Sucesso de público e de crítica
Macacos é um monólogo em nove episódios e um ato. A peça é visceral, numa perspectiva histórica ainda há pouco camuflada na historiografia escolar. O trauma colonial, de um pacto mercantil, que provocou um deslocamento geográfico de pessoas tratadas como corpos-mercadoria, e que, como consequência, foi um descentramento cultural, em um mistifório recriado a partir dos navios negreiros.
Tal herança se misturou a uma nova realidade, recomposta, e que teve um auge de tortura e morte durante a escravização, um genocídio, o maior da História no Brasil e no mundo, mais do que os dos gulags soviéticos, vindos do período czarista, da fome maoísta e do nazi-fascismo.
Falamos aqui de uma paisagem constrangedora, em que nosso país foi o último a assinar a abolição do sistema escravista, advindo do extrativismo da cana-de-açúcar, do chamado pacto colonial mercantilista, em um período pré-capitalista, fundado no comércio internacional marítimo. Com a pressão do novo modelo da revolução industrial inglesa, no entanto, os senhores das terras se viram sem saída.
Foi quando findou o sistema vindo do colonialismo português, o que decretou, junto à proclamada Lei Áurea, da Princesa Isabel, tanto o fim da monarquia, que perdeu seu apoio do poder agrário, como acabou selando o caminho imediato e histórico de uma cisão social pós-escravista, de um mal ajambrado e hipócrita processo de transição para pretos livres etc.
O problema veio de políticas urbanas higienistas e que foi uma tentativa mal sucedida de segregação que consistiu em “livrar-se” de um problema fingindo que ele não existe. Ou seja, o higienismo buscava separar áreas demarcadas entre a cidade funcional, e uma periferia forçada por rearranjo da derrubada de cortiços, com o exemplo maior na política de Pereira Passos no Rio de Janeiro, inspirada na reforma urbana parisiense do Barão Haussmann.
O fingimento foi “bom” até o momento em que a ressaca veio na forma de pobreza mal resolvida e crescimento exponencial da violência urbana, cada vez mais sofisticada e organizada, retroalimentando um racismo estrutural em que existe o tal “perfil de bandido” etc. Quer dizer, o segregacionismo higienista do início do século XX revirou-se em um racismo estrutural advindo de um desenho sociodemográfico terrível e excludente.
Clayton Nascimento realiza uma performance física, intensa, no tablado, que é liberado de objetos, plano aberto, tal qual seu papel corporal, de bermuda, sem camisa, correndo para lá e para cá, por todo o tablado, podendo-se ouvir o barulho de seus pés descalços sobre a madeira, numa experiência acústica nua, a qual pude ver-ouvir no Teatro Riachuelo, “sold out”, no Centro do Rio de Janeiro.
Isso, para mim, sem citar todo o processo histórico que ele iria deslindar ali, me marcou bastante, esta parte sensorial, de corpo-som-tablado, do teatro físico. E a linguagem vem como um soco, na sua repetição da palavra “macacos”, já como um cartão de visitas do que estaria por vir. O que seria o impacto de um texto que está em consonância com a performance corporal do ator, num suadouro intenso tal qual o que é narrado, com a força do texto aliada a um teatro físico incansável.
Clayton Nascimento também narra a sua experiência direta com o racismo estrutural, ele mesmo confundido com bandido, sendo acusado de ser assaltante quando era roubado, na verdade, por um casal que era de fato quem assaltava Clayton, numa inversão em que testemunhas da cena na rua acharam que ele que era o ladrão, tendo seus bens saqueados enquanto era espancado pelo casal.
Tal episódio é bem sintomático de uma máquina social de ilações produzidas a partir do racismo estrutural que, se não fosse trágico, estaria beirando a caricatura, como neste caso real narrado por Clayton, do qual ele mesmo foi vítima. Esse foi o violento episódio real de 2018 que provocou um ponto de virada biográfico para a criação do monólogo e a pesquisa do racismo estrutural que costura todos os episódios da peça Macacos, em que Clayton Nascimento coloca um foco autobiográfico e histórico.
A peça funciona como uma autoficção que se mistura a uma narração histórica que atravessa de modo diacrônico o racismo, e que revela, na frente, de modo sincrônico, a parte estrutural que vem deste processo histórico longo e complexo. Além destes aspectos de autoficção, teatro físico e de teatro histórico, temos as referências pessoais de Clayton com seus ídolos negros. Por exemplo, nas figuras de Elza Soares, Bessie Smith e Machado de Assis.
Diante de personagens negros (as) destacados (as) na História, Clayton tem também a esperança e a utopia como guias de seu caminho, e não somente memórias pessoais e históricas dolorosas. O que também revela uma cultura que se desenvolveu na música, na literatura, no próprio teatro, se lembrarmos de Abdias Nascimento, com seu teatro experimental do negro, em que a dramaturgia de Clayton contrabalança a denúncia fundante e fundamental que já vem do nome da própria peça, com esta luz que salva tudo, no livramento destas constantes ameaças de morte e desaparecimento que ele narra.
