Rogério Medeiros e Renata Oliveira
A trágica morte de Eduardo Campos cria um novo cenário eleitoral no País. A mudança terá reflexos no Estado, mas o cenário será determinado mesmo pelo posicionamento do governador Renato Casagrande (PSB) no processo de enfrentamento com Paulo Hartung (PMDB).
Renata – Rogério, a trágica morte do presidenciável Eduardo Campos (PSB) vai promover uma reviravolta no processo eleitoral. O jogo pode endurecer entre Dilma e Marina Silva, que diante da falta de opção do PSB, deve ser confirmada como a candidata do projeto de Campos. Essa reviravolta vai ter reflexos no Espírito Santo, Afinal de contas, o governador Renato Casagrande, além de socialista de carteirinha, tinha uma identidade muito grande com Eduardo Campos. Isso vai acabar beneficiando o governador no processo eleitoral capixaba, que promete ser bastante acirrado.
Rogério – A princípio, essa questão da Marina afeta a eleição presidencial. A nossa aqui, em termos, mas não de forma determinante. A Marina foi a mais votada em Vitória e Vila Velha, em 2010. Ela elegeu alguém? Não. Então, é uma questão nacional. Marina dispõe de um morto-herói. Quem se lembra do suicídio do ex-presidente Getúlio Vargas? Ele estava destruído, politicamente, seu cadáver é que determinou sua sucessão. Essas coisas são imprevisíveis.
Renata – É verdade. Os dois deputados estaduais eleitos pelo PV – nas eleições de 2010, quando ela disputou a Presidência pelo partido – tiveram eleições modestas e sustentadas em sistemas políticos próprios. Gildevan Fernandes era prefeito de Pinheiros e Sandro Locutor era vereador em Cariacica. Ela não fez ninguém nos colégios nos quais venceu. Além disso, Eduardo continuava com seus nove por cento. Marina não transferiu votos. Os votos dela são dela. Outra coisa, Rogério, é o fato de não se saber o efeito no eleitorado da Marina, que é um eleitorado diferenciado, da confusão da criação da Rede. Depois de ter defendido ideias tão progressistas, retornar a um partido tradicional.
Rogério – Eu acho que a eleição aqui no Espírito Santo está delineada. Trata-se da polarização entre Paulo Hartung e Renato Casagrande. Paulo levando vantagem, mas nada que garanta, a essa altura, a vitória dele. É chato repetir que o Paulo leva vantagem, mas Casagrande continua falando para inglês entender. Ele vai para o confronto que o Paulo está chamando e aí o Paulo nada de braçada. Continuo repetindo que se Renato perder, estará perdendo para ele mesmo. Quanto aos demais candidatos, a atualidade política do Espírito Santo não os tinham como figuras políticas de expressão e não se faz um governador em tão pouco tempo.
Renata – Voltando ao ninho da pomba, a gente precisa avaliar a questão da Rede no Espírito Santo. A Rede não é um partido, embora se porte como. Não tem que ser ouvida por isso. Mas tem uma estrutura que chama a atenção neste momento. São três correntes: a majoritária, digamos assim, é a dos aliados do ex-candidato a prefeito de Vitória Gustavo De Biase, que foram para o PSB, em sua maioria, e aparentemente apoia Casagrande. Há o grupo chamado independente, que tem como expoente o professor Roberto Belling. Há ainda os filiados ao PPS. Mas é preciso destacar que estão no PPS, mas não sob o controle do presidente do partido no Estado, o prefeito Luciano Rezende, que está com Casagrande. Essa corrente do PPS está ligada ao prefeito de Cariacica, Geraldo Luzia, o Juninho, que apoia Hartung.
Rogério – Olha Renata, eu vou passar batido nesse povo da Rede porque eles são aglomerados de figuras que já passaram por vários partidos, buscando um processo de acomodação. Acho que eles não têm influência nenhuma em um processo eleitoral no Espírito Santo. Quem sabe no futuro. A Marina não tem como abençoá-los. Quem está em uma campanha presidencial não tem condição de dar votos a quem não tem votos. Um candidato a governador está próximo da linha de chegada, o governador empurra e ele chega, mas eles estão na linha de partida.
Renata – Até porque, quando Marina veio ao Estado deixou o recado muito bem dado. Afagou o candidato escolhido ao Senado, o ex-prefeito de Vila Velha Neucimar Fraga (PV). Deixou muito claro que entendeu a importância de ter um candidato já conhecido para disputar uma eleição de mais de 1,5 milhão de votos.
Rogério – Tem razão. Todo mundo quer fazer senador. A Marina também está de olho nele. Lula tem trocado candidato ao governo para fazer senador. Ter base no Senado é ter ingresso no poder. Ela não é boba. Mas vamos deixar Marina de lado e vamos para a eleição aqui no Espírito Santo. Essa eleição ainda está em um plano um tanto quanto gerado pelo próprio Paulo Hartung. O ex-governador pegou uma pesquisa inicial do Futura, que dava a impressão de que antes mesmo de a eleição começar ele já estava eleito. Aos poucos isso foi dissipado. Ele continua armando, como sempre, e vai costurando sua candidatura e Renato vai aceitando de certa forma e ai vamos chegar em um lugar comum: ou Renato pega Paulo no que Paulo tem de ruim, e é muita coisa, ou então vai ficar nesse chove não molha. Na hora que balança a roseira cai esse mundo de passagens da mulher dele, o que não faltam são roseiras…
Renata – Mas você não acha que com o início da propaganda na televisão ele pode vir a balançar essas roseiras?
Rogério – Mas parece que Casagrande tem medo de espinhos. Sabe como é, ao balançar a roseira você acaba ferindo as mãos. É quase inevitável.
Renata – Pode ser, mas se ele não correr esse risco vai acabar perdendo a eleição. Não é possível que ele não vá, em algum momento, entrar no ringue com o Paulo. Vai ter televisão, vai ter debate…
Rogério – O tempo urge, o tempo está passando. No papo passado, eu levantei esse questionamento: será que não fizeram um pacto de não agressão, cada um pode ir até um determinado ponto. Até um determinado ponto compartilharam o governo. Não há como ignorar que Paulo ficou com a metade do governo, como fez na prefeitura de Vitória com Luiz Paulo Vellozo Lucas…
Renata – Bom, se eles fizeram esse pacto, o Paulo não está cumprindo. Na sabatina desta semana, na Rádio CBN-Vitória, ele foi pra cima do Casagrande. Fez um monte de críticas ao atual governador, sempre naquela linha de repetir um mantra como ele gosta de fazer, fez isso oito anos com crime organizado, por exemplo. E quando o sujeito começa a repetir e repetir e repetir uma história, chega uma hora que o eleitor acredita. Casagrande precisa reagir, concordo e, eu não acho que Casagrande fez um grande governo, mas a vantagem dele é comparar com seu antecessor, que foi muito pior.
Rogério – Que isso, chamar o governo Paulo Hartung de pior é porque você não lê A Gazeta, não ouve a CBN. Porque lá o Paulo Hartung figura como um Deus. Ninguém contesta, ninguém fala mal. Falou barbaridades dizendo que recebeu R$ 1,2 bilhão em salários atrasados, quando na verdade foi R$ 150 milhões e levou R$ 300 milhões da Petrobras , que depois viraram R$ 500 milhões. Então, é aquela velha história de sempre: o Casagrande tem de saber lidar com isso. Ficar dizendo o que o governo fez ou deixou de fazer. Tem de pôr as maracutaias do Paulo na rua, e logo.

