Rogério Medeiros e Renata Oliveira
Não basta termos um bom espírito, o mais importante é aplicá-lo bem
(René Descartes)
O cientista político Antônio Carlos de Medeiros, colunista de Século Diário, em seu artigo mais recente fala sobre o jeito matreiro do governador Renato Casagrande, que é de Castelo, no sul do Estado, mas poderia muito bem se passar por mineiro na forma de agir.
Nesta entrevista a Século Diário, Antônio Carlos faz um balanço de 2012, marcado pelas eleições. Ele não analisa, porém, os vitoriosos do pleito, mas as articulações de bastidores, que tiveram como protagonista o governador Casagrande. Destaca também o papel das outras lideranças maiores do Estado nesse processo.
Medeiros mostra como Casagrande preparou suas bases políticas para a disputa eleitoral de 2014, mas alerta para o fato de que o inimigo está dentro de Casa. “Ele pode perder para ele mesmo”, destaca o cientista político, ao se referir aos problemas sociais que não vem sendo enfrentados com políticas públicas de conteúdo para fechar os principais gargalos nas áreas de saúde, educação e segurança.
Sem imprimir uma marca própria ao seu governo e sem retomar às bandeiras de campanha, que faziam referência justamente a essa divisão do desenvolvimento, melhorando as condições de vida do cidadão capixaba, o governador poderá encontrar problemas no futuro para pavimentar sua reeleição. Confira, a seguir, a entrevista com Antônio Carlos de Medeiros:
Século Diário – Como o senhor analisa o ano político de 2012, que encerra a primeira metade do mandato do governador Renato Casagrande?
Antônio Carlos de Medeiros – O governo Casagrande foi muito matreiro do ponto de vista político para levar a primeira parte do primeiro mandato dele com uma postura política que não rompesse com a era Paulo Hartung e ao mesmo tempo abrisse caminho para que ele aos poucos fosse introduzindo no processo político as suas articulações próprias. Penso que ele fez isso do jeito dele, que é um jeito matreiro, como dizia Brizola, comendo o mingau pelas bordas. Conseguiu nesses dois anos criar um equilíbrio político, que eu chamo de unidade política e o professor Roberto Simões chama de unanimidade política. Mas o fato é que ele conseguiu criar um ambiente político de uma grande coalizão em torno do governo dele, fortalecendo no processo das eleições municipais o partido dele, o PSB.
Portanto, acho que ele sai dessa primeira metade, com condições para nesta segunda metade do primeiro mandato de evoluir para construir uma marca própria, que ele não tem ainda. O governo do Casagrande ainda é um governo que tem uma conotação forte de quadros do governo que sustentou o governo Hartung e agora, talvez, ele tenha condição de ter essa marca própria. Do ponto de vista político, ele criou um governo de consenso, não no sentido que era o governo Paulo Hartung, que eu chamo de consenso das necessidades, mas criou uma coalizão sólida, mas com possibilidade de cessões aqui e ali. Houve circunstâncias históricas diferentes do ponto de vista do Pacto Federativo, que estourou muito no governo dele, com as questões do Fundap, negociação dos royalties, outras mudanças que estão sendo feitas no FPE [Fundo de Participação dos Estados], no ICMS [Imposto sobre Circulação de Mercadoria e Serviços] e uma série de pontos da pauta federativa e isso consumiu muito o tempo dele.
– E ele se saiu bem nessa negociação?
– A meu ver ele começou isso de uma forma muito tímida. Penso que no processo de negociação do Fundap, ele foi muito tímido. No processo de negociação dos royalties, ele foi mais agressivo na chamada diplomacia federativa. Agora ele está inserido no processo de uma forma mais forte. A opinião dele passou a ser mais importante nacionalmente. Essa questão federativa, que não é só a questão dos royalties, ainda paira, então vai tomar o tempo dele, acredito que por mais dois anos, pelo menos. Nesse aspecto federativo, para o Espírito Santo que é um estado pequeno, é uma relação importante. Ele começou tímido, mas acabou bem. Do ponto de vista da pauta econômica, que também tem a ver com a política, ele também começou de uma forma tímida, repetindo pautas de seu antecessor, mas recentemente ele começou a perceber que tem de mudar a pauta. Quando ele lançou o Proerdes, com recurso federal, que é inédito.
