Carta aberta contesta posicionamento da gestão após atos contra catracas

O Coletivo Neurodivergente da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes) cobra medidas de acessibilidade no Restaurante Universitário (RU) do campus de Goiabeiras, em Vitória, e acusa a gestão da instituição de distorcer demandas estudantis após as mobilizações realizadas na semana passada contra a instalação de portas giratórias no local.
Em nota à comunidade universitária publicada nesse fim de semana, o pró-reitor de Assistência Estudantil, Antônio Carlos Moraes, afirmou que a gestão “conseguiu atender a todas as reivindicações” da lista apresentada pelos estudantes e defendeu que a instalação das catracas é necessária para garantir controle e registro dos acessos, além de assegurar “segurança alimentar, sanitária e fiscal” no funcionamento do restaurante.
Ele também sustentou que “nenhuma pessoa usuária, com alguma dificuldade de mobilidade ou falta de biometria, foi impedida de acessar o salão de refeições”, e criticou uso da pauta da deficiência nos protestos, classificando como “desrespeito com a nossa comunidade” a associação entre acessibilidade e as críticas ao novo sistema.
Em carta aberta de resposta, o coletivo aponta que medidas como atendimento preferencial no RU, garantia de atendimento prioritário, capacitação de servidores e criação de um grupo de trabalho sobre acessibilidade foram apresentadas diretamente à Reitoria em diferentes momentos, mas apenas parte das propostas foi parcialmente atendida.
Entre as ações que continuam pendentes, estão a implementação efetiva da fila preferencial – hoje inexistente no acesso ao restaurante -, adequação de sinalizações ainda consideradas capacitistas, e o cumprimento da legislação que garante atendimento prioritário, além de adaptações para melhorar a mobilidade e as condições sensoriais no espaço, explica a integrante do coletivo, Kael Miguel Lopes.
Em um dos pontos de atendimento do RU, por exemplo, há uma placa de “atendimento prioritário” que ainda utiliza os termos “portadores de autismo” e “portadores de deficiência física”, considerados ultrapassados pelo coletivo. A correção da sinalização já foi solicitada há semanas, sem retorno da gestão, afirma a estudante, que também questiona a priorização de investimento de cerca de R$ 196 mil nas catracas, enquanto demandas consideradas básicas seguem sem solução.

“Alguns pontos são medidas de baixo custo que poderiam ser resolvidas com muita facilidade, mas não avançam, enquanto há investimentos em catracas giratórias e biometria facial”, destaca. Para ela, essas decisões “favorecem a não entrada dessas pessoas”.
A manifestação do coletivo ocorre na sequência dos atos realizados na semana passada, que coincidiram com uma reunião do Conselho Universitário (CUn), na última quinta-feira (23), quando o movimento estudantil reforçou críticas mais amplas à política de funcionamento do RU. Além da retirada das catracas, foi denunciado o aumento das filas, dificuldades de acesso causadas pelo sistema de biometria facial – ainda não regularizado para parte dos usuários -, ausência de diálogo com a administração, e o que classificam como “descumprimento de acordos” por parte da gestão.
Após os atos, foi articulada uma reunião para essa segunda-feira (27), quando o Conselho assumiu o compromisso de convocar uma reunião extraordinária para debater o RU e organizar uma audiência pública sobre o assunto aberta à comunidade estudantil. As duas iniciativas ainda não têm data definida, relata a representante do coletivo, que alerta que, apesar do foco recente nas roletas, o problema é mais amplo: ainda há estudantes com dificuldade de acessar a alimentação de qualidade, seja pelas barreiras físicas, pelo tempo de espera ou pelas condições de atendimento.
Embora não seja o foco central, a instalação das catracas é apontada como agravante para estudantes com mobilidade reduzida. Na carta, o coletivo afirma que o acesso alternativo – por meio de uma porta destrancada manualmente – gera constrangimento e atraso. Na carta aberta, a Pró-Reitoria de Políticas de Assistência Estudantil (Propaes) é acusada de manter um posicionamento continuado” de não escutar as demandas estudantis, e a gestão de “fabricar uma narrativa contendo diversas inverdades”, com o objetivo de deslegitimar reivindicações e dividir a comunidade universitária.
“Nota-se ainda uma tentativa de deslegitimação clara do único coletivo com atuação protagonizada por pessoas neurodivergentes e com deficiência na universidade”, afirma o texto. O coletivo também relata tentativa de uso de suas pautas em ações de comunicação institucional. Segundo Kael, integrantes foram colocados em situação encenada de prioridade durante gravação sobre acessibilidade no RU. “Para mostrar na reportagem funciona, mas para virar política pública, não acontece”, critica. Após o episódio, o grupo solicitou que as imagens não fossem utilizadas.

