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Conflitos no campo voltam a crescer no Estado no primeiro semestre de 2026

Comissão Pastoral registrou nove ocorrências, entre disputas por terra e água

PMA

O Espírito Santo registrou nove conflitos no campo no primeiro semestre de 2026, sendo quatro relacionados à terra e cinco à água, segundo dados parciais da Comissão Pastoral da Terra (CPT). O levantamento mostra uma retomada dos conflitos no Estado após a redução registrada em 2025, quando foram contabilizadas 11 ocorrências ao longo de todo o ano.

Nos conflitos por terra registrados no primeiro semestre deste ano, foram três ocorrências de violência e uma de resistência, relacionada a uma ocupação. Já entre os conflitos pela água, foram cinco registros. As ocorrências se concentram novamente em territórios onde comunidades tradicionais, pescadores, indígenas e trabalhadores rurais convivem com pressões de grandes empreendimentos, atividades econômicas e disputas pelo acesso aos recursos naturais.

Além dos conflitos contabilizados nos eixos terra e água, a CPT registrou uma série de manifestações de luta no Estado. Essas mobilizações não entram no cálculo dos conflitos, mas são acompanhadas pela entidade como formas de resistência e enfrentamento adotadas pelas comunidades para denunciar violações e reivindicar direitos.

Em Aracruz, na região norte, a Comissão registrou que indígenas da Terra Indígena Tupinikim, na Aldeia Tupinikim Pau-Brasil, realizaram, em janeiro, dois bloqueios do Ramal Ferroviário Piraqueaçu da Ferrovia Vitória-Minas, para denunciar a falta de reparação pelos prejuízos ainda enfrentados dez anos após o rompimento da barragem de Fundão e a chegada dos rejeitos de minério ao território tradicional. As mobilizações tiveram entre as reivindicações a consulta prévia, livre e informada, o combate à impunidade e a oposição à atuação das mineradoras Samarco, Vale e BHP, responsáveis pelo crime socioambiental da bacia do Rio Doce, atingida pelo rompimento da barragem de rejeitos. Mais de uma década após o crime, os impactos seguem presentes nas aldeias, afetando o meio ambiente, a alimentação e a saúde das comunidades indígenas, com impactos irreversíveis ao modo de vida tradicional.

Em junho, também no município, pescadores artesanais da Barra do Riacho realizaram duas mobilizações relacionadas às condições ambientais da região e aos impactos na atividade pesqueira. Em audiência pública organizada pela Associação de Pescadores da Barra do Riacho, os pescadores denunciaram a Imetame por não cumprir condicionantes ambientais determinadas ainda na fase de instalação do empreendimento e pediram que o Instituto Estadual de Meio Ambiente e Recursos Hídricos (Iema) não concedesse a Licença de Operação (LO) do Terminal Portuário Imetame. As associações também pediram a suspensão do processo de licenciamento da ampliação do porto até que seja elaborado, com participação das comunidades, um novo Plano de Compensação da Atividade Pesqueira (PCAP). A audiência contou com a presença de representantes da empresa, do governo estadual e do Iema.

Semanas depois, os pescadores realizaram um protesto no local, cobrando o cumprimento de acordos e a defesa da água e do meio ambiente. As mobilizações ocorreram na região do Estaleiro Jurong de Aracruz, território onde a atividade pesqueira convive com a presença de grandes empreendimentos industriais e portuários. Os registros da CPT apontam as questões ambientais e a atuação do Iema entre os elementos relacionados às reivindicações dos pescadores.

Ainda no norte do Estado, as comunidades quilombolas do Sapê do Norte também aparecem entre os grupos mobilizados. Cerca de 30 quilombolas da comunidade de Angelim II, em Conceição da Barra, bloquearam a BR-101 em maio. A ação cobrava providências após a contaminação ambiental provocada por vazamento e descarte irregular de resíduos oriundos da destilação da cana-de-açúcar, possivelmente vinhaça ou vinhoto, provenientes das instalações da Usina Alcon, que provocou mortandade de peixes e camarões Córrego do Matador, que deságua no Rio Angelim e posteriormente no Rio Itaúnas.

A região é marcada por conflitos históricos envolvendo territórios quilombolas e a expansão da monocultura de eucalipto. Em 2025, conflitos nas comunidades de Córrego do Alexandre e Angelim I, também no Sapê do Norte, já haviam sido registrados pela CPT. A disputa permanece concentrada em territórios onde comunidades tradicionais convivem com pressões históricas de empreendimentos agroindustriais.

No levantamento de 2025, um dos principais conflitos registrados foi a ocupação de uma fazenda da Suzano, em Aracruz, por cerca de mil mulheres sem terra que reivindicavam a destinação de 22 áreas em conflito que a empresa, com o Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra), havia se comprometido a destinar para a reforma agrária ainda em 2011. O acordo estava relacionado a denúncias dos impactos da monocultura de eucalipto na região. A presença da Suzano também aparecia nos conflitos envolvendo comunidades quilombolas do Sapê do Norte, onde moradores relatavam dificuldades para manter atividades agrícolas diante da expansão das plantações de eucalipto.

Em Linhares, outro registro deste primeiro semestre envolveu o Acampamento João Gomes, na comunidade do Palhal. Cerca de 150 integrantes do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) participaram da Jornada em Defesa da Natureza e seus Povos em junho, reivindicando o combate aos agrotóxicos, a reforma agrária e a regularização de territórios.

A relação entre defesa ambiental e luta pela terra também aparece em outros registros no Estado. Em março, cerca de 150 atingidos por barragens participaram da Marcha das Atingidas e Atingidos pelos Direitos, por Soberania e pela Paz, em Vitória e Serra. A mobilização teve entre as reivindicações o cumprimento de acordos e a oposição a barragens.