– Essa mudança tem a ver com essa nova realidade vinda com as perdas dos recursos federais, não é?
– Isso. Isso foi necessário por conta de o Estado ser dependente da exportação de commodities. Ele com o Proedes começa a modificar as prioridades na área econômica, chamando a atenção, por exemplo, da necessidade de colocar recursos para a inovação tecnológica.
– Houve uma série de mudanças no Bandes também para fortalecer o banco que atuava em função do Fundap e ficaria sem esse recurso com a diminuição do percentual.
– O Bandes era historicamente muito dependente do Fundap. A partir do momento em que o Fundap passa a ser reduzido consideravelmente, ele substitui o papel do Bandes. Essa experiência do banco em gerenciar grande parte desses recursos é inédita. Outra vez, o governo do PT, em nível nacional, ajuda o Espírito Santo. No governo Lula, houve uma grande ajuda ao Espírito Santo quando ele fez a antecipação dos royalties no início do governo Paulo Hartung. Isso foi crucial para o sucesso fiscal do governo Paulo Hartung, embora pouco seja reconhecido disso. Pelo contrário, você viu isso na campanha de 2010, dizendo que não vem o aeroporto, mas não se reconhece esse papel que teve o governo Lula. E agora o governo Dilma, até como compensação com a negociação do Fundap, mas cumpriu com o combinado, liberou para o Espírito Santo R$ 3,4 bilhões, que vai para esse Proedes, que vai permitir que o Casagrande modifique a pauta econômica. Onde eu acho que ele foi ruim, foi na pauta social, tanto nas áreas de segurança quanto na saúde e educação. Os índices mostram isso. Nesse aspecto, o governo dele, nessa primeira metade, foi muito ruim. De uma forma geral conseguiu ter uma postura política, não só na Assembleia, mas principalmente em nível das elites que permitisse ter estabilidade política, o que não significa dizer que isso é uma unanimidade, no sentido do Hartung, não é. Mas no sentido das políticas públicas, o governo dele deixa a desejar. E penso que isso será discutido na eleição de 2014. Se ele tiver um adversário como o senador Magno Malta, que é forte, polemista, bom de palanque, com apoio social, ele terá um adversário de peso para enfrentar.
– A não ser que ele volte o olhar dele para a questão social.
– Mas com ênfase na inversão de prioridades. Não adianta inaugurar o hospital Dório Silva, fazer concurso para colocar policial na rua, não é só isso. Tem que inverter a pauta, modificar totalmente as prioridades. Refiro-me ao conteúdo das políticas públicas. Ele vem dando continuidade às pautas anteriores, e no governo Hartung, o lado social não foi prioridade. O governo Hartung, assim como foi o governo de Aécio Neves [PSDB], em Minas, foram governos tecnocratas. O que eles chamam de choque de gestão, não foi um governo de gente, foi um governo de números. Não estou dizendo que isso não é importante, mas o governo de Casagrande continua com esse viés. Ele tem que mexer na equipe.
– Isso pode refletir em sua candidatura em 2014?
– Isso vai se refletir sendo repetido em um adversário como Magno Malta que tem a pauta da família.
– Do ponto de vista eleitoral, ele saiu de 2012 como o grande vencedor da disputa deste ano. Saiu dizendo que não iria ingerir na discussão, mas influiu e mexeu bem, acabou saindo vitorioso. Já o ex-governador Paulo Hartung teve um desempenho bem diferente do que se esperava de uma liderança do porte dele. Como o senhor viu a movimentação dessas lideranças, incluindo aí os senadores Magno Malta e Ricardo Ferraço?
– Começando pelo fim, o senador Ricardo Ferraço se apagou nesta eleição na medida em que ele se inseriu nesta eleição como uma peça auxiliar do ex-governador Paulo Hartung e não como uma liderança que ele efetivamente é. Foi o senador mais votado de 2010, mas ele não soube usar esse cacife. De certa forma, ele foi a reboque de Paulo Hartung. O senador Magno Malta perdeu pontos importantes do ponto de vista político, com as derrotas em Vila Velha, em Cachoeiro e em Vitória, ele ganhou mas não levou, apesar de ter o vice-prefeito não se viu nenhuma movimentação do prefeito eleito [Luciano Rezende] em conversar com ele.
