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Maior manifestação LGBTI+ do Estado volta às ruas em defesa da diversidade

Evento deve reunir 15 mil pessoas em Jacaraípe, na Serra, no próximo dia 21

Maria Júlia/Fórum LGBT da Serra

Com expectativa de reunir 15 mil pessoas nas ruas de Jacaraípe, o XVI Manifesto LGBTI+ da Serra será realizado neste domingo (21), sob o tema “Diversidade é Democracia: Corpos, Territórios e Direitos em Resistência à LGBTIfobia”. A mobilização será uma demonstração de força política diante do avanço de discursos conservadores e das ameaças a direitos conquistados pela população LGBTI+, como destacam militantes do Fórum Municipal pela Cidadania LGBTI+ que participam da organização do evento.

Uma das novidades da edição deste ano é a presença de uma atração nacional, cujo nome ainda vai ser anunciado. A concentração está marcada para as 12 horas, em frente ao antigo Hotel Praia Linda. O trio elétrico vai percorrer as ruas do balneário até a Praça Encontro das Águas, onde, a partir das 15 horas, ocorrem os shows e apresentações culturais.

Considerado o maior manifesto da diversidade do Estado e o terceiro maior evento da Serra – atrás apenas da Festa da Serra e da Festa de São Benedito de Nova Almeida —, o ato será realizado pela primeira vez em junho, mês em que é celebrado internacionalmente o Orgulho LGBTI+. Presidente do Fórum Municipal pela Cidadania LGBTI+ da Serra, Kassandro Santos explica que o tema da edição foi definido ainda em setembro do ano passado e procura dialogar com o cenário político atual.

Segundo ele, a mudança de data acabou conferindo um significado especial à mobilização. Embora tradicionalmente o manifesto seja realizado em janeiro, dificuldades enfrentadas nos últimos anos impediram que o calendário original fosse mantido. “É a primeira vez que a gente está fazendo em junho, e isso é muito representativo por ser o Mês do Orgulho. A gente acredita que vai dar um público bom e conseguir somar muitas vozes para se divertir, para mostrar que nós existimos, que estamos aqui, que fazemos parte, e que nosso corpo faz parte do território”, enfatiza.

O dirigente ressalta que, apesar das dificuldades e dos adiamentos registrados nos últimos anos, a realização do evento nunca deixou de acontecer. Depois de uma edição em que a organização não conseguiu concretizar a contratação de um nome de projeção nacional, o manifesto deste ano vai contar com uma artista conhecida do grande público.

Nas redes sociais, o engajamento em torno da programação também tem animado os organizadores. A expectativa é, ao menos, repetir o público estimado em cerca de 15 mil pessoas que participaram da edição passada. Embora o manifesto seja marcado por shows e celebrações, o Fórum insiste que o caráter político continua sendo central para a mobilização.

Para a militante Laysa Lima, diretora da Aliança Nacional LGBTI+ e integrante histórica do Fórum LGBTI+ da Serra, a dimensão política do evento vai além das reivindicações imediatas. “O manifesto vai além do momento da celebração, do orgulho. É também a afirmação e a reafirmação de que estamos vigilantes a todos esses processos”, afirmou.

Ela aponta que muitos dos direitos conquistados pela população LGBTI+ ainda não estão consolidados como políticas permanentes de Estado e podem ser desmantelados por mudanças de governo ou pela aprovação de projetos de lei, “que tentam, todo custo, acabar com o pouco que a gente já tem”, alerta.

Na avaliação da militante, os processos eleitorais também exercem papel decisivo na preservação desses avanços. “O coletivo é extremamente importante na manutenção dessas políticas, mas os processos eleitorais também são importantes para entender quem de fato defende a política LGBT e quem de fato não”, afirmou. “O manifesto é um ato político, mas é muito além disso. Ele é a construção sólida da nossa existência do ontem, do agora e do futuro”, prossegue.

Uma das reivindicações históricas do Fórum é a criação do Conselho Municipal LGBT da Serra, que ainda não existe no município. Kassandro afirma que as conversas com a Secretaria Municipal de Direitos Humanos continuam em andamento e a proposta é iniciar a criação de um grupo de trabalho responsável pela elaboração da estrutura do conselho. “A minuta já está pronta, mas precisamos também do apoio dos vereadores, porque vai ter que passar pela Câmara. Mas sabemos da Câmara que a gente tem na Serra, então vai ser um trabalho de formiguinha”, afirma.

Enquanto isso, o movimento segue reivindicando políticas públicas mais abrangentes. “Lutamos por políticas públicas efetivas para a população LGBT na Serra. Por uma saúde e uma educação que realmente sejam inclusivas e diversas. Lutamos para que nossas identidades sejam respeitadas e para que a gente consiga acessar todos os espaços, porque também fazemos parte e construímos essa cidade”, enumera.

Apesar dos desafios políticos, Laysa Lima avalia que a Serra se destaca entre os municípios capixabas pela continuidade de ações voltadas à população LGBTI+. Entre os exemplos citados pela militante está o ambulatório trans da Unidade de Saúde de Boa Vista, em funcionamento há dois anos. O serviço, segundo ela, já atendeu mais de 150 pessoas trans, travestis e não binárias, e conta com médico, enfermeiro, psicólogo e assistente social.

Ela também menciona parcerias para retificação de nome e gênero, iniciativas voltadas para empregabilidade, e novos cursos destinados à população LGBTI+. “São essas microações que fomentam esse diagnóstico de como a cidade vem promovendo políticas e direitos humanos”, afirmou. Ainda assim, Laysa ressalta que os avanços convivem com ameaças permanentes.

“O desmantelamento das políticas não começa embaixo. Ele vem de cima. Vem do Congresso Nacional, das forças que compõem os legislativos. Por isso a gente precisa estar vigilante”, reforça. Para os organizadores, a mensagem principal permanece a mesma depois de 16 edições de manifesto ocupando as ruas. “Além de cidadania, respeito, amor e diversidade, é também uma mensagem de visibilidade. Mostrar que nós existimos”, exalta Kassandro.

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