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Reportagem especialDotô Armojo

Demorou, mas a Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes) reconheceu o valor de Mestre Armojo. A instituição, que por muito tempo manteve aquela espécie de distanciamento natural que a academia cultiva com quem não exibe certos títulos, concedeu nessa sexta-feira (22), Dia Nacional do Folclore, o título de Doutor Honoris Causa (in memoriam) ao nosso grande folclorista, mesmo após 18 anos de sua morte, em maio de 1996. 
 
É a mais alta honraria outorgada pela instituição. A proposta foi aprovada em 30 de janeiro deste ano, por unanimidade, pelo Conselho Universitário da Ufes.  
 
Nascido em 12 de dezembro de 1916, Hermógenes viveu a infância e o início de juventude em Conceição da Barra. Foi uma criação simples na diminuta Perobas, vendo a mãe lavar roupa para fora e o pai, trabalhador rural, arar a terras terceiras, já que a propriedade em que moravam não pertencia à família. 
 
Sua identificação com o folclore nasce justamente pela figura do pai, um vaqueiro do Reis de Boi de Perobas, folguedo famoso na região. Hermógenes sempre o acompanhava nas noites de apresentação. Quando o pai morreu, um acontecimento se gravaria para sempre em sua memória. Uma febre cruel o consumia. Num último recurso, mãe e filho foram para Itaúnas atrás de um fazendeiro também curandeiro. Mal se encontraram, o homem proferiu: “Ele morreu há meia hora”. Os dois retornaram a Perobas. Ao chegarem, viram confirmada a lúgubre visão.
 
O esteio da família se fora. Sem condições de se sustentar, mãe, filho e filha embarcam em um navio com destino à capital do estado. Os três vão morar no Morro da Fonte Grande. 
 
Em Vitória, a mãe se casa com uma liderança sindical dos estivadores, outro fato importante para a formação intelectual de Hermógenes. Além de muito estudioso, ia com frequência ao sindicato, experiência fundamental para conhecer as demandas da classe trabalhadora, uma vez que, tempos depois, iniciaria sua vida política no Partido Comunista Brasileiro (PCB), o velho Partidão, em que se tornaria uma jovem liderança.
 
Ele é eleito para a primeira legislatura da Câmara de Vitória numa votação histórica, que, ainda hoje, figura como a maior média de votos do Espírito Santo: Vitória contava então 17 mil eleitores e Hermógenes levou seis mil votos, razão pela qual também conseguiu levar para a Câmara outros seis candidatos da chapa. Elegeu-se pelo Partido Libertador (PL): o Partidão estava na clandestinidade. 
 
Hermógenes também era contador, formado pela Escola Superior de Comércio de Vitória, em 1944. Gozava de lastro nacional na atividade e chegou a lecionar na Faculdade de Cachoeiro de Itapemirim. 
 
Segundo o livro da Coleção Grandes Nomes do Espírito Santo – Hermógenes Lima Fonseca, Hermógenes presidiu o Centro de Estudos e Pesquisas Contábeis de Minas Gerais e Espírito Santo, integrou a Associação Internacional de Contabilidade e Economia. Foi contratado pelo Banco de Desenvolvimento do Espírito Santo (Bandes) para dar consultoria a empresas em Colatina, Conceição da Barra e Campos, no Rio de Janeiro.
 
A partir de 46, ao montar seu próprio escritório, o contador e o comunista se encontram, quando se especializa em Contabilidade Sindical. Hermógenes presta serviço para sindicatos da área portuária, como dos Arrumadores, Estivadores, Conferentes e Doqueiros e, mais além, ajuda a fundar sindicatos, como o dos Comerciários e Rodoviários.
 
Quando 1964 inicia a longa e profunda noite, Hermógenes começa a frequentar as cadeias do 38° Batalhão de Infantaria, em Vila Velha. A essa altura, ele era uma liderança nacional do Partido Comunista e, no Estado, dirigia o jornal do partido, a Folha Capixaba. Foi por essa época que as atividades folclóricas e políticas de Hermógenes renderam um fuzuê danado em Conceição da Barra.
 
Em certo janeiro, antes do Alardo de São Sebastião, em Conceição da Barra, celebrado todos os dias 19 e 20, Hermógenes mandou uma carta ao mestre dos cristãos, Bianor. “Vamos lá! Prepare as armas!”, insuflou Hermógenes, entre outras exclamações. O Alardo de São Sebastião retrata as batalhas entre mouros e cristãos, remontando as guerras religiosas na Península Ibérica nos séculos XIV e XV. 
 
O problema é que a ditadura tinha seus homens nos Correios e tinha seus olhos em Hermógenes – e assim a carta foi apreendida. No primeiro dia do Alardo, Conceição da Barra amanheceu sitiada: caminhão, tanques e soldados estavam onde se pusesse os olhos. Drama e comédia no norte capixaba. Tudo porque Hermógenes conclamou cristãos a lutar contra mouros infiéis.
 
Naturalmente, as pesquisas e estudos folclóricos permanecem centrais na vida do ilustre barrense. Ele trabalha com as bandas de congo de Vitória e vai com frequência a Conceição da Barra para organizar as festas populares, estreitando ainda mais a convivência com os mestres. 
 
