Renata Oliveira e Nerter Samora
Hartung vem confiando em números artificiais e tenta administrar uma vantagem que pode acabar se consolidando se Casagrande não reagir. Papo de Repórter avalia os dois primeiros meses da eleição.
Renata – A processo eleitoral chega ao final de seu segundo mês de campanha e a situação continua confusa para os meios políticos e para o eleitor. A eleição está polarizada como se esperava entre o governador Renato Casagrande (PSB) e o ex-governador Paulo Hartung (PMDB), mas a campanha ainda não esquentou. Os dois principais adversários continuam se estudando à distância e ninguém parte para o ataque, o mesmo discurso desde o início de julho está começando a se tornar chato e repetitivo. É hora de esquentar essa disputa ou cinco de outubro vai chegar e o eleitor vai perder o interesse pela eleição no meio do caminho.
Nerter – O problema é que os candidatos têm essa coisa na cabeça de que o eleitor não gosta de candidato que ataca, mas não é bem assim. É preciso diferenciar o que é debate e embate político do que é ataque pessoal, baixaria. Ficar nessa de fazer acusação de forma indireta, evitar o confronto direto e fazer comparação de governos não, sem colocar as cartas na mesa é prejudicial principalmente para o governador Renato Casagrande. Hartung tem um discurso insistente de que comandou a recuperação do Estado e isso tem se tornado difícil de combater, porque ninguém se propõe a colocar esse assunto em discussão.
Renata – E, aliás, o cenário é bem instável. Hartung tem uma vantagem na disputa que está apoiada em um cenário artificial. Com muitos apoios de fachada e aliados evitando comprometimento nas ruas. Casagrande também vem contabilizando perdas em seu palanque. O fato é que eu esperava mais dos dois candidatos. Hartung tem uma candidatura frágil, que pode ser desconstruída facilmente. Achei que após o apito, desta vez sem conseguir limpar o campo nos bastidores, ele teria uma estratégia mais forte. Mas seu discurso deixa brechas, ele não reage bem às críticas, e essa história de estar energizado e disposto já deu o que tinha que dar. Casagrande também poderia ter um desempenho muito melhor do que vem apresentando. Acho que seu principal adversário não é Hartung, é ele mesmo.
Nerter – Verdade. Ele assume uma postura muito séria, distante do homem do povo. Cá entre nós, Casagrande é verdadeiramente mais próximo do povão. Hartung sempre foi distante. Esse, inclusive, poderia ser o diferencial do governador em relação a Hartung, que mesmo com essa história de abraço, não consegue quebrar esse jeitão de elite que ele tem. Casagrande parece estar sempre preocupado, medindo as palavras. Acho que ele deveria se soltar mais. Ser mais Casagrande.
Renata – Com essa total falência da disputa partidária, o fim das ideologias, a política brasileira se tornou totalmente personalista. Neste sentido, a disputa entre Hartung e Casagrande não deve ser a dos projetos e comparação dos governos, e sim das imagens que os candidatos vendem de si mesmos. Hartung quer ser o intelectual que vai com sua capacidade e excelência retomar o desenvolvimento econômico do Estado. Casagrande passou os quatro anos de seu governo tentando emplacar a marca de homem do interior e agora não parece saber separar o Casagrande governador do Casagrande candidato. É preciso saber a hora de deixar a campanha tomar conta.
Nerter – Pois é. Entramos a partir desta segunda no último mês da campanha. Não sei o que aconteceu com Casagrande, a candidatura dele a gente sente que poderia estar alguns passos à frente. A sorte é que Paulo Hartung também não está fazendo aquela campanha de deixar o queixo caído. Mas quando chegar a segunda quinzena deste mês, a eleição deve esquentar. Na reta final, os candidatos vão para a rua mesmo e aí vamos ver quem tem mais garrafa vazia para vender.
Renata – A impressão é que Hartung deu uma relaxada. Ele começou com essa história de abraço, investiu nas críticas, mas o ritmo dele hoje é morno. Parece que ele está contando que esses números de pesquisas que o colocam com uma margem muito distante de Casagrande vão se consolidar. A primeira pesquisa Brand/Século Diário mostrou que a coisa não é bem assim. Mas se ele faz um tipo de que está administrando uma larga vantagem. Isso é perigoso, há um clima de já ganhou em seu palanque que deve ser evitado sempre. Por outro lado, Casagrande com seu clima pesado contribui para que Hartung tente consolidar seu cenário artificial.
Nerter – Quanto aos demais candidatos as funções deles estão sendo cumpridas. Roberto Carlos (PT) tem feito uma boa defesa de Dilma Rousseff. Como o PT foi signatário dos dois governos, não entra em bola dividida quando o assunto é o governo do Estado. Já a candidata do Psol, Camila Valadão, coloca todos no mesmo balaio e, apesar da limitação da primeira disputa e do tom professoral, que às vezes diminui o impacto, tem acertado em cheio seus adversários com críticas bem construídas. Mauro Ribeiro (PCB) sem estrutura e espaço tem uma outra função nesta eleição, totalmente ideológica, e vem cumprindo de forma leve e positiva.
Renata – Até aqui o pleito segue morno e Camila tem esquentado um pouco o clima do debate. Mas, como a eleição é polarizada, o que o eleitor quer é o embate direto entre Casagrande e Hartung e não vai dar para evitar esse confronto para sempre. A disputa entre os dois é equilibrada e deve se acirrar. Não dá para Hartung achar que já ganhou e continuar tomando bordoada de Camila. Com respostas evasivas, como as do debate da TV Capixaba, vai se desgastar. Não comparecendo a encontros que possam lhe trazer situações difíceis, também não vai contabilizar votos, como o do Sindipúblicos essa semana. Casagrande, com a cara de quem está carregando um fardo nesta eleição também não vai comover ninguém.
Nerter – Vamos esperar os próximos debates para saber se a postura muda, se não mudar, vai começar a ficar complicado para os dois.

