a extrema direita repete que o sistema é manipulado. O TSE já fez testes públicos, auditorias, abriu código-fonte, convidou especialistas. Nada. Absolutamente nada. Candidatos da extrema direita foram eleitos e, mesmo assim, mantiveram a dúvida infundada. A cobra não se cala: sibila que há fraude, mesmo sem prova. É o veneno da desconfiança, espalhado para corroer a fé na democracia.

Uma das obras-primas do hospício digital foi a vacina com chip 5G. Durante a pandemia, espalhou-se que as vacinas continham microchips para controlar a população. O WhatsApp virou manicômio coletivo, com gente acreditando que ia virar antena de celular ao tomar a dose. A cobra, nesse caso, conseguiu transformar ciência em ficção científica barata. Aliás, a cobra quase virou jacaré.

E agora mais uma mentira é propagada: a perseguição ao clã Bolsonaro. Com versão internacional, ecoada por Trump em documento oficial. Segundo eles, Lula e o Governo brasileiro perseguem o ex-presidente e família. Na prática, o que existe são investigações judiciais, mas a cobra transforma processo legal em perseguição política. É o velho truque: posar de vítima para justificar o veneno.

O eleitor, muitas das vezes, acha que está “exercendo a liberdade de expressão” ao compartilhar vídeos duvidosos. Mas na prática está engordando a cobra. E cobra bem alimentada não vai pedir licença para picar. É como se o cidadão fosse ao zoológico e, em vez de jogar amendoim para os macacos, que já seria uma idiotice, jogasse fake news para as serpentes. Resultado: cobra feliz, democracia envenenada.

O mais perigoso não é só a mentira em si, mas o efeito colateral: o emburrecimento coletivo. A extrema direita não quer apenas enganar, quer transformar o eleitor em papagaio que repete sem pensar, em cobaia que engorda cobra sem perceber. É a política do embrutecimento, da simplificação grotesca, a mentira com cara de verdade. É como se dissessem: “Não pense, apenas compartilhe. Não questione, apenas repita. Não duvide, apenas obedeça.” O eleitor vira hospedeiro do veneno e o veneno se espalha como epidemia.

Ninguém é ingênuo a ponto de acreditar que alimentar cobra pode dar bom resultado. O eleitor precisa entender que não existe “mentir por patriotismo”, nem “fake news do bem”. A mentira é e sempre será: mentira! O veneno é sempre veneno. Se quiser preservar a democracia, o cidadão tem que buscar a melhor informação, checar fontes confiáveis, desconfiar de vídeos milagrosos e manchetes apocalípticas. Não se deixar enganar é um ato de resistência. Porque, no fim das contas, quem alimenta cobra não ganha amigo — ganha um inimigo com presas afiadas.

E aqui está o ponto crucial: a democracia não se sustenta com veneno, mas com informação de qualidade. O eleitor precisa ser mais esperto que as cobras, mais crítico que os papagaios, mais atento que os ratos. Precisa saber que democracia não é zoológico, é construção coletiva. E que, se continuar alimentando serpentes digitais — treinadas até em cursos internacionais no consulado dos EUA — em breve não haverá democracia para rir, apenas o silêncio do veneno.

Rubem Roschel é jornalista e cronista de quinta.

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