Rogério Medeiros e Renata Oliveira
O debate entre os candidatos ao governo mostrou que Casagrande não aceita mais o pacto de não agressão. Mas Hartung não parece preparado para esse embate. Papo de Repórter analisa a mudança de postura do governador e a reação do adversário
Renata – A postura do governador Renato Casagrande na eleição é outra. Ele está mais decidido, parou de evitar criticar seu antecessor e partiu para cima, questionando a perfeição que o ex-governador tenta vender sobre seu governo. As acusações do socialista mostram que apesar de Hartung se vangloriar de seu governo, como um exemplo de excelência, há muita coisa a ser depurada disso aí. Pelo jeito, Hartung não está preparado para enfrentar esse debate.
Rogério – O Paulo com o controle de 12 anos da mídia corporativa construiu uma miragem. Ele pode construir essa imagem porque ele não deixou que se discutisse o seu governo. Então, ninguém sabia dessa história de ter colégio dentro de curral. A gente sabia que ele havia fracassado em relação ao número de vagas criadas no ensino médio, mas não desse nível de precariedade. Isso tudo ficou escondido no arranjo institucional, ao lado de Tribunal de Justiça, Assembleia e Ministério Público, não em sua totalidade, mas de uma parcela de aliados dentro de cada poder. Ninguém conhecia o que foi seu governo a não ser a versão de salvador que a imprensa reverberou esse tempo todo. Enfim, há tanto fruto podre nessa árvore, que foi só chacoalhar um pouco que começou a cair.
Renata – A impressão é de que Hartung não esperava pela reação de Renato Casagrande. Os dois pareciam estar disputando dentro de um pacto de não agressão até aqui. Mas o governador parece ter percebido que Hartung chegou no teto de votos e agora cabe a Casagrande tentar desconstruir essa imagem de excelente gestor que Hartung construiu, mas que na verdade nunca foi. O ex-governador ficou tonto com a investida de Renato contra ele. No debate dessa sexta-feira (12), da TV Tribuna, foi possível perceber que Hartung ficou muito incomodado com os ataques de Casagrande. O governador também mostrou uma postura bem diferente. Em vez da feição carrancuda do primeiro debate, estava mais leve, mais confortável.
Rogério – Hartung ficou tonto quando o governador mostrou essa enormidade de viagens da ex-primeira-dama, destacando que muitas delas foram nos fins de semana, muito provavelmente para visitar os filhos em São Paulo e no Rio de Janeiro. E o debate chamou a atenção para isso, um governador que abriu o cofre para que a mulher viajasse para ver os filhos e para o exterior, é de uma gravidade enorme. Ele usou dinheiro público para favorecer familiares. Isso só tem um nome: corrupção. Aí Paulo Hartung diz que o adversário não foi para o debate discutir propostas. Ele ainda acha que é inalcançável. Ele não imaginou que Renato Casagrande comeria uma picanha e fosse para cima dele. Hartung é isso aí, um homem que deu dinheiro para as empresas e depois foi lá pegar grana a titulo de consultoria. Em qualquer lugar do país, isso daria uma repercussão imensa, porque isso também é corrupção. Se isso não é corrupção, é o quê?
Renata – Pois é, quando as denúncias começaram a aparecer, o restante da imprensa fez o que fez durante todo o governo Paulo Hartung e depois dele, fez de conta que não viu. Achavam que se ninguém falasse, o assunto ia morrer. Mas ninguém contava, e principalmente o Hartung, que Casagrande fosse usar isso na campanha, sim. Não esperava que ele fosse fazer um papel que durante todo esse período não existiu no Estado, que é o de uma liderança política questionar o governo Paulo Hartung, passando sua gestão a limpo. É claro que ele toma esse discurso com um objetivo eleitoral…
Rogério – Mas o Renato já engoliu muitos sapos, uma hora ele ia ter que soltar. Eu não vejo o procedimento do Renato a esse momento, de quem está tomando essa atitude para vencer a eleição, até porque a eleição deve ser decidida nos próximos 15 dias. Ele está desnudando uma farsa. No dia do debate, a Camila Valadão (PSOL) questionou por que Paulo não assinou o documento se comprometendo com o Banestes público e sstadual. Ele disse que a assessoria da candidata estava errada e que ele havia, sim, assinado o documento. Mais tarde, Camila foi às redes sociais para ratificar sua posição, mostrando que Paulo não havia assinado o documento, apenas tinha intencionado assinar. O Sindicato dos bancários também confirmou a versão da candidata do PSOL.
Renata – Paulo nos dois debates realizados até agora, em seu programa eleitoral e até no direito de resposta que conseguiu com o Tribunal Regional Eleitoral (TRE), tem dado uma enorme demonstração de como se faz um discurso gigante, cheio de palavras bonitas e gestos fortes, mas sem nenhum conteúdo. Tem saído pela tangente, construído bordões e apresentado projetos abstratos, voltado para a educação de forma muito ideal, sem uma relação muito consistente com a realidade. Quando atacado, diz que o adversário não quer discutir propostas. Falta consistência.
Rogério – O Paulo acha que não tem de dar satisfação sobre as acusações que estão sendo feitas. Tem que dar sim. O Paulo tem de assumir a responsabilidade de quem autorizou que a mulher usasse dinheiro público para viajar. Finalmente, eu quero que esse Estado que passou por essa farsa toda volte à normalidade, mas para isso, dependemos do trabalho do Ministério Público, que tem a obrigação de denunciar, porque o dinheiro é publico. Investigar o pedágio dos empresários pagos à consultoria de Hartung. Vai acontecer alguma coisa? Não vai. Ele vem dizer que quer discutir proposta. E Paulo tem de ser visto como ele é. Essa é a hora de dizer essas coisas, na eleição.
Renata – Casagrande está entendendo o momento e está partindo para cima. Se no primeiro debate a preocupação do ex-governador foi a Camila Valadão, desta vez ela ficou isolada e Casagrande assumiu a responsabilidade. Mas Hartung tentou evitar tanto a Camila quanto o Casagrande. Mas ele não vai conseguir evitar as críticas até o fim da eleição. Uma hora ele vai ter de responder. E se continuar com esse discurso abstrato, não sei não…
Rogério – Mas, o que deve ter doído no Hartung foi a questão da escola-curral. Isso ataca diretamente o discurso do ex-governador que é todo baseado na educação. Isso desconstrói, porque tira o argumento. Pelo jeito, o governador não vai ficar só por aí. A coisa ficou pior ainda para Hartung depois que a ex-coordenadora da escola, confirmou ao jornal A Gazeta desse sábado (13), que a escola realmente funcionava num antigo curral.

