Rogério Medeiros e Renata Oliveira
Fotos: Leonardo Sá
O nome Ana Flávia Azeredo remete a uma história vergonhosa de racismo ocorrida no Espírito Santo em 1993, quando a então estudante tinha apenas 19 anos. A filha do ex-governador Albuíno Azeredo foi agredida dentro de um elevador por dois moradores do prédio. Um dos moradores chegou a dizer que “preto ou pobre” lá não tinha vez, e ainda chamou a estudante de “empregadinha”.
O caso, como não podia ser diferente, ganhou repercussão nacional. O Estado que elegeu o primeiro governador negro de sua história havia também transformado a filha dele em vítima do racismo. Mas a Ana Flávia de 2014, aos 40 anos e candidata a deputada federal, quer falar do que mais entende, de logística, transporte e mobilidade nestas eleições.
Engenheira Civil e mestre em Engenharia de Transportes pelo Instituto Militar de Engenharia (IME), Ana Flávia foi incorporada pelo Exército e trabalhou no Ministério dos Transportes. Hoje é servidora concursada da Assembleia Legislativa do Estado. Quando fala sobre logística, mostra o domínio técnico sobre o tema.
Para Ana Flávia, falta um conhecimento técnico na bancada federal capixaba para evitar que a produção do centro-oeste, por exemplo, não seja desviada para outros portos do País, sendo que o Espírito Santo oferece um serviço portuário muito mais interessante. Para isso, além do poder de convencimento dos parlamentares do Estado é preciso investimento em logística e em infraestrutura para atrair os produtores de todo País para o potencial dos portos do Espírito Santo.
A dificuldade em driblar o interesse local em exportar apenas commodities, para a socialista, pode também ser contornada com a conversa com os setores produtivos do Estado e de fora.
Questionada sobre mobilidade urbana, Ana Flávia relembra o projeto do pai, no período em que ele governou o Estado (1991 – 1994). Ela diz que o projeto de Albuíno permitiu a implantação do sistema Transcol no Espírito Santo, mas entende que com o passar dos anos o sistema exige uma ampliação da discussão sobre os modais no Estado. Projetos que não foram discutidos e que hoje essa ausência de discussão tornou o Transcol insuficiente para atender à demanda da população.
Para Ana Flávia todos os modais devem falar em conjunto. Ela lembra que o pai, quando criou o Transcol, fez o subsídio trocado com o aquaviário, por isso a importância de manter a complementação. “O usuário do automóvel não larga o carro em casa para usar o ônibus. Só se for para um seletivo ou metrô. Ele só vai deixar de usar o automóvel se for para um transporte público de qualidade”, disse.
Para Ana Flávia, é preciso discutir a possibilidade de implantação de outros modais, como o VLT e o aquaviário. A implantação do BRT é um passo nessa direção, avalia.
Isso, porém, esbarra em outro grande problema do Estado: a dificuldade na elaboração de projetos. Questionada sobre o tema, a candidata destacou a necessidade de buscar profissionais nesse campo e se não for possível estabelecer parcerias público-privadas para evitar que os recursos para as obras se percam ou que o Tribunal de Contas da União (TCU) embargue os serviços por falhas nos projetos apresentados. Sobre sua decisão de entrar na política, a candidata disse que vinha alimentando a possibilidade havia muito tempo. Foi na conversa com lideranças políticas, amigos e familiares que ela amadureceu a ideia e decidiu que o momento seria o mais apropriado, já que há uma demanda das ruas desde as manifestações de 2013 por novas caras na política.
De amigos ouviu que além da capacidade técnica tinha o diferencial de ser filha de um homem que deixou um legado importante para o Estado. E ela aprendeu com o “mestre” em casa.
A parte mais difícil, confessou, foi dizer ao pai que seria candidata. Ela conta que aos poucos foi convencendo o ex-governador sobre a ideia, que acabou entrando de cabeça em seu projeto político. Tanto que se desfiliou do PMDB para apoiá-la no PSB.
Ana Flávia faz uma avaliação, quase 20 anos depois, do episódio do elevador. Ela diz que precisava passar por isso para tomar uma “sacudida”. Ana Flávia explicou que antes disso nunca havia passado por uma situação parecida e hoje pode falar com propriedade da questão racial, porque sentiu na pele o sofrimento de uma pessoa que sofre discriminação, seja ela qual for.

