Ricardo Ferraço (PMDB) só precisa de um pouco mais de tempo para assumir em definitivo a candidatura de Paulo Hartung. Ao aceitar comandar a campanha do presidenciável tucano Aécio Neves no Estado, o senador sabe muito bem que essa decisão inclui o apoio à candidatura do ex-governador Paulo Hartung ao Palácio Anchieta. Mas, neste momento, prefere fazer mistério. Ricardo, na verdade, precisa justificar sua “virada de casaca” e, ao mesmo tempo, transferir a balda de desleal para Casagrande.
A estratégia de adiar o anúncio do apoio à candidatura de Hartung, além purificar a decisão de Ricardo, serve também para desgastar o governador. O grupo de Hartung aproveita para “plantar” na imprensa a tese de que o palanque de Casagrande está sofrendo uma verdadeira hecatombe, que coincide com a intenção do ex-governador em reassumir o comando do Estado.
A saída do PT do governo; o fracasso da aliança com o PSDB, para Luiz Paulo ocupar a vaga de candidato ao Senado; a renúncia inesperada do delegado Fabiano Contarato e a perda do apoio de Ricardo, formam o padrão da crise de Casagrande. Na tese hartunguete, os eventos sequenciais confirmam que o palanque do socialista já começa a ruir antes mesmo de ser completamente erguido.
E cada passo de Ricardo Ferraço, depois de pular do palanque de Casagrande, começa a ter lógica. Após anunciar o acordo com Aécio na quarta-feira (16), Ricardo Ferraço rompeu o silêncio 48 horas depois para tentar direcionar a repercussão de sua decisão na imprensa. Em Século Diário, por exemplo, o iminente retorno ao palanque de Hartung soou negativamente para o senador. Entre dezenas de leitores que comentaram a reportagem, a maioria acusou o senador de ser “marionete” de Paulo Hartung, de não ter palavra, de mudar de opinião como quem muda de camisa.
Nessa sexta (18), Ricardo deu entrevistas aos jornais do Estado (Gazeta e Tribuna) para manter a estratégia no rumo. As duas entrevistas são praticamente iguais. Ricardo se preocupa em transferir a imagem de desleal a Casagrande. Numa passagem (A Tribuna), ele deixa isso muito claro. “(…) São críticas constrangedoras demais. Imagina eu e Casagrande em um comício. Ele iria meter a porrada… no outro governo e eu do lado dele. Do governo que eu era vice-governador… Complicado para mim”.
Em ambas as entrevistas, além de passar a fama de desleal para Casagrande, Ricardo aproveita para dar uma lustrada na sua imagem. Ele transforma a rasteira que tomou de Hartung em 2010 – quando foi sacado da disputa ao governo – como uma ação espontânea dele, que revela seu elevado espírito público para avaliar o que era melhor naquele momento para o Espírito Santo.
Ricardo afirma que no processo eleitoral deste ano voltou a abrir mão de sua candidatura ao governo, mais uma vez, em nome desse espírito público, preocupado apenas em manter o arranjo da unanimidade, que seria o melhor projeto para o Estado.
Não convence. Ricardo foi obrigado a desistir, nas duas ocasiões, porque Hartung deu um murro na mesa e mostrou para o senador que o controle do partido continuava sendo dele. O que ele chama de “espírito público” pode ser traduzido como “projeto pessoal”. Ricardo Ferraço engoliu seco o aborto da sua candidatura em 2010, e quando percebeu o movimento de Hartung para retornar ao Palácio Anchieta, esperneou. Não aceitou que o ex-governador alterasse a ordem da fila novamente, adiando sua senha para 2022 – porque todo mundo sabe que Hartung não é homem de um único mandato.
Por isso em abril, quando o cenário ainda era desfavorável para a candidatura de Hartung, Ricardo anunciou apoio a Casagrande com a intenção de desestabilizar o projeto de Hartung, crendo que o ex-governador, como muita gente acreditava, poderia desistir da disputa ao governo. No cenário com Hartung de fora, Ricardo poderia pegar a senha para 2018. Na troca, Casagrande, ao final do segundo mandato, iria para Brasília, e ele voltaria para o Espírito Santo.
Como o jogo mudou novamente por decisão de Hartung, Ricardo agora tenta transformar as derrotas impostas pelo ex-governador, que mostram que ele é politicamente menor que Hartung, como sacrifícios de um político solidário, desapegado, o homem público que sempre põe os interesses coletivos na frente dos pessoais. Ou como ele mesmo definiu, sem modéstia, ao jornal A Gazeta: “Não há ninguém no Espírito Santo que tenha exercido funções de governo com mais espírito público que eu”.

