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Papo de RepórterConjuntura política deve criar novo arranjo de lideranças

Nerter Samora e Renata Oliveira

Muito se fala na divisão do País após a eleição presidencial, mas o Espírito Santo também sofreu um abalo com o racha na chamada “unanimidade política”. Encerrada a dura batalha entre o governador eleito Paulo Hartung (PMDB) e o atual Renato Casagrande (PSB), Papo de Repórter inicia o debate sobre como ficará a conjuntura política do Estado.

Nerter – Encerrados os trâmites formais das eleições, como as prestação de contas dos candidatos, comitês e partidos, a disputa começa a ficar para trás. A partir de agora as lideranças políticas devem se debruçar de forma mais intensa sobre os resultados das urnas e começar a esboçar o desenho da nova conjuntura política do Estado. Os partidos vêm marcando encontros e por enquanto as declarações são voltadas para as discussões nacionais,  mas não haverá como negligenciar o racha causado na unanimidade e os efeitos que isso terá no cenário político do Estado. Uma coisa é certa, uma lavanderia do tamanho de um prédio de três andares não será suficiente para tanta lavação de roupa suja.

Renata – Podemos partir da divisão dos palanques estaduais para tentar traçar o caminho das leituras que estão sendo feitas no Estado. Seguindo as orientações da disputa nacional, o Estado teve três palanques mais destacados, assim como na disputa presidencial: Paulo Hartung (PMDB) com Aécio Neves (PSDB); Renato Casagrande (PSB) com Eduardo Campos e depois Marina Silva; e o PT com Roberto Carlos isolado para puxar o palanque de Dilma Rousseff no Estado. Da trágica morte de Eduardo Campos às idas e vindas de Paulo Hartung com Aécio, passando pelo palanque clandestino com João Coser (PT), essa eleição foi disputada com o fígado em uma disputa polarizada como nunca se viu no Estado. Esse processo deixa marcas e essas marcas não ficaram apenas em PMDB, PSB e PT.

Nerter – A dicotomia PT e PSDB nacional teve reflexos inversos no Estado. Se lá Dilma venceu a eleição fortalecendo o PT em uma batalha duríssima contra Aécio, no Estado os desempenhos de Roberto Carlos na campanha de governador e João Coser na disputa ao Senado foi bem distante do que se imaginava. Embora o PT estivesse de olho mesmo no Senado, no campo do governo, nada me tira a ideia de que a candidatura de Roberto Carlos não deveria crescer a ponto de forçar um segundo turno. Já o PSDB, que vinha acumulando desgastes nas últimas eleições saiu fortalecido: elegeu dois deputados estaduais – em 2010 ficou sem representação na Assembleia –, além disso, manteve a vaga na Câmara dos Deputados e de quebra elegeu o vice-governador, que recoloca os tucanos no Palácio Anchieta, de onde haviam sido expulsos, coincidentemente, pelo próprio Paulo Hartung em 2009.  

Renata – O PSB ainda vive o luto pela derrota de sua estrela solitária, o governador Renato Casagrande. As declarações do próprio governador dando apoio ao tucano Aécio Neves e a reafirmação do deputado federal Paulo Foletto de que o partido será oposição à presidente Dilma, afasta o partido do PT lá e cá. Os velhos parceiros agora estão separados em nível nacional pela precipitação dos socialistas em disputar a Presidência da Republica e, no Estado, porque Casagrande, diante da visível aproximação de Hartung do PT, antecipou sua definição pela candidatura de Campos, fechando a porta para o palanque neutro que havia oferecido.

Nerter – Sem querer o PT caiu direitinho em mais uma armadilha, pois assim que fechou a porta do PSB, Hartung fechou a do PMDB e o PT ficou na rua da amargura. Mas ainda tinha um trunfo, a candidatura de Coser era forte e havia um acordo de coxia com o peemedebista. Quando Rose de Freitas (PMDB) tomou a dianteira da disputa, porém, PH largou a mão de Coser também. E aí é que fica a questão, o PT vai engolir isso e aceitar novamente um cargo secundário ao lado de Paulo Hartung, que continua jogando pedras em Dilma?

Renata – Tudo indica que vai. Se depender de Coser, que mantém conversas frequentes com Hartung vai. A unanimidade está sendo refeita, mas desta vez não vai ser tão unânime assim. É evidente que o PSB está fora, quer dizer, que quem apoiou Casagrande, independentemente do partido está fora.

Nerter – Isso coloca luz também sobre os demais partidos, saindo um pouco das lideranças que estavam à frente do palanque, temos que analisar quem estava lá atrás apoiando e aí temos uma gama de lideranças que tendem neste momento a analisar a situação eleitoral. Além dos deputados estaduais e federais eleitos no palanque de Casagrande, há ainda prefeitos, lideranças municipais e representantes de classe que não estiveram com Hartung nesta eleição. Os parlamentares até que tentaram ensaiar uma reação com a PEC da reeleição na Assembleia, o problema é que a figura escolhida para liderar o movimento, Theodorico Ferraço (DEM), tem outros interesses em mente, não está preocupado com esse jogo político estadual. Ele está preocupado em amarrar o seu burro e da sua mulher, a ex-prefeita Norma Ayub, em uma sombra bem frondosa na Capital secreta e região.

Renata – E os prefeitos? Ouvi dizer que quem tem problemas na Justiça já está com medo. Não sei se as instituições estão dispostas a reagrupar o arranjo institucional, mas que os emissários dele estariam mandando recado sabemos. É evidente que pedir desculpas por ter apoiado o adversário não vai adiantar e tem prefeito que vai comer o pão que o diabo amassou até a disputa de 2016. O problema é que a solução para as lideranças que temem represálias de Hartung estaria em um grupo de oposição que, esperava-se, fosse erguido pelo governador Renato Casagrande. Mas Casagrande continua em mergulho profundo. Exemplo disso é como a equipe de transição tem apedrejado seu governo sem que qualquer reação seja vista no Palácio Anchieta. Guilherme Pereira, na coordenação da equipe de transição do governo, é o cavaleiro solitário, que vem fazendo a defesa do governo com as facas nos dentes, mas é só.

Nerter – Sem a liderança de Renato Casagrande, muitos atores políticos vão sucumbir ao controle que Hartung quer exercer sobre a classe política. A dificuldade de Hartung neste momento é justamente colocar as instituições nesse jogo. Se conseguir, complica o jogo para os seus adversários.

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