“A oposição produz a concórdia. Da discórdia surge a mais bela harmonia”
(Heráclito)
No último dia 27 de dezembro, o suplente do deputado estadual Marcelo Coelho (PDT), eleito prefeito de Aracruz, assumiu o cargo depois de dois anos longe do legislativo, Euclério Sampaio retorna ao parlamento e garante que manterá sua postura crítica.
Nesta entrevista a Século Diário, o deputado fala sobre essa postura, que durante o governo Paulo Hartung ganhou destaque por ser a voz destoante da unanimidade que tomou conta da Casa naquele período. Quanto a Casagrande, Euclério acredita que o governador seja mais aberto ao diálogo, mas afirma que não será nem situação nem oposição. Vai defender os interesses de seus eleitores.
O deputado fala também sobre sua relação conturbada com o PDT e se sente desprestigiado pela executiva do partido, embora garanta que a relação com a bancada pedetista na Assembleia seja boa.
Euclério comenta também os problemas que levaram à não-leitura do relatório da CPI do Grampo, durante sua passagem na Assembelia. O deputado fala ainda do futuro e da expectativa para 2014.
Século Diário – O senhor foi o primeiro suplente a tomar posse na Assembleia, os demais só tomam posse nesta segunda-feira (7). Qual a sua expectativa para o novo mandato?
Euclério Sampaio – A minha postura vai ser a mesma. Quero apresentar projetos bons, inclusive, já protocolei essa semana alguns projetos que serão sempre em benefício do povo, porque eu acho que ocorrem algumas injustiças nas áreas de segurança, saúde, pedágio, essas coisas. Acho que as pessoas têm que se voltar para o lado social e hoje em dia só se vê o lado econômico. Mas, eu tenho certeza que a vida é muito mais importante.
– Em sua passagem anterior pela Assembleia, o senhor tinha uma postura bem crítica em relação ao governo Paulo Hartung, em algumas áreas. Como vai ser sua relação com o governo Casagrande neste novo mandato?
– Eu não posso dizer que serei situação ou oposição. Vai depender de quando começarem os trabalhos, as demandas que forem chegando, o meu conhecimento sobre o que está ocorrendo na área da segurança, da saúde, da educação, enfim, tudo que diz respeito ao povo. Eu seria muito irresponsável em dizer que serei situação ou oposição. O eleitor elege o representante para defender o interesse dele, não o interesse de um segmento empresarial ou qualquer que seja ele. Então, se estiver ruim para o povo, eu vou usar a tribuna para falar.
– O senhor vem da área de segurança, como está vendo a situação que o Estado vive hoje? Estamos há mais de uma década convivendo com o sentimento de insegurança e impunidade. Como o senhor avalia esses primeiros dois anos do governo Renato Casagrande nesta área?
– Nesses primeiros dois anos eu só posso avaliar como cidadão e por mais avanços que o governo possa ter tido, nas áreas da segurança e da saúde, nas áreas sociais, não têm apresentado avanços, por melhores que sejam os gestores colocados. Eu tenho alguns projetos e demandas na área da segurança e vou levá-los ao governador e ver a receptividade que o governo tem.
– O senhor ainda não se reuniu com o governador?
– Ainda não, mas vou me reunir. Quero ver a receptividade dele nessas questões, porque você tem condições de minimizar o sofrimento do povo, basta ter vontade política. E para você melhorar não depende só de dinheiro, não. Basta você saber utilizar as ferramentas certas, nos lugares certos.
– O senhor está retornando à Assembleia com um plenário modificado, vai modificar ainda mais. Qual a sua expectativa em relação à Assembleia?
– Eu vejo a Assembleia bem administrada pelo deputado Theodorico Ferraço. Eu tenho um convívio bom com os deputados, mas não vou abrir mão de brigar pelos interesses da população.
– Nos bastidores, antes de sua posse, havia um sentimento de preocupação pelo seu retorno por conta do seu perfil crítico.
– Isso. Seguraram por quase dois anos, mas…
– Essa preocupação não tem sentido, porque a configuração política hoje é bem diferente, não é?
