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Grande Vitória ganha nova configuração política com a posse dos novos prefeitos

Renata Oliveira e Nerter Samora

 

O Papo de Repórter desta semana faz um balanço sobre as primeiras ações dos novos prefeitos da Grande Vitória e a repercussão no tabuleiro político de 2014. Qual será a influência do clima de mudança – que falou alto no último pleito – na disputa pelo governo do Estado? O governador Renato Casagrande ganha ou perde com os novos atores políticos capixabas? Confira abaixo no bate-papo entre os jornalistas Renata Oliveira e Nerter Samora:

Renata – A posse dos novos prefeitos na última terça-feira (1) veio carregada do discurso de mudança pelo qual eles foram eleitos. Na Grande Vitória, sobretudo, havia uma expectativa muito grande sobre a ascensão de Luciano Rezende (PPS), em Vitória; Rodney Miranda (DEM), em Vila Velha; Audifax Barcelos (PSB), na Serra e Juninho (PPS), em Cariacica. E nesta curta semana eles já mostraram que realmente querem mudar o cenário político da região. Ainda é muito cedo para dizer se essas mudanças vão se traduzir em benefícios para a população, mas já deu para entender como vai funcionar essa “mudança” em cada município. 

Nerter – E não é só nas prefeituras, nos legislativos municipais também houve muita mudança. A maioria já havia sido desenhada antes do dia primeiro, mas também fazem parte dessa nova configuração que você está falando. Na maioria dos municípios houve uma divisão de forças entre o Executivo e o Legislativo. Na maioria dos casos, os prefeitos influíram pouco ou quase nada nas disputas pelas mesas diretoras. Mas houve uma distribuição que atendeu aos interesses dos novos prefeitos. Em Cariacica, o novato Marcos Bruno (PRTB) na presidência da Câmara mostra essa nova configuração. Na Capital, Fabrício Gandini chegou a dizer que a neutralidade do prefeito quase atrapalhou sua movimentação, que contou com a promessa de melhor condição aos vereadores… 

Renata – Essa que deve ser uma das tônicas nas relações entre câmaras e os Executivos, pelo menos, na Grande Vitória. Tanto que uma conversa entre Luciano e os vereadores pacificou a articulação. 

Nerter – Verdade. Embora os vereadores da Capital não tenham saído com a promessa de barganha em troca do apoio a Gandini. Na verdade, a eleição do vereador mais bem votado também está envolta neste contexto de dar uma resposta ao resultado das urnas. É claro que em Vila Velha a mudança não chegou à Câmara, mas Ivan Carlini (PR) já aderiu ao novo governo para não ter problemas futuros. O republicano segue aquele lema: “se hay gobierno, estoy dentro”, o que deve facilitar a vida do novo prefeito Rodney, que ainda não é do ramo. Na Serra, houve uma movimentação da própria Câmara, até porque o ex-prefeito Sérgio Vidigal (PDT) conseguiu eleger um bom percentual da maior Câmara do Estado, o que complicou a movimentação na Casa. 

Renata – No Executivo, cada prefeito usou uma tática diferente nesses primeiros dias, todos tentando impor de saída uma marca própria. Luciano Rezende parece ter adotado a cautela como principal estratégia. Acertou o secretariado, que, aliás, demorou para ficar pronto. Ele deixou as escolhas políticas para o final. Mesmo tendo o apoio do PR durante a campanha, deixou o PR por último, colocando o vice, Waguinho Ito, na pasta da Ação Social, o que chegou a incomodar alguns setores da sociedade, já que o republicano não é exatamente um defensor das minorias. Luciano também deixou para o final a indicação de Max da Mata (PSD) para a pasta dos Transportes e o novo secretário terá que demonstrar habilidade para lidar com um tema espinhoso, o aumento da tarifa que geralmente acontece logo no início do ano. Do ponto de vista técnico, preocupa a indicação da arquiteta e urbanista, Sandra Monarcha para a pasta do Desenvolvimento Urbano, fora do País há tanto tempo, ela vai ter que lidar com o complicado imbróglio da expansão do Shopping Vitória. 

