Rogério Medeiros e Nerter Samora
O Papo de Repórter volta a comentar o principal duelo das eleições deste ano no Espírito Santo. Em uma semana de mudanças no staff de campanha, o ex-governador Paulo Hartung (PMDB) deu uma guinada na parte estratégica com a chegada do jornalista e consultor político Jorge Oliveira. Já o governador Renato Casagrande, que aparece atrás do antecessor nas primeiras pesquisas eleitorais, tenta dar impulso à candidatura com o volume de campanha nas ruas. No entanto, o jogo eleitoral pode ser decidido nos detalhes, que não passam necessariamente por um discurso ou simples apertos de mão.
Nerter – Não dá para fugir do principal eixo dessas eleições, que é a disputa entre o governador Renato Casagrande e o ex-governador Paulo Hartung (PMDB). Neste contexto, o grande fato político da semana foi a troca de marqueteiro do peemedebista. O assunto foi tema da mídia e das rodas de conversas do mundo político durante toda essa semana. E logo de cara, a campanha do Paulo, que andava oscilando, ganhou um novo fôlego. No primeiro momento da troca da experiente Bete Rodrigues pelo jornalista Jorge Oliveira, mentor do vitorioso “gesto da mudança” na eleição de 2012, você comentou que o Paulo havia trazido um fato para se manter na mídia, mas parece que foi mais que isso…
Rogério – Olha Nerter, veja o seguinte: se você observar com muita atenção a manifestação permanente do Paulo, ele sempre diz “olha, eu botei esse Estado para frente e o Renato está botando para trás”. Ele não passa disso. Ele não ataca o Renato, põe sempre o governador na defensiva, que passa a defender a sua administração e se esquece de atacar o antecessor ou, quando ataca, o faz por via indireta, que ninguém é capaz de conseguir ver o alvo. O Renato não atira para o alvo, como o Paulo faz. Então, como eles são originários de um mesmo projeto de poder das elites capixabas, começo a desconfiar que fizeram um pacto de não agressão. O Paulo não sai disso e o Renato só defende o governo dele.
Nerter – Tenho essa percepção também, até porque, quando o Renato avança sobre o governo passado ou os oito anos anteriores – é bom lembrar que dificilmente ele cita o nome Hartung, até no debate da CBN se referiu ao adversário como “candidato do PMDB” – ele o faz de forma tímida. Falamos no Papo anterior que era necessário acabar com essa miragem do governo, porém, não tem sido essa o caminho seguido pelo socialista.
Rogério – Porque o governo do Paulo não aguenta uma sacudida! Se sacudir, o que vai cair de fruta podre dessa árvore é para enlamear o chão. A minha suspeita, não digo que ela seja real, mas tem procedência. A última entrevista que o Renato Casagrande deu na televisão – na TV Vitória nessa quinta-feira (7) –, ele fala que resolveu “isso ou mais aquilo que estava há trinta anos”. Ora, ele nem tocava no nome do Paulo Hartung e agora vem o Paulo com aquela historia de que vai retomar o projeto. Daí ninguém pega ninguém. O Paulo sabe bem usar o clamor, quando ele pega o Jorge, que é um cara matreiro, conhece eleição, e em jogo fácil é para ele fazer o jogo. Eu conheço bem o Jorge, é um jogo com a cara dele, que joga na banheira e só está lá para meter gol e sair daqui como fez com Luciano Rezende (PPS). Portanto, a minha desconfiança existe, pode até ser que não seja procedente. Como comentarista de política que acompanhou inúmeras eleições, posso desconfiar que eles tenham começado o jogo com um pacto de não agressão. Se não é isso, o que pode ser?
Nerter – É uma tese respeitável, mas temos que considerar que nesse início de campanha os candidatos optam por aquela fase de estudos. Um fica olhando o movimento, faz um ajuste aqui ou acolá. Mas eu acho que se o Renato for dessa forma para os programas de televisão – que já começam no próximo dia 20 – e ficar nessa “lenga-lenga”, ele vai se dar mal. A não ser que esteja só esperando essa hora chegar para começar a meter o pau no ex-governador.