– Não, não tem. O momento é outro, mas não quer dizer que esteja tudo certinho. Se você não tiver alguém para apontar as falhas, elas vão continuar ocorrendo e a tendência é piorar. Entendo que aquele que aponta as falhas está contribuindo. Amigo não é aquele que diz que está tudo bom, não, amigo é aquele que aponta as falhas e faz o governo vê-las.
– O senhor acredita que falta isso na Assembleia? Esse perfil fiscalizador, de cobrar do Executivo as ações?
– Eu vou ser honesto. Neste período que estive fora da Assembleia, eu me afastei completamente, nem assisti à TV Assembleia. Então, não posso falar sobre o comportamento da Casa hoje.
– O senhor falou em protelação da suplência por dois anos. Temos aí uma questão delicada que é a do deputado Luiz Durão, do seu partido, que teve problemas de saúde e teve que se afastar por vários momentos da Assembleia. O senhor acredita que já poderia ter entrado nesta vaga?
– Já poderia, mas também não havia interesse meu. Mas não entrei não foi por isso não. Não entrei porque não interessava ao partido. No PDT, hoje, na Executiva Estadual o único deputado que não faz parte sou eu, o único. Eu sou o único deputado que não é prestigiado no seu município e que não é prestigiada pela Executiva Estadual.
– Então, o senhor tem uma relação estremecida com o PDT?
– Eles é que têm comigo, não é? Acho que sou um nome que traz votos para o partido. Meu nome não macula a imagem do partido e para mim isso é importante. E eu sou o único desprestigiado.
– O PDT tem problemas com algumas lideranças, como por exemplo, o deputado Carlos Manato…
– Eu entendo a atitude do Manato, mas Manato não passa 20% do que eu passo.
– O senhor não tem o diretório de Vila Velha?
– Não. Eu não faço parte de nada. Eu sou excluído de todas as decisões, tanto da executiva regional quanto da municipal.
– O senhor pensa em deixar o partido?
– Não, não penso. Eu não vou me dar por vencido, acho que tenho muito a contribuir para o partido, não me importo com as candidaturas que serão lançadas, se eu não passar nas urnas é porque o povo não me quis, mas não acho que o mesmo raio cairá na árvore duas vezes. Tem fenômeno que não acontece duas vezes, não. O fenômeno de 2010, acredito que não vai acontecer novamente em 2014.
– E dentro deste ambiente que o senhor relata dentro do PDT, como vai ficar sua relação com a bancada do partido na Casa.
– Eu me dou muito bem com a Aparecida [Denadai], para mim é uma deputada maravilhosa, me dou muito bem com ela. Me dou bem também com o Luiz Durão, é uma pessoa boa, um empresário sério e também me dou bem com Da Vitória [Josias].
– Na Assembleia, o PDT terá uma bancada de peso, com quatro deputados, como será a postura do partido?
– É uma bancada de peso e acredito que se os deputados estiverem unidos terão força. O PDT está reivindicando na Mesa Diretora manter o espaço dele e acredito que irá manter, porque não pode dois ou três partidos serem privilegiados. E os quatro deputados estão unidos.
– Há uma possibilidade de depois dessas movimentações das eleições municipais o PDT se afastar da base governista?
– Eu sinceramente ainda não sei qual vai ser a posição do partido, mas eu quero ter compromisso com o partido, mas quero também que o partido tenha compromisso comigo, que me trate como um deputado como os outros, quero ser tratado como um filiado do partido.
– E o que seus eleitores cobram do senhor para seu retorno à Assembleia?
– Só pedem uma coisa e na matéria que vocês fizeram sobre minha posse estava muito claro isso nos comentários: querem que eu continue a mesma pessoa, que luta pelo povo. Fica difícil eu mudar, não é? Mas à medida que você é atendido nos seus pleitos pelas melhorias das condições de vida da população, você também passa a ajudar solucionar os problemas junto com o governo. Mas se você tem um governo que não aceita a sua opinião, fica difícil. Mas eu acredito que o Renato Casagrande não seja intransigente.