Nerter – Pois é, no município da Serra, o problema parece ser mesmo dinheiro. Com uma dívida crescente nas mãos, o prefeito Audifax Barcelos (PSB) vai encontrar um desafio enorme pela frente. Na posse, o nosso editor de conteúdo José Rabelo noticiou que a dívida passava de R$ 100 milhões, só que agora esse valor chega a R$ 200 milhões. Talvez por isso, em seu primeiro dia de governo, Audifax cortou quase 600 cargos comissionados. Boa parte, evidentemente, ligado ao ex-prefeito, mas só o enxugamento da folha não vai resolver o problema. O município vai perder também recursos federais e precisará de ajuda do governo do Estado para garantir os investimentos necessários. O fato de ser do partido do governador Renato Casagrande pode ajudar. Quanto aos cargos, a saída dos aliados de Vidigal vai abrir espaço para os aliados do atual prefeito, que vai poder acomodar os servidores vindos de outros municípios. É que há uma migração nessa época do ano de comissionados de uma prefeitura para a outra. 

Renata – Sim, isso vem acontecendo há quase duas décadas na Grande Vitória, com a hegemonia de quatro ou cinco partidos que, unidos, criaram uma força política que administra os quatro maiores municípios do Estado todo esse tempo. Aí temos PT, PDT e PR como protagonistas e PMDB e PSB, atuando como forças aliadas. Essa distribuição territorial entre os partidos garantiu o rodízio dos servidores, incluindo aí as eleições estaduais e proporcionais neste ínterim, que acomodaram os aliados em outros setores. Mas o maior impacto foi evidentemente em Vila Velha. Com uma só canetada Rodney Miranda exonerou 1,2 mil servidores comissionados. Os aliados dele são um pouco diferentes desse conjunto de forças que falei acima, e não vai dar para preencher a metade disso com gente vinda da iniciativa privada, porque o salário não é tão interessante. 

Nerter – Rodney adotou uma estratégia agressiva para o início de seu mandato. Quer causar impacto ao mesmo tempo em que busca afirmação como figura com brilho próprio, independente de seu padrinho político Paulo Hartung (PMDB). Apesar do DNA e da referência sempre destacada de seu modelo político, Rodney tentou montar uma equipe que não tivesse os mesmos figurões do governo PH. Tem adotado medidas de visibilidade, como o corte de R$ 700 mil de cafezinho, uma medida que é mais para jogar para a plateia do que para garantir o funcionamento da máquina, que fica, inclusive, temerário depois da retirada de tantos funcionários de uma só vez. 

Renata – O prefeito de Cariacica, Juninho dá a impressão de que montada a equipe vai se dedicar menos à questão administrativa propriamente dita e vai cuidar da imagem da prefeitura, atuando politicamente. A estratégia dele é totalmente diferente da dos demais prefeitos da Grande Vitória. Juninho quer continuar no meio do povão, fazendo a linha populista, ouvindo as demandas. Mas não sei se isso é uma grande ideia. Juninho pode ter problemas na prefeitura, muitos problemas, colocar gente esperta de mais pode trazer mais prejuízo do que benefícios. E não é só de sorriso e aperto de mão que o prefeito mantém a popularidade. Como dizem no interior, o boi engorda é sob o olhar do dono. 

Nerter – Agora, uma coisa foi uníssona na posse dos novos prefeitos: todos querem ser os melhores amigos de Renato Casagrande. O ano de 2013 vai ser difícil do ponto de vista financeiro e sem parte dos recursos federais, os prefeitos vão precisar da ajuda do governador e da capacidade do governo em apresentar projetos que possam ser implantados nos municípios. Para Casagrande, essa parceria com os prefeitos dos maiores colégios eleitorais do Estado, também é importante, já que ele está construindo seu palanque de reeleição. Mas é preciso que ele mantenha o olho na prefeitura da Serra. O sucesso de Audifax será o sucesso do PSB, ele foi importante para a eleição do prefeito e pode conseguir faturar com o desempenho do aliado socialista. Por outro lado, se Audifax não conseguir desenrolar o novelo de problemas que encontrou na prefeitura, pode acabar prejudicando por tabela o governador. 

Renata – Mas, além da Serra, os quatro prefeitos serão muito importantes na construção dessa nova configuração política que tenta se consolidar com Casagrande. À exceção de Vila Velha, o governador colocou seu DNA em todas as demais prefeituras e depois da eleição, Rodney entendeu também que bom mesmo é ser amigo de quem está na cadeira do governador, por isso, todos são aliados, agora.  Se essas mudanças trouxerem algumas respostas nos próximos dois anos vão trazer vantagem para o governador, se naufragarem, Casagrande vai ser afetado, independentemente do partido dos prefeitos. 

Nerter – Mas ainda é cedo para saber em que vai dar essa mudança. Vamos acompanhar. 

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