– Como presidente do PR no Espírito Santo, Magno Malta não foi bem…
– É. E o governador Casagrande foi muito bem. Outra vez ele atuou no processo silenciosamente, mas você vê o dedo dele ou do PSB em várias eleições municipais. Em Vitória foi um exemplo marcante. Em Cariacica, ele já está conversando com o prefeito eleito, Juninho [PPS]. Eu penso que ele teve um desempenho político e eleitoral também porque o PSB foi o mais votado. E o ex-governador Paulo Hartung, eu penso, saiu menor. A considerar-se o resultado da eleição municipal, embora ele ainda seja uma liderança política evidentemente forte.
– E como isso se reflete para 2014?
– Acho que para 2014, existe a possibilidade de disputa entre Renato Casagrande, que já admitiu que pode se candidatar à reeleição, e o senador Magno Malta, que também já admite.
– E as outras duas lideranças vão agir nesses dois polos, no caso, do lado de Casagrande.
– Vão ter que gravitar entre esses dois polos, porque eu não vejo eles com densidade para isso. Como é o caso do Sérgio Vidigal, que sai dessa eleição como grande derrotado. Hoje em condições de disputar o governo do Estado eu vejo Casagrande e Magno Malta. Ricardo Ferraço tem essa condição, mas só se ele mudar a postura, deixar de ser força auxiliar, porque ele não é. Eleitoralmente ele tem luz própria. Mas ele se coloca como força auxiliar de Paulo Hartung.
– Mas há uma outra variante aí, que é a eleição do Senado. O governador Casagrande vai ter que escolher um nome para a disputa que puxe votos para ele. E ele não tem essa possibilidade. Aí temos como possíveis candidatos: João Coser, Rose de Freitas, Neucimar Fraga. Mas é um caminho tortuoso, o Hartung pode disputar também. Então, parece que 2013 será um ano de definição. Como o senhor avalia 2013?
– Como eu disse antes, Casagrande tem que imprimir a marca dele e para imprimir a marca dele, vai ter que investir nas áreas cruciais: saúde, educação e segurança. Se ele conseguir fazer isso, vai ter a marca da boa gestão, que ele não tem ainda. Ele tem uma marca política, porque conseguiu agregar, mas não tem a marca da boa gestão.
– Mas o orçamento do próximo ano não dá sinais dessa inversão de pauta que o senhor está falando.
– Ele está com um colchão fiscal bom, falta fazer o investimento nas áreas certas.
– Mas quando você vê o aumento da terceirização da saúde, com compra de mais leitos, por exemplo, você vê que ele não vai investir.
– Não inverteu. Se ele conseguir colocar essa marca o que concretamente significa tirar as filas dos hospitais, diminuir os homicídios. Na área de segurança, o Rio de Janeiro conseguiu diminuir a violência.
– Mas no Rio houve uma política de segurança.
– Pois é, aqui não tem. O processo de segurança aqui é semelhante ao do Rio de Janeiro, até fisicamente de mar e morro. Mas os gestores da segurança aqui, não sei por que cargas d’água, dizem que as UPPs não são viáveis aqui. Ele não mexeu no conteúdo das políticas, não vai ter efeito, e se não tiver efeito, a gestão dele no final desse mandato, ele vai ter problema eleitoral. Embora tenha recursos para isso.
– Podemos dizer então que o grande adversário do Casagrande não está fora, está dentro de casa?
– Ele pode perder dele mesmo. Tinha que mexer na equipe.
– O professor Roberto Simões, em recente entrevista a Século Diário, destacou a questão da Educação em relação à falta de investimento nos professores, por exemplo, o que aumento o número de DTs. Enfim, há essa política de não criar gastos permanentes.
– O que interfere na qualidade da educação. Os índices são muito ruins no Espírito Santo, e uma das bases da qualidade da educação é o professor. É a questão da necessidade de inversão da pauta de prioridades de que estou falando.