– Sim, o governo Renato Casagrande tem atuado de uma forma diferente, ouvindo os deputados. Nós lembramos a época em que o senhor era deputado e pedia informações ao governo e não recebia respostas…
– Nunca fui respondido. Uma vez respondeu, dizendo que não tinha os documentos, que não existiam os documentos, mas eu já tinha os documentos, um funcionário do setor já havia me passado as cópias. Então, havia uma inverdade do gestor da pasta na hora de me responder.
– Deputado, durante sua passagem pela Assembleia, a ação de maior destaque foi a CPI do Grampo que acabou sendo esvaziada no fim e não se sabe até hoje o seu conteúdo. Gostaria que o senhor comentasse esse episódio.
– A CPI não chegou a ir para o Ministério Público porque não houve leitura do relatório. Eu era o relator. Éramos cinco, dois abandonaram e no dia da leitura do relatório eu precisaria de no mínimo três para votar e eu estava sozinho, então, não tinha como ler o relatório e era o prazo final para a leitura. Muitas vezes eu sou penalizado por isso. Era o finalzinho do mandato, não tinha mais como prorrogar e eu não pude ler o relatório.
– Foi um trabalho exaustivo, acompanhamos os trabalhos e no final aconteceu esse esvaziamento. E como fica o sentimento do deputado em relação a isso?
– Você fica realmente frustrado, porque em todas as CPIs que participei foram gerados relatórios, as pessoas indiciadas foram denunciadas ao Ministério Público e ali a CPI foi se esvaziando e ninguém percebeu que estava acabando o tempo.
– O senhor acha que houve influência externa para que houvesse o esvaziamento da CPI no dia da leitura do relatório?
– Eu não posso falar pela cabeça dos outros deputados que faltaram, mas eu queria ter lido o relatório.
– O senhor acha que a sociedade capixaba ainda vai saber o que tinha naquele relatório?
– Não sei. Se for aberta uma nova CPI para investigar o que ainda acontece no Estado. Infelizmente hoje você atende o telefone e antes do destinatário da ligação atender, uma outra pessoa atende. Não sei se é problema da operadora. Às vezes erra o tempo, ou é problema no sistema. Isso é absurdo.
– O senhor estaria disposto a retomar essa discussão?
– Estaria, se os meus pares aceitarem estarei disposto. Não vejo dificuldade nisso, não.
– O senhor é de Vila Velha, houve uma mudança na configuração política do município. O senhor acompanhou essas movimentações e como está vendo a chegada do novo prefeito Rodney Miranda?
– Como eu sou excluído das decisões do PDT de Vila Velha e na verdade o PDT de Vila Velha saiu enfraquecido, poderia ter eleito mais vereadores se não fosse o que aconteceu no PDT. E isso eu acho que tem que mudar, a fidelidade é importante, mas ela tem que ser primeiro com o povo e depois com o partido. Lamentavelmente a lei que está aí é uma lei muito leonina que você tem que ter a lealdade com o partido. Aí vem de cima uma determinação e eu não participei, nunca me reuni com o atual prefeito, então me sinto independente de assumir minhas posições e cobrar do prefeito, pelo povo, aquilo que eu entender de direito, o partido goste ou não. O partido nunca me chamou para discutir quem iria apoiar, como seria a coligação. Então, acho injusto o partido me cobrar algo em relação a Vila Velha.
– Mas seu primeiro projeto trata da Terceira Ponte, o que afeta o município, o senhor vai continuar fazendo projetos que beneficiem o município.
– Sim. Mas vou acompanhar os primeiros meses do trabalho do novo prefeito e se eu entender que não está cumprindo o que prometeu, eu vou para as ruas com o povo, para cobrar.
– O senhor já está pavimentando sua candidatura à reeleição para a Assembleia em 2014?
– Estou, com certeza, dentro daqueles critérios que eu acho mais corretos, mas não vou fugir da minha linha de ação e o povo me conhece, vai saber valorizar.
– Vai ser pelo PDT?
– O dia de amanhã só Deus sabe, não é?

