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?? hora de Casagrande começar a cumprir as promessas de campanha

 

Renata Oliveira e Nerter Samora
 
 
 
Passados quase dois anos de seu primeiro mandato, é hora de Casagrande começar a preparar o caminho para a reeleição. No campo político, tudo certo. Mas e com o eleitor, tá combinado?
 
Renata – O governador Renato Casagrande vai para a segunda parte de seu primeiro mandato já iniciando as articulações que garantirão seu palanque à reeleição em 2014. Nesse cenário, o governador tem em suas mãos uma faca de dois gumes. Se por um lado se estabeleceu como grande líder político, por outro precisa começar a mostrar serviço e fazer mudanças significativas em sua gestão. Nesses primeiros dois anos, a sensação é de que o governo não tem grandes realizações para mostrar e um governo que elege com o rotulo do socialismo precisa mostrar trabalho na nessa área. Apoio político é bom, mas sem aprovação popular, Casagrande pode ter dificuldade em consolidar sua candidatura.
 
Nerter – Bom, do ponto de vista político, Casagrande vai muito bem. Estabeleceu novos parâmetros de diálogo com a classe política e manteve a unanimidade que vem garantindo sua governabilidade. Sua habilidade em manter unida a base é tanta, que conseguiu atrair para perto de si até os partidos que estiveram contra ele na eleição de 2010, como o DEM e o PSDB. Em vez de um controle político unilateral, conseguiu de uma forma mais, digamos, democrática manter o sistema político que garantiu os oito anos de Paulo Hartung (PMDB), sem precisar para isso pisar no pescoço de ninguém.
 
Renata – É verdade. Surpreendeu, inclusive, a classe política com tamanha habilidade. Na eleição deste ano, mexeu com as peças no tabuleiro eleitoral de forma eficiente e silenciosa e com isso, saiu do processo eleitoral como o grande vencedor do ano. Enquanto isso, seu antecessor amargou a desgaste de ter feito as escolhas erradas e não vai conseguir o papel de destaque que pretendia ter nas articulações de 2014. Casagrande, em vez de definir como Hartung os atores que disputariam ou não as eleições, preferiu apostar em vários nomes, garantindo assim seu DNA nos palanques vencedores, independentemente de quem vencesse. Assim, desagradou o menos possível.
 
Nerter – Casagrande tem um trunfo em relação à disputa de 2014, que é a vaga do Senado. Dificilmente Hartung, depois do desgaste deste ano, deve pleitear a vaga. Nesse sentido, abre-se um campo de atores políticos com um capital político menor que o dele, que podem se aventurar a conquistar a vaga. Mas, evidentemente, essa discussão deve passar pelo Palácio Anchieta. E o governador deve antecipar essa discussão até para garantir o apoio necessário para seu palanque de reeleição, acomodando as lideranças políticas. Ele sinaliza favoravelmente para o prefeito de Vitória, João Coser (PT), mas se isso vai se concretizar vai depender as conversas do próximo ano.
 
Renata – Bom, mas se politicamente as articulações de Casagrande vão de vento em popa, no que se refere ao seu ganho de capital por conta do trabalho apresentado não é lá essas coisas. Em dois anos de governo ele não conseguiu evitar que os setores sociais cobrassem respostas que até agora não foram dadas. Hartung, por meio de um rígido controle da imprensa, conseguia estancar qualquer sangria que pudesse ser desatada sobre os pontos fracos de seu governo. Casagrande não consegue.
 
Nerter – É verdade. Ele já sofreu com críticas no setor da saúde e cedeu, basta ver o processo de terceirização da saúde que deve ser acelerado em 2013, sem falar na pressão constante sobre seu secretário de Saúde, que não é ligado ao setor privado. Na área da educação também há uma insatisfação ainda velada, que não vai demorar muito a explodir. Mas o que preocupa mesmo é a segurança. Esse pode ser o calcanhar de Aquiles do governo Casagrande, porque os números continuam altos, a sensação de segurança continua distante e a Secretaria de Segurança continua capenga. Em vez de tomar uma atitude de repercussão, como fez o governador de São Paulo, Geraldo Alckmin, Casagrande tolera a situação para não entrar em rota de colisão com seu antecessor. Enquanto isso, vai pagando uma conta que acumulou do governo passado. Conta essa que está ficando cada vez mais cara.
 
Renata – Casagrande, antes mesmo de tomar posse, elegeu a segurança como sua grande prioridade. Disse que cuidaria pessoalmente do setor, acompanhando a evolução dos números. Entrou no governo, fez planejamentos integrados, apresentou o projeto Estado Presente, mas até o momento isso não se refletiu na resposta que a sociedade esperava. Embora tenha se fortalecido politicamente, Casagrande é visto como um governador fraco. Isso não é bom. Como parte da mídia entrou no discurso superficial de alimentar a intolerância com a violência, isso pode respingar no Palácio Anchieta e os secretários da área não parecem muito preocupados em defender a imagem do governador, até porque não têm identidade política com Casagrande e sim com Hartung.
 
Nerter – O próximo ano vai se tornar assim, decisivo para Casagrande conseguir criar a musculatura necessária para erguer seu palanque de reeleição. O problema é que o cenário político-econômico que se desenha não é o mais apropriado para ele conseguir dar as respostas que a população quer. Para isso precisaria investir nos chamados gastos permanentes, como, por exemplo, aumentar o efetivo policial, que pode não ser a solução do problema, mas aumentaria a sensação de segurança. A ampliação do número de vagas nos hospitais da Grande Vitória, com a inauguração do Dório Silva, pode amenizar as críticas ao setor, mas deve ser algo temporário. Casagrande prometeu descentralizar o desenvolvimento e até o momento continuamos a ver a concentração de renda e um crescimento econômico do estado artificial, que não se reflete em melhorias das condições de vida da população.
 
Renata – O problema é Casagrande se elegeu em um palanque de continuidade, mas ficou implícito em seu discurso que essa continuidade do crescimento do Estado, em sua gestão, seria voltada para as políticas públicas. Ficou implícito também no discurso de despedida de Hartung. Ao dizer que a casa estava arrumada, deixou implícita a ideia de que o seu sucessor é quem deveria dar as respostas aos anseios da população. Se Casagrande não começar a dar essas respostas, não sei não.
 
Nerter – Mas uma coisa pode ajudar a outra, Renata. Como explica o professor Roberto Simões, em sua entrevista neste fim de semana, aqui em Século Diário, essa unanimidade política, que calou a voz das oposições no Estado há uma década, evita que as insatisfações que estão recalcadas a esses setores ganhem voz por meio de uma liderança que consiga puxar o discurso para o campo político. Enquanto as carências do Estado estiverem restritas às estatísticas, e continuarem a ser ignoradas ou não discutidas a fundo pelas lideranças, não vão atingir o palanque do governador. Foi assim que aconteceu durante o governo Paulo Hartung. Essas carências atravessaram toda a gestão passada e isso não impediu sua movimentação política. 
 
Renata – Tem razão. E agora a coisa é mais complicada, porque essa unanimidade não é feita de forma imposta, mas negociada entre o governo e as lideranças, o que torna mais consistente a adesão das lideranças.

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