Rogério – Eu ainda duvido porque me parece que o Renato confia na rua. Ele sabe que é um cara que tem uma rejeição baixa, além de ter a convicção de que se apertando mão se arruma votos. Mas até na hora que for apertar a mão do eleitor, se continuar nesse jogo mole, o cumprimento não está em condição de virar voto. Porque o tempo está mostrando que o Paulo vai ganhar a eleição. Pois bem, os jornais de sexta (8) deram que o ex-governador foi lá na região Caparaó e pegou cinco prefeitos que assinaram o manifesto a favor de Casagrande e levou para o palanque dele. Eles só mudaram porque passaram a acreditar que o Paulo é favorito, ainda mais os prefeitos dos municípios do Caparaó, que sobrevivem apenas com o governo. E não é a primeira que o Paulo faz uma jogada para cima do Casagrande. Foi assim com a retirada do apoio do senador Ricardo Ferraço (PMDB) ao socialista, bem como a saída do ex-prefeito Luiz Paulo Vellozo Lucas e a ida do PSDB para o seu palanque. Ele fez toda essa coisa à luz do dia, sendo vista com olhar de pânico dos prefeitos que dependem do governo e veem o Paulo como favorito…
Nerter – Mas então aquela manifestação pública de mais de 50 prefeitos capixabas pouco valeu…
Rogério – Até porque essa história que o Renato usa a favor dele, que é real, de que ele é um democrata, não faz distinção do partido do prefeito na hora de apoiar. Ora, se ele está liberando o prefeito para ir para outro lado, é porque caso seja reeleito vai encontrá-los lá na frente. Política se faz com confronto. Ninguém tem medo de Casagrande, aliás, o mesmo medo que está incorporado ao terror que eles têm do Paulo Hartung. Eu sinceramente acho que, se não existe esse pacto de não agressão. O Renato vai ter que mudar a estratégia.
Nerter – Uma mexida neste quadro poderia ser a entrada em cena de novas figuras, como o senador Magno Malta (PR), que pode ir para um confronto com o ex-governador…
Rogério – Pois é. Ele pode ter o Magno ao lado dele, mas parece que está vacinado contra o senador, com aquela história de que o Magno tira mais voto do que dá. Que coisa sem nexo! Se um sujeito como o Magno, que disputou a ultima eleição para o Senado contra tudo e contra todos e conseguiu se eleger, como ele tira votos? Foi um cara que, nas eleições de 2002, quando o ex-governador Max Mauro tava tomando um pau do Hartung de todo tamanho, entrou na campanha dele e quase o Paulo perdeu aquela eleição. Em 2012, ele veio aqui em Vitória na eleição do Luciano e com um minuto e meio, quase no apagar das luzes da disputa, fechou o caixão do Luiz Paulo. Eu citei isso do Magno em um comentário recente.
Nerter – E essa omissão do Magno nessa eleição?
Rogério – Ninguém foi atrás dele. Ele é praticamente inimigo do Paulo, ele que não pode ir atrás dele. Mas o Renato pode. Olha gente, candidato ao governo que desconhece a força das classes menos favorecidas em eleição quer o que?
Nerter – Mas voltando agora à disputa entre o Renato Casagrande e o Paulo Hartung. A nossa pesquisa eleitoral – Brand/Século Diário – mostra que essa é uma eleição indefinida.
Rogério – Essa é uma pesquisa que ninguém contestou. Ela é clara na menção estimulada de que a diferença entre os dois é de apenas 11 pontos percentuais. É só você pegar a diferença que está posta na corrida presidencial entre o Aécio Neves (PSDB) para Dilma, a distância é muito maior – exatos 15 pontos na pesquisa Ibope mais recente. E o Aécio está no páreo! Pesa a favor do Renato que a pesquisa mostra na espontânea um empate técnico entre ele e o Paulo. Se o Renato não quer empurrar o Paulo do desfiladeiro, basta que o ponha na ponte do precipício. O que eu quero dizer é o seguinte: esse é um jogo que o Renato só perde para ele mesmo.

