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Espírito Santo não está livre da escassez de água registrada em SP

O Espírito Santo e demais regiões do Brasil podem sofrer em pouco tempo a crise de escassez de água registrada na Grande São Paulo. O alerta é de Valmir Noventa, liderança estadual do Movimento dos Pequenos Agricultores (MPA). Ele ressalta o consumo cada vez mais elevado de água pela população, que alimenta um sistema de consumo que abusa dos recursos naturais para a manutenção do lucro e produção de bens de consumo; e para a economia de vertente forte no agronegócio, modelo de cultivo que abusa dos monocultivos, dos químicos agrícolas e do maquinário pesado, o que contribui para a desnutrição da terra.
 
A crise no Sistema Cantareira, o volume morto –  reserva técnica situada abaixo das comportas e que nunca havia sido usada – e o risco crescente de racionamento, sobretudo na cidade de São Paulo, a maior do País, são assuntos cada vez mais presentes nos noticiários. A seca entre o final de 2013 e a carência de chuvas no primeiro semestre deste ano fez com que a situação se tornasse ainda mais grave. 
 
Valmir lembrou que na Rio +20, Conferência das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável (CNUDS), realizada no Rio de Janeiro em 2012, houve um esforço concentrado de autoridades de todo o mundo para que se encontrasse uma forma de estabilizar as mudanças climáticas ou, pelo menos, diminuir os impactos da atividade humana na natureza. Mesmo com grandes discussões e muito trabalho, porém, a maior resolução foi o sistema de compensações ambientais que, como considera a liderança camponesa, nada mais é do que uma condição a mais para que os países consumidores e as grandes corporações continuem poluindo em troca de pequenas obras nos países pequenos, onde restam as consequências do consumo desenfreado.
 
Sendo os danos à natureza cada vez maiores, e considerando que a sua recuperação demanda um tempo muito longo, Valmir aponta que, a partir da política econômica que se adota atualmente, as questões ambientais não terão tão logo uma solução. Entre os danos mais graves, está a seca.

Ele voltou a reivindicar políticas e ações efetivas para redução imediata das emissões de poluentes e da degradação ambiental. Ao invés disso, os órgãos governamentais que deveriam atuar pela proteção do meio ambiente têm como prioridade, hoje, a iniciativa privada, em uma clara contradição entre o discurso e a prática.

 
Exemplo dessa deturpação acontece no Estado. Proporcionalmente, Espírito Santo e Santa Catarina são, em todo o Brasil, os que mais possuem propriedades destinadas à agricultura familiar, modelo de cultivo diversificado, com foco no meio ambiente e sem uso de agrotóxicos e outros venenos. Em comparação às propriedades camponesas, existem poucas, mas grandes propriedades do agronegócio em território capixaba, o que não justifica que o montante financeiro destinado a essa atividade seja maior. No topo dessa cadeira, está a produção de celulose, em maioria comandados pela Aracruz Celulose (Fibria).
 
Partindo do campo, onde se concentram as nascentes e grande parte da extensão dos rios que banham as grandes cidades, Valmir explica que o modelo agrícola adotado no Brasil é extremamente poluidor, por conta do uso de combustíveis fósseis para movimentar as máquinas, com o emprego de grandes extensões de terras em monocultivos e o elevado índice de desmatamento. Nas regiões onde há maior incidência do agronegócio, a destruição ambiental é crescente, em oposição à timidez do reflorestamento. A água que se tem acesso nas grandes regiões do agronegócio são, além de escassas, contaminadas pelo uso abusivo de agrotóxicos.
 
Pela falta de incentivo à produção e ao trabalho no campo, muitos trabalhadores rurais e pequenos produtores deixam o interior e passam a integrar os bolsões de pobreza nas cidades, no processo conhecido como êxodo rural. A população, então, se concentra em grande número e em pouco espaço, normalmente em locais em que a água não é abundante, o que causa um conflito contínuo. Valmir lembra que aos trabalhadores urbanos, que recebem água pela torneira de casa, é negado o direito de saber de onde vem o recurso que consomem. Pela falta de informação, o problema da falta de água se torna global, tomando a população pobre, do campo e da cidade, a principal vítima da escassez.
 
“Nenhum governo implantou políticas ambientais reais para o meio ambiente. O que vemos são ações pontuais, mas nada que seja fixo. Os investimentos são cada vez maiores e destinados às atividades poluidoras. Exemplos disso são a produção de eucalipto, fruticultura, pecuária e café no Estado, e o avanço das pedreiras, empresas que utilizam grande quantidade de água em sua produção e são autorizadas para funcionamento ao redor dos grandes berços d' água, muitas vezes alterando o curso de nascentes”.
 
Segundo Valmir, isso é feito para que sejam intensificadas as exportações, que alimentam os mercados onde há maior demanda de consumo, como os europeus. “Enquanto o que é produzido vai para outros países, no Estado sobram a escassez, a pobreza e os danos irreparáveis desse tipo de produção”, enfatiza.

A liderança camponesa reiterou que o município de Pinheiros, no extremo norte capixaba, configura nesse cenário como um grande exportador de água, uma vez que seus recursos hídricos são exportados por meio da produção em larga escala de frutas, cana, eucalipto e gado, sem que o recurso seja suficiente para atender às necessidades básicas do município, que apresenta um déficit hídrico cada vez maior.

 
O único caminho para que haja recuperação ambiental, para Valmir, é rever o modelo de consumo, principalmente no que se refere à exaustão dos recursos naturais para a obtenção de bens; incentivar o alinhamento das políticas ambientais e a produção camponesa e familiar como modelo de produção agrícola; e criar políticas públicas que realmente ofereçam o suporte necessário ao desenvolvimento da atividade camponesa – esse modelo pode produzir alimentos aliada à preservação ambiental e fixar trabalhadores no campo, reduzindo o êxodo para as grandes cidades. 
 
Ele ilustra que o Código Florestal, por exemplo, nunca foi uma ameaça para o pequeno camponês, que sempre desenvolveu seus cultivos com preocupação ambiental. Não por acaso, as regiões com maiores percentuais de preservação da Mata Atlântica, como o município de Pancas e a região serrana do Estado, também são as de maior atuação camponesa. 

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