É preciso ter cuidado com certas estatísticas que Ferraço e Pazolini andam propagando

O ex-prefeito de Vitória Lorenzo Pazolini (Republicanos) recebeu críticas de ex-aliados na Câmara Municipal nas últimas semanas, após a divulgação do Índice de Progresso Social (IPS) 2026 de estados e municípios. Pazolini tem se escorado em dados divulgados no fim do ano passado, que apontavam a Capital capixaba como “a melhor cidade do país para se viver” e a “mais inteligente e conectada do Brasil”. O IPS, em contraposição, mostrou uma perspectiva menos positiva da “cidade presépio”, que alcançou apenas o 15º lugar entre as capitais do Brasil em progresso social. Em discursos na Casa Legislativa, o vereador Camillo Neves (PP) não perdeu a oportunidade de alfinetar a gestão municipal, com a qual está rompido, apontando a dissonância entre a propaganda oficial e a “realidade” de Vitória esboçada no IPS.
O ranking das “Melhores Cidades do Brasil” foi elaborado pela revista Veja Negócios a partir de um levantamento da Austin Rating, “uma das mais respeitadas agências de crédito do país”, segundo a publicação. Já o Ranking Conected Smart Cities (Cidades Inteligentes e Conectadas) é elaborado por uma empresa de São Paulo, a Necta, cuja missão é “criar conexões transformadoras para impactar ecossistemas”, em suas próprias palavras. O IPS, por sua vez, está sob a responsabilidade da organização não governamental estrangeira Social Progress Imperative, de onde partiu o método de pesquisa, contando a parceria de outras entidades privadas sem fins lucrativos na pesquisa.
Em todos esses casos, estamos falando de levantamentos realizados por organizações privadas, e não por instituições oficiais do Poder Público com autonomia em relação a interesses empresariais. De qualquer forma, o Índice de Progresso Social parece muito mais aprofundado e abrangente do que os outros dois, ao avaliar uma série de variáveis, como acesso à água e saneamento, moradia, saúde e bem-estar, qualidade do meio ambiente, direitos individuais e acesso à educação superior. Já a noção de “cidade inteligente” é criticada por teóricos como Evgeny Morozov como mera expressão do “solucionismo tecnológico”, a crença contemporânea de que problemas sociais complexos se resolverão com avanços em tecnologia. E o tal ranking das “Melhores Cidades do Brasil” praticamente se resume a avaliar a “gestão fiscal” dos municípios.
Pazolini, obviamente, não é o único político a criar uma narrativa própria a partir de estatísticas oficiais e não oficiais. Um outro exemplo é o principal oponente do ex-prefeito de Vitória nas eleições para o Governo do Estado este ano, o governador Ricardo Ferraço (MDB). A gestão estadual tem propagado que o Espírito Santo alcançou “redução histórica” no número de homicídios em 2025, e Ferraço aproveita para reforçar um discurso linha-dura contra a criminalidade. A política estadual de Segurança mereceu elogios recentes de Rodrigo Pimentel, ex-capitão do Bope no Rio de Janeiro que inspirou o Capitão Nascimento do filme Tropa de Elite. Pimentel tem sido apontado como pré-candidato no Rio pelo Novo.
De fato, o Espírito Santo teve grande redução de homicídios na última década e saiu das primeiras posições nacionais de estados mais violentos. Entretanto, apresentou o maior número de assassinatos do Sudeste em taxa por 100 mil habitantes, conforme o Atlas da Violência 2026, lançado nesta semana. Além disso, houve redução geral do número de homicídios no Brasil como um todo. Também há indicações de que a violência tem se deslocado mais da Grande Vitória para outros centros urbanos: Colatina, na região noroeste, assumiu a dianteira a nível estadual na taxa de homicídios estimados (o prefeito colatinense, Renzo Vasconcelos, do PSD, se apressou a dizer nas redes sociais que a situação mudou desde que ele assumiu, em janeiro de 2025).
Ainda que haja uma defasagem nos números (a pesquisa só vai até 2024), o Atlas permite uma análise comparativa mais aprofundada sobre a situação dos estados, além de incorporar outras variáveis. Uma delas é a taxa de homicídios ocultos, coletada a partir de análises dos óbitos classificados com causa indeterminada, que cresceu mais de 100% no Espírito Santo em dez anos, seguindo a tendência nacional.
Isso nos leva a questionar se a política de Segurança Pública capixaba está sendo tão eficiente assim. E se estivermos apenas seguindo uma tendência nacional? Não seria razoável perguntar sobre a influência de outros fatores na redução da violência, como a redução da pobreza? O Estado tem sido efetivo em outros tipos de violência não letal?
Aliás, vale destacar que o próprio Anuário Estadual da Violência de 2025 identificou um grande aumento nas ocorrências de confronto com agentes do Estado e na letalidade policial – para Ricardo Ferraço, talvez sejam apenas “ossos do ofício”, mas também estamos falando aqui de mortes violentas.
Levantamentos quantitativos, oficiais ou extraoficiais, não dizem tudo sobre a realidade por si só, e por isso precisam ser confrontados com outras variáveis. Além do mais, a fixação em rankings e estatísticas, ainda que tenham inegável importância na formulação de políticas públicas, pode nos tornar reféns da ideologia do “melhorismo”, sem focar em mudanças estruturais que possam de fato trazer avanços sociais profundos. Contagem de corpos assassinados de um ano a outro ou levantamentos sobre quão “inteligente” é uma cidade não fazem tanta diferença para a população enquanto persistirem os riscos da violência, da fome, da falta de moradia e do baixo progresso social.
Lucas Schuina é repórter de Século Diário, com graduação em Comunicação Social – Jornalismo e mestrado em Comunicação e Territorialidades pela Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes). É autor do livro “A luta pelo cinema: Memórias do cineclubismo no Espírito Santo” (2025) e coautor da obra “Brice Bragato, uma mulher de luta: Da limpeza do curral à tribuna da Assembleia” (2023). Em 2026, lançou na internet, junto ao Cineclube Jece Valadão e ao espaço Sessão 1013, o documentário de curta-metragem “Ciclo Sentidos da Loucura”, com depoimentos de usuários do Centro de Atenção Psicossocial II (Caps II) de Cachoeiro de Itapemirim.