– E quanto à bancada federal, como avaliar o desempenho do grupo neste ano em que as movimentações em Brasília chamaram a atenção do Estado por conta da discussão dos recursos federais?
– Há um mantra que se repete sempre: a bancada é pequena. Não tem nada a ver isso daí. Esse discurso não se justifica, você pega vários exemplos de bancadas pequenas, e a do Espírito Santo, aliás, não é a menor. É uma questão da qualidade do trabalho. Passa pela sua desunião. A bancada do Espírito Santo não é unida, você vê exemplos recorrentes e da qualidade do trabalho parlamentar. Você não tem um parlamentar que efetivamente se destaque.
– Nessa questão do veto dos royalties isso ficou muito evidente. Quem assistiu às sessões pela TV Câmara percebia claramente esse despreparo da bancada capixaba.
– Temos dois exemplos disso muito fortes. Na discussão do Fundap, que estava mais concentrada no Senado…
– E lá no Senado não tem essa desculpa do tamanho da bancada.
– Não, é tudo igual. Nesse caso quem se destacou foi o senador Ricardo Ferraço, até porque ele era da comissão e nas discussões finais, o senador Magno Malta. Mas no caso dos royalties, a bancada do Espírito Santo foi a reboque da bancada do Rio de Janeiro. As ações são pontuais, não há uma integração. Mas isso é recorrente, não foi só nesse episódio e isso precisa mudar, esse perfil, porque esse discurso de vitima não convence mais. O Espírito Santo é visto nacionalmente como um estado em desenvolvimento. Não é mais visto como um estado do Nordeste, porque os índices de crescimento do Espírito Santo nos últimos 20, 30 anos são maiores do que a média nacional. Ele não é visto mais pela máquina federal, pela imprensa nacional, como um pobrezinho. Esse discurso não se justifica.
– Mas o governo Dilma abriu o cofre, são R$ 3,5 bilhões. No BNDES há dinheiro para o Espírito Santo, além desses recursos, no governo federal como um todo. O que não existe é projeto.
– Falta projeto no governo. O desempenho do governo Paulo Hartung em relação à pauta federativa deixou a desejar. O fim do Fundap, por exemplo, é uma morte anunciada deste 2000. Passou oito anos do governo Paulo Hartung, mais um ano do governo Casagrande e nada foi feito. Hartung não teve habilidade e disposição para tocar a questão federativa, a única coisa que ele tocou foi a questão dos royalties.
– E quando a gente vai para o legislativo estadual?
– É homologatório. Esperava-se que dada à sua experiência política, aí me refiro a Theodorico Ferraço, e se ele vier a ser efetivamente reeleito, ele tem que equilibrar os poderes. Você teria essa possibilidade dada a experiência de Ferraço e dado o perfil democrático do Casagrande e dada a novidade que temos no Tribunal de Justiça, que é o Pedro Valls Feu Rosa. Ele se colocou como liderança no Judiciário em relação ao Executivo. Você está se referindo ao Legislativo e acho que isso depende da postura do Ferraço.
– Observando esses três poderes, qual o balanço de 2012. Foi um ano positivo?
– Acho que foi positivo para o Judiciário que recuperou bandeiras no equilíbrio de poderes, adotando uma postura independe, porque houve um momento lá atrás que ele era também frágil em relação ao Executivo. O Legislativo continua no processo como poder homologatório. O Executivo, com a ascensão de Casagrande, democraticamente exerce o direito de haver o contraditório na política, mas os políticos aderem pela força da caneta e o charme do poder e dá essa impressão de unanimidade, mas acho que ele está construindo isso politicamente e não no sentido da imposição, da postura autoritária, como era o perfil da era Hartung. Então vejo esse avanço do ponto de vista político. Mas voltando ao início, o desafio de Casagrande é imprimir a marca própria. Por enquanto, não há uma personalidade definida do ponto de vista político. Ele ainda está com uma pauta que não é o perfil dele.
– E nem do eleitorado dele…
– Não, ele foi para a eleição com outra pauta. Basta ver a campanha de 2010, falava do social. A própria logomarca do governo dele. Ele foi eleito com uma bandeira e está governando com outra prática.