Em Vitória, a marcha saiu da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes) em direção à Superintendência Estadual do Ministério da Pesca e Aquicultura. Na Serra, parte do grupo realizou um bloqueio da ferrovia da mineradora Vale, relacionando a mobilização à cobrança pelo cumprimento de acordos e à oposição às barragens.

MST

Persistência

As ocorrências retomam uma característica observada pela CPT no levantamento anterior: a persistência dos conflitos nos mesmos territórios e envolvendo, em muitos casos, os mesmos agentes e comunidades. Em 2025, o Espírito Santo registrou 4,2 mil pessoas atingidas por 11 conflitos no campo. O número representou uma queda em relação a 2024, quando 5,6 mil pessoas foram afetadas em 32 ocorrências. Apesar da redução, os casos se concentraram nos mesmos territórios, indicando uma dinâmica marcada pela persistência das disputas em áreas específicas, especialmente no norte capixaba, onde comunidades tradicionais convivem com pressões históricas de empreendimentos agroindustriais e de mineração nos territórios.

Os conflitos pela água, que haviam caído de 12 ocorrências em 2024 para duas em 2025, voltaram a crescer no primeiro semestre de 2026, com cinco registros. Entre os casos estão as mobilizações de pescadores de Barra do Riacho, quilombolas do Sapê do Norte e atingidos por barragens.

Cenário nacional

A situação capixaba acompanha uma mudança no cenário nacional. Após um ano de queda, os conflitos no campo voltaram a crescer no Brasil no primeiro semestre de 2026. Segundo a CPT, foram registrados 841 conflitos no período: 711 relacionados à terra, 100 à água e 30 ao trabalho escravo rural. O Maranhão continua sendo o Estado com maior número de conflitos, com 156 registros, seguido por Pará, com 90, Bahia, com 85, e Rondônia e Amazonas, com 63 cada.

No eixo terra, a maior parte dos registros envolve violências relacionadas à ocupação e à posse da terra. As ocorrências passaram de 584 no primeiro semestre de 2025 para 663 neste ano. Já as ações de resistência, como ocupações e acampamentos, diminuíram de 66 para 48. A contaminação por agrotóxicos foi a forma de violência que mais cresceu, seguida por invasão de territórios, desmatamento ilegal e ameaça de despejo. Segundo a CPT, são violências associadas principalmente à expansão do agronegócio.

Os conflitos pela água tiveram um crescimento ainda mais expressivo no País, passando de 47 registros no primeiro semestre de 2025 para 100 neste ano, mais que o dobro. As ocorrências foram registradas em 20 Estados. Pará, com 16 conflitos, liderou o ranking, seguido por Minas Gerais, com 11, e Amazonas e Mato Grosso, com dez cada.

No Pará, parte importante das mobilizações está relacionada à luta de povos indígenas contra a privatização dos rios e contra a atuação de garimpeiros e mineradoras. A pressão dos povos indígenas contribuiu para a revogação, em fevereiro deste ano, do Decreto nº 12.600/2025, relacionado à privatização das águas.

Mesmo com o aumento dos conflitos, o número de assassinatos apresentou redução. Foram seis assassinatos em conflitos no campo no primeiro semestre de 2026, contra 27 no mesmo período do ano anterior. Entre as vítimas estão indígenas, posseiros e trabalhadores rurais sem terra.

A queda nas mortes, porém, não significa redução geral da violência. A CPT registrou 588 casos de violência contra a pessoa e 497 vítimas no primeiro semestre, números superiores aos registrados no mesmo período do ano passado. A principal forma de violência foi a contaminação por minérios, com 195 casos; seguida pela contaminação por agrotóxicos, com 132; criminalização, com 51; e ferimentos, com 42. Os principais atingidos são povos indígenas, trabalhadores e trabalhadoras sem terra, posseiros, seringueiros e quilombolas.

Juventude Tupinikim

Comunidades tradicionais

No Espírito Santo, a dinâmica observada pela CPT também coloca as comunidades tradicionais e trabalhadores rurais no centro das disputas. Os conflitos envolvem grandes proprietários, empresas e empreendimentos econômicos, além da presença do Estado como mediador ou agente indireto. Os principais atingidos continuam sendo comunidades tradicionais, trabalhadores sem terra e pequenos produtores, que dependem diretamente da terra e dos recursos naturais e são protagonistas de ações de proteção ambiental e defesa dos territórios frente a atividades predatórias.

De acordo com o entendimento da CPT, o conflito compreende um contexto de disputa presente no cotidiano, que inclui tanto as violências sofridas quanto as ações de resistência e enfrentamento realizadas pelas comunidades na luta pela terra, pela água, pelos direitos e pelos meios de trabalho ou produção.

As manifestações de luta reforçam esse aspecto. No primeiro semestre de 2026, foram 284 mobilizações registradas pela CPT em todo o País, contra 253 no mesmo período de 2025. Entre as principais formas estão atos públicos, marchas, protestos, bloqueios de rodovias e ferrovias e ocupações de prédios públicos.

As mobilizações registradas neste primeiro semestre no Estado mostram que, mesmo diante da redução observada em parte dos indicadores de 2025, permanecem ativas as disputas envolvendo água, terra, mineração, barragens, monoculturas e grandes empreendimentos. São conflitos que se concentram em territórios já marcados por disputas anteriores e que continuam mobilizando pescadores, indígenas, quilombolas, atingidos por barragens e trabalhadores sem terra.

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