Beco sem estrutura dificulta mobilidade e segurança da comunidade em Vitória

Moradores do bairro Tabuazeiro, em Vitória, denunciam a falta de execução de uma obra pública que, segundo registros oficiais da própria gestão municipal, já teria sido concluída. O caso envolve um beco localizado na Rua Major José Cruz do Nascimento, onde vivem várias famílias e por onde transitam diariamente idosos, crianças e trabalhadores.
De acordo com o sistema da prefeitura, a solicitação de serviço foi aberta em maio de 2025, com objetivo de fazer a recuperação do pavimento pré-moldado ou de paralelepípedos na localidade. O pedido incluía a correção de uma ladeira considerada muito íngreme, além da melhoria das condições de acessibilidade no trecho. Apesar de constar no sistema como “executado” desde setembro do mesmo ano, moradores afirmam que nenhuma intervenção foi realizada no local.
O comerciante Patrick de Souza relata que acompanhou o andamento da solicitação e se surpreendeu ao descobrir que o serviço havia sido oficialmente concluído. O chamado foi registrado ainda durante a gestão do ex-prefeito Lorenzo Pazolini (Republicanos), cargo agora ocupado por Cris Samorini (PP).
Segundo Patrick, uma equipe técnica esteve no local em maio de 2025 para realizar medições. No entanto, após essa visita inicial, nenhuma obra foi iniciada. “Eles vieram, fizeram a medição, mas não bateram um prego. Depois disso, nunca mais voltaram”, afirma.
Patrick conta que, ao buscar informações, foi informado por um contato ligado à Central de Serviços que a ordem de serviço já estaria com a empresa responsável. No entanto, no sistema municipal, o status aparece como finalizado. “Se consta como executado, a empresa já recebeu por esse serviço. Mas a obra não foi feita. Tem alguma coisa errada”, questiona.
As imagens do local mostram um beco estreito, com piso irregular e uma descida acentuada formada por uma base de pedra coberta de forma improvisada com concreto. Não há corrimão, e o trajeto apresenta buracos e sinais de desgaste. Moradores apontam que a situação se agrava em dias de chuva, quando há formação de poças e o piso se torna escorregadio. Em alguns casos, relatam a necessidade de improvisar passagens com pedaços de madeira. “Tem idoso que já caiu duas vezes ali. Minha sogra, que tem mais de 60 anos, tem dificuldade para subir e descer. Não tem corrimão, não tem segurança”, descreve Patrick.
O beco dá acesso a mais de seis residências e, para algumas famílias, é a única via de entrada e saída. O transporte de compras, mudanças e até o deslocamento com carrinhos de bebê são apontados como grandes desafios. “Com carrinho de bebê não tem como passar. Só levantando com duas pessoas. Empurrando é impossível”, relatou.
Além da pavimentação adequada da ladeira, os moradores também solicitaram a instalação de corrimões e a oficialização do nome do beco, que atualmente não possui identificação própria, embora esteja vinculado à rua principal, Rua Major José Cruz do Nascimento.
Novos chamados foram registrados recentemente, incluindo pedidos classificados como urgentes. Até o momento, de acordo com os relatos, não houve retorno efetivo por parte do poder público.
Para o comerciante, o caso levanta preocupações sobre a transparência e o acompanhamento das obras públicas, especialmente quando há divergência entre os registros oficiais e a realidade encontrada no local. Também evidencia a contradição da prefeitura ao divulgar ações voltadas ao Programa Escada Acessível, que prevê uma série de intervenções estruturais voltadas à mobilidade urbana em áreas de morro.
O investimento total anunciado foi de R$ 60,7 milhões, com recursos próprios, dentro de um planejamento estratégico maior voltado à urbanização e qualificação dos espaços públicos, especialmente em regiões mais vulneráveis, como informa a gestão em seu portal oficial. O projeto contempla a reconstrução e reforma de escadarias e rampas, com recuperação de degraus danificados, instalação de corrimãos para garantir segurança, além da reestruturação das redes de esgoto e drenagem de águas pluviais, visando também melhorias no saneamento básico.
Com 40% do território formado por morros, a Capital capixaba tem 612 escadarias, somando cerca de 54 quilômetros, informa a administração, que optou por dividir a cidade em três grandes áreas, com contratos licitados para diferentes empresas responsáveis pelas intervenções, sob alegação de ampliar a capacidade de atendimento simultâneo das demandas. As obras já teriam sido realizadas em diversos bairros, incluindo Tabuazeiro, e seguem em andamento em outras localidades.
A situação tem afetado diretamente a rotina dos moradores, principalmente os mais vulneráveis, que seguem enfrentando dificuldades diárias, riscos de acidentes e ausência de infraestrutura básica. “É uma questão de segurança. Não é só conforto, é risco real de queda”, reforça Patrick.