Com o tempo, Hermógenes resolver voltar para a terra em que nasceu. “Por quê?”, lhe perguntam. Ele devolve com singeleza: “Eu tô aqui, mas meu coração tá lá”. E ele segue seu coração e volta mesmo para Conceição da Barra. Vai morar em uma chácara e inicia seu mais fértil período intelectual, em que escreve a maior parte dos seus livros. Hermógenes está bem e feliz: lê, escreve e dá aula em escolas para crianças sobre cultura popular e folclore. Desfruta, ainda, da convivência íntima com os integrantes do folclore. 
 
Por um tempo, Hermógenes foi colega de pesquisa de Luiz Guilherme Santos Neves. Este e outros luminares das letras capixabas, como Renato Pacheco, sempre festejaram Hermógenes. Ambos devotaram imenso respeito à visão de Hermógenes, intelectual – diferente deles, enraizados nas elites capixabas – nascido e crescido no seio dos costumes populares da longínqua Perobas. 
 
Luiz Guilherme dizia que Hermógenes via o folclore como se fosse um dos brincantes. A perspectiva é perfeita. Essa característica original de Hermógenes era sempre destacada em encontros nacionais sobre o tema, uma vez que os estudiosos e pesquisadores da área costumavam envergar os trajes da academia. Sobretudo no conjunto de manifestações do norte capixaba, Hermógenes nunca pareceu aos integrantes dos grupos folclóricos um circunspecto acadêmico. Era, sim, considerado mais um integrante daquele meio, membro natural da comunidade.
 
Sua convivência com o folclore custou-lhe desavenças no Partidão: para os comunistas, a luta entre mouros e cristãos do Alardo de São Sebastião nada mais era que uma liberação inútil do vigor revolucionário, quando este deveria ser, na verdade, despejado contra o capitalismo. 
 
A saída de Hermógenes da Comissão Espírito-Santense de Folclore praticamente encerrou um ciclo até hoje não retomado pela entidade: o das pesquisas e estudos profundos e sistemáticos sobre o tema. Importante contribuição do folclorista, por exemplo, foi ter acompanhado os impactos das transformações econômicas do Espírito Santo sobre a dinâmica das manifestações folclóricas.
 
Com a implantação dos grandes projetos industriais no Espírito Santo, entre os quais, o que nos interessa, a instalação da Aracruz Celulose (atual Fibria), o Estado registra um avanço bárbaro dos eucaliptais sobre as terras do norte do estado. Monocultura devastadora, o eucalipto foi engolindo uma a uma as pequenas propriedades rurais, desempregando e desenraizando um sem-número de famílias.
 
E o que são os brincantes senão e antes de tudo pequenos proprietários rurais? A monocultura do eucalipto debilitou seriamente as manifestações populares do norte capixaba: e os estudos de Hermógenes captaram tais transformações. A Marujada, por exemplo, é uma lembrança.
 
A sessão solene do Conselho Universitário que outorgou o título de Doutor Honoris Causa a Hermógenes teve beleza e deferência. Na área de entrada do Teatro Universitário, a banda de congo Amores da Lua, do Morro de Santa Marta, em Vitória, com todos os instrumentos típicos e integrantes devidamente paramentados, fez uma calorosa recepção aos convidados entoando canções como Quebra, Quebra, Gabiroba e Iaiá, Você Vai à Penha?.
 

No teatro, cerca de 120 pessoas prestigiaram a solenidade. O reitor da Ufes, Reinaldo Centoducatte, autor da proposta de concessão do título ao folclorista, e o secretário de Estado da Cultura, Maurício Silva, que teve uma relação mais próxima com Hermógenes quando geria o antigo Departamento Estadual de Cultura (DEC) e, ainda, quando foi secretário municipal de Cultura de São Mateus, tudo entre o final dos anos 80 e início dos 90, estavam entre os componentes da mesa. 

 
“Hermógenes trouxe a cultura popular para dentro das instituições. Fez que com que elas reconhecessem esse legado do povo capixaba e um legado diversificado e de uma riqueza incomensurável”, disse Maurício. Vale destacar que foi com o auxílio do historiador e professor da Ufes Renato Pacheco que os estudos de Hermógenes chegaram à instituição. 
 
Os filhos de Hermógenes estavam todos presentes. A viúva de Hermógenes, Maria Augusta Fonseca, o representou, recebendo das mãos de Centoducatte o certificado, sob aplausos da plateia. Nos últimos 20 anos antes de sua morte, porém, Hermógenes viveu com outra companheira, Denise Machado, que todo ano realiza encontro em reverência a ele em Conceição da Barra e é a guardiã dos pertences da trajetória de Hermógenes no folclore do norte do Estado.

A iniciativa da Ufes, claro, merece todos os aplausos. Afinal, a relação entre Hermógenes Lima Fonseca e a instituição nunca foi belicosa. O ilustre barrense encarava numa boa esse distanciamento. Se vivo, acolheria o título como bem acolheu todas as distinções que lhe foram concedidas – embora, provavelmente, com mais uma de suas tiradas, irônico que era. 
 
Falando em ironia, foi justamente essa sua famigerada irreverência que marcou uma de suas passagens pela Ufes. Convidado a dar palestra sobre cultura popular, Hermógenes foi questionado por uma professora antes mesmo de iniciar sua exposição: que títulos, credenciais, ele teria para falar sobre cultura popular? Claro, ele tomou um choque com a inesperada intervenção. 
 
Mas se refez. Aquele espírito zombeteiro se manifestou com viço e vigor: “Sou pós-doutor em Caçaroca City”, disse, se referindo ao singelo vilarejo da Serra. Baixou um silêncio, após o que, finalmente, Hermógenes pôs-se a palestrar.

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