Autonomia econômica é resposta à exclusão, diz Jovanna Baby, do Fonatrans
Vitória recebe, entre os próximos dias 23 e 26, um seminário nacional voltado à promoção da autonomia econômica de pessoas trans negras. O encontro “TRANSenegrecendo as Oportunidades de Empreendedorismo e Geração de Renda para Travestis e Transexuais Negras e Negres” será realizado no Museu Capixaba do Negro Verônica da Pas (Mucane), localizado no Centro da Capital, e pretende oferecer formação, fortalecer lideranças e ampliar caminhos de inserção no mercado de trabalho.
O evento, realizado pelo Fórum Nacional de Travestis e Transexuais Negras e Negros (Fonatrans), vai reunir capixabas e participantes de outras regiões do País em quatro dias de programação, incluindo conferências, mesas de diálogo, atividades formativas e trocas de experiências sobre temas como empreendedorismo, geração de renda, saúde mental, tecnologia, comunicação e impacto social.
A iniciativa ocorre em um contexto de “desemprego estrutural e barreiras persistentes” quando se trata da população trans, que não acompanha a tendência de queda do desemprego no país, como descreve a Associação Nacional de Travestis e Transexuais (Antra) anualmente em dossiês sobre a violência contra a população transgênero. Em 2025, o Brasil registrou a menor taxa de desemprego da série histórica, de 5,6%, sem que esse avanço se refletisse de forma significativa na realidade de travestis e transexuais.
A desigualdade é ainda mais acentuada entre mulheres trans, cuja taxa de participação é de 20,7%, frente a 31,1% entre os homens trans. Além disso, pessoas trans com emprego formal recebem, em média, salários 32% menores do que os da população em geral. O recorte racial agrava ainda mais o cenário. Segundo o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), uma pessoa trans preta recebe, em média, 80% do salário de uma pessoa trans branca e 26% a menos do que uma pessoa preta na população geral.
Este ano, o dossiê “Assassinatos e Violência contra Travestis e Transexuais no Brasil”, da Antra, reiterou que a exclusão do mercado formal começa ainda na educação, em um processo marcado por evasão escolar forçada, violência e discriminação. Esse conjunto de fatores limita o acesso à qualificação profissional e restringe as possibilidades de inserção em empregos formais.
A organização também aponta que, diante dessas barreiras, muitas travestis e mulheres trans acabam sendo “empurradas de forma compulsória” para ocupações marcadas pela precariedade, como para “a prostituição e o trabalho sexual, como resultado direto da exclusão do mercado formal, da evasão escolar forçada e da discriminação estrutural”. A entidade destaca que a combinação entre transfobia estrutural, baixa escolaridade e restrições no mercado de trabalho mantém um ciclo de exclusão que dificulta a construção de autonomia econômica.
Além das barreiras de acesso, o preconceito também impacta a permanência no emprego. Relatórios da Antra ressaltam que a transfobia se manifesta desde os processos seletivos até o cotidiano nas empresas, com dificuldades no reconhecimento do nome social, restrições no uso de banheiros e ambientes de trabalho hostis.
Nesse contexto, o seminário do Fonatrans buca ampliar o acesso à informação, compartilhar experiências bem-sucedidas e desenvolver habilidades voltadas à geração de renda e à sustentabilidade financeira. A presidenta da entidade, Jovanna Baby, destaca que o evento é realizado anualmente e tem como foco principal a formação profissional. O seminário apresenta experiências de empreendedorismo e gestão e autonomia econômica, com o objetivo de demonstrar que pessoas trans podem construir trajetórias fora dos espaços historicamente impostos.

“O resultado é ver pessoas trans motivadas, conscientes de que são capazes de gerar renda para o próprio sustento, sem serem obrigadas ao único mercado para o qual a sociedade as empurra”, afirma. Ela também ressalta que o encontro contribui para a formação de redes de apoio, que se estendem para além do evento e ajudam a disseminar informações e oportunidades.
Segundo ela, embora o Espírito Santo ainda não conte com dados sistematizados sobre empregabilidade trans, o cenário capixaba não difere do restante do país, sendo marcado pela exclusão do mercado formal de trabalho e pela precarização das condições de vida. Essa realidade também se reflete na própria trajetória da militante, que viveu a maior parte da vida no Estado e afirma nunca ter acessado um emprego formal, recorrendo à prostituição e a trabalhos informais, como serviços de limpeza, como alternativas de sobrevivência.
O Atlas das Mulheres do Espírito Santo, lançado neste ano, reconhece que a falta de informações sistematizadas sobre a empregabilidade de pessoas trans dificulta o desenvolvimento de ações mais eficazes no enfrentamento das desigualdades.
A escolha do Espírito Santo como sede também carrega um simbolismo histórico. Foi no Estado que surgiu, em 1979, a Associação Damas da Noite, considerada a primeira organização no Brasil a reunir prostitutas cis, trans e travestis. A associação foi idealizada e liderada por Jovanna nos primeiros anos de sua militância política. Retomar esse território é também reconhecer trajetórias de resistência e organização política, considera a ativista.
Ao apostar na formação e no empreendedorismo como ferramentas de transformação, o seminário busca não apenas ampliar oportunidades individuais, mas também provocar mudanças estruturais. A expectativa dos organizadores é que os participantes retornem às suas cidades com novos conhecimentos, fortalecidos em redes e com condições mais concretas de construir alternativas de renda.

