Rogério Medeiros e Renata Oliveira
A campanha eleitoral caminha para o fim do segundo mês ainda morna. Papo de Repórter discute os fatores que contribuem para esse respeito excessivo entre os principais candidatos.
Renata – Rogério, para uma eleição polarizada ao governo do Estado, a disputa nesses dois primeiros meses está muito morna. Eu esperava que os programas eleitorais começassem pegando fogo, mas não. O ex-governador Paulo Hartung (PMDB) utiliza sua rede invisível para fazer os ataques, mas no programa continua com um discurso bem elitista. Já o governador Renato Casagrande insiste em um discurso abstrato, sem um direcionamento para o embate. Será que essa campanha esquenta ou os dois vão continuar no ringue se examinado à distancia?
Rogério – Dentro desta marcação que você está fazendo, vamos ver como os senadores vão contribuir, já que são os companheiros de majoritária para Hartung e Casagrande. Você topa mexer nesse angu?
Renata – Aí, sim, temos uma disputa bem equilibrada. Os três se mostram bem competitivos para o cargo.
Rogério – Em termos, porque até agora só 30% do eleitorado se manifestou em relação ao Senado. Temos 70% para se definir. Você tem o Paulo Hartung, que gosta de atuar à meia-luz, trocando Rose de Freitas (PMDB) por João Coser (PT).
Renata – Aliás, o Roberto Carlos, que é o candidato ao governo pelo PT, sequer apareceu no programa do Coser. Tá ficando claro que não estão juntos.
Rogério – A Rose é a maior vítima do Paulo Hartung. Mas é uma veterana em política, malandra, no bom sentido, senão não teria sete mandatos de deputada federal com o Paulo tentando evitá-la, principalmente quando foi governador. Ela está disputando pau a pau, porque Rose está absolutamente sozinha. Embora apareça um pouco no programa, falando bem do Paulo, isso não reflete a realidade que ela vive. O DEM, por exemplo, que está na coligação dela, não deixa a candidata colocar o nome na legenda. Não adotou nunca.
Renata – A salvação da Rose está justamente na ferramenta que ela sempre teve a seu favor e que garantiu suas eleições anteriores. Os prefeitos, sobretudo do interior, apoiam a deputada por causa de sua capacidade de movimentação em Brasília, que consegue desenrolar as verbas necessárias para os municípios. Não estamos falando de emendas parlamentares e sim das verbas reprimidas que ela consegue liberar. Quando ela diz que é municipalista, fala disso, capacidade de movimentação que nenhum outro parlamentar do Espírito Santo tem em Brasília. Sabe onde está o dinheiro e como ter acesso a ele.
Rogério – A Rose, hoje no interior do Estado, passa pela discussão da necessidade de tê-la no Senado. Os prefeitos não veem em outro a capacidade de desempenhar esse papel. Descobrir onde as coruja dorme não é para um deputado de um ou outro mandato. Então, vereadores que sempre se deram bem com essa capacidade dela estão nesta angústia de saber se Rose se elege ou não. Porque se ela não estiver com a mão na cumbuca, eles vão sentir o efeito. Ela pode ganhar a eleição se essa necessidade no campo se generalizar. Está ligado a isso, porque de resto, é o Paulo querendo arrebentar com ela.
Renata – Nas outras duas candidaturas, são coisas diferentes. João Coser (PT) e Neucimar Fraga (PV) têm uma densidade eleitoral parecida, mas há situações que envolvem questões que vão além de suas pretensões. Coser é um candidato dependente do palanque ao governo, mas não do candidato do PT, e sim do empenho de Hartung para sua eleição. Na chapa de Hartung está o DEM, que não vai apoiar Coser. Em Vila Velha, o partido deve apoiar Neucimar, que uma vez eleito senador, fica, à princípio, fora da disputa de 2016, beneficiando o prefeito demista Rodney Miranda, que terá dificuldades de reeleição, caso o ex-prefeito entre na disputa municipal.
Rogério – Essa balbúrdia, essa coisa antipartidária presente na eleição, que são atentados aos programas partidários. Imagine DEM com Coser, Paulo com Aécio Neves (PSDB), aliás, já começou a correr dele, tanto que isso reflete no cancelamento da vinda do presidenciável ao Estado, que seria nessa sexta-feira (22). Paulo é isso aí. Você vê que esta eleição ao Senado tem essas coisas. O mais frágil é Coser. Na hora que precisar se livrar de peso, não vai ter problema nenhum em empurrar Coser morro abaixo, como está fazendo com o Aécio, que parece estar bravo com o Paulo.
Renata – Já que você tocou nesse assunto, Aécio foi o grande prejudicado com essa reviravolta do cenário nacional. Com Marina Silva (PSB –Rede) à frente do palanque socialista, ela pulou de frente e pode levar a disputa para o segundo turno, enfrentando Dilma Rousseff. Está em uma areia movediça e não se sabe o que pode acontecer. O governador Renato Casagrande, que tem um capital político muito forte dentro do PSB nacional, sendo o secretário geral da sigla, segundo homem na hierarquia, não se meteu nessa confusão. Conversou sobre alianças regionais. Isso beneficial ele na disputa.
Rogério – Até a morte de Eduardo Campos, a estratégia de Paulo Hartung estava certa. Ele embarcou no principal adversário da Dilma. A queda do avião deixou Paulo órfão na eleição presidencial. Ele não pode ir para a Dilma, não tem como chegar na Marina, e o Aécio já é carta fora do baralho para ele. Evidentemente, sendo quem é, vai buscar uma saída, mas não vejo como neste momento. Uma coisa é certa, ele não vai segurar na alça do caixão de Aécio. Neste aspecto das luzes nacionais, está no escuro.
Renata – Renato é um homem de sorte, de certa forma. Em 2010, negociaram a saída do Ciro Gomes da disputa presidencial em troca do apoio a seis palanques socialistas, incluindo o Espírito Santo, e ele se tornou governador. Agora, morreu seu grande amigo e a Marina vem bombando para o palanque dele. Mas é preciso saber se há uma capacidade de transferência de votos de Marina. Porque uma coisa é tê-la no palanque, outra é ela transferir votos.
Rogério – De uma forma ou de outra, Renata, a melhor companhia que um candidato ao governo pode ter no palanque hoje é a Marina. A Marina está atraindo os votos do indeciso e de quem iria votar em branco. Se Renato tiver inteligência política, porque o que ele costuma ter é muita sorte, ele vai pegar Paulo por aí, por Marina. E tem o reforço ainda. Quando veio ao Estado, ela rasgou elogios a Neucimar Fraga, então, está com ele. Aliás, inexplicável, porque ele saiu do nada para o PV. Até nisso Renato teve sorte. E quando acabar a sorte, o que será do Renato Casagrande?