Clayton também fala de sua mãe, dona Maria do Carmo. De seu pai, durante o périplo até sua entrada na universidade, em que seu pai sempre repetia no fim o verbo “persevera”. Lembra do caso de Claudia Silva, que foi baleada ao sair de casa para comprar pão, e que teve seu corpo arrastado pelas ruas do Rio de Janeiro ao cair do camburão do carro de polícia que a tinha pego.
Em uma de suas falas, Clayton nos lembra : “Se fizermos uma rápida divisão entre 388 anos de escravidão divididos por 521 anos de Brasil, teremos cerca de 69% da nossa história toda pautada em escravidão. Se dividirmos cerca de 40 anos de democracia por 521 anos de Brasil, teremos apenas 7% da nossa história pautada em democracia.”
A palavra macaco, que vem no singular na abertura da peça, como título do episódio 1, “um macaco”, entra no texto no plural, como um xingamento de torcida, como gritos de uma massa popular, e é este plural que encerra a peça, em que Clayton anuncia uma união deste bando de “macacos”, como a imagem final da peça.
Este bando traduz-se em pessoas que aparecem no cenário social e de corte racial como estes “outros”, num processo de luta contra a exclusão e desumanização, em que esta alteridade se afirma transculturalmente não por via pacífica, de uma mestiçagem cordial, mas num movimento contra as violências, em choque, em colisão, em que tanto no Brasil como em outras realidades mundiais, a complexidade cultural é mais produto de conflito do que através de diálogos pacíficos.
Falar de transculturação, hibridismo etc, portanto, não pode ser capturado por um discurso ingênuo e alienado da História real, e que a dramaturgia de Clayton Nascimento faz questão em destacar. Nada vem de graça, começando pela Lei Áurea, cuja visão romantizada já caiu por terra, e hoje a data comemorativa não é mais a da abolição e sim da Consciência Negra, com inspiração na luta quilombola de libertação do escravismo e do colonialismo, com a imagem destacada de Zumbi dos Palmares, dentre outras figuras de proa na História de luta negra brasileira.
A denúncia contra silenciamentos, apagamentos, contra mortes tanto físicas como simbólicas, é uma luta pela vida e pela liberdade, e que Clayton Nascimento, na sua peça Macacos, vocaliza e também organiza, pois seu texto traz muita informação, muito importante, o que é até mais central que todo o cenário físico e de sua performance intensa de ator. A peça é sucesso de público e de crítica e o ator, performer e dramaturgo é devidamente reconhecido no cenário cultural brasileiro contemporâneo.
Clayton Nascimento é dramaturgo, ator, professor de artes dramáticas e diretor de teatro. Nascido no Piauí e criado em São Paulo, graduou-se pela Universidade de São Paulo (USP), além de ter cursado a escola Célia Helena Centro de Artes e Educação, São Paulo. Começou a escrever Macacos quando ainda era estudante e morava no centro universitário, o Crusp.
A peça Macacos recebeu diversos prêmios, entre eles o prêmio de Melhor Ator no XX Festival de Teatro do Rio de Janeiro e Melhor Dramaturgia no Narrativas Urgentes no Festival Breves Cenas de Teatro no Amazonas. A peça Macacos estreou no Teatro Popular Oscar Niemeyer, em 25 de setembro de 2016, integrando o festival de teatro de Niterói em Cena, em Niterói, RJ. Uma dramaturgia-denúncia escrita entre 2015 e 2021, montada como uma peça sem cenários e dividida em episódios apenas por uma questão dramatúrgica. Coisa nossa, do Brasil-sil-sil.
E cabe aqui lembrar o Episódio 4, uma notícia pra qualquer um, em que Clayton Nascimento destaca : “… e a Terezinha virou notícia num jornal para qualquer um. [em tom jornalístico] Terezinha Maria de Jesus, mãe do menino Eduardo de Jesus, assassinado aos 6 anos pela Polícia Militar do Estado do Rio de Janeiro em 2015, precisou se mudar de estado após a morte do filho. O seu casamento acabou. No final de 2016, a Justiça brasileira julgou o caso Eduardo de Jesus e decidiu que todos os policiais envolvidos no caso estavam absolvidos. Por legítima defesa. O caso foi arquivado. No dia 5 de dezembro de 2019, o delegado do caso menino Eduardo de Jesus se tornou réu. Foi acusado de corrupção. Fim do jornal.
Desde que a peça Macacos estreou, por volta de 2016, eu fui me aproximando cada vez mais de Terezinha. Eu ainda me lembro de que na apresentação da peça no Teatro Baden Powell, em Copacabana, a poucas horas da apresentação, chega uma jovem senhora, muito bonita, vívida, de sorriso largo, de braços dados com uma amiga e rodeada de algumas crianças: — Boa tarde. Eu sou Maria Terezinha. Mãe de Eduardo. Vim falar com o ator. Soube que ele tá falando de mim na peça. A Terezinha me contou sua história. E notei que ela tinha detalhes bastante diferentes de tudo o que eu já havia lido para preparar essa peça. [como se numa lembrança repentina] Nessa semana, essa última que passou, eu falei para a Terezinha que eu estaria aqui, fazendo a peça pra vocês…”
Ainda neste Episódio 4, Clayton cita outro caso : “Joselita de Souza, mãe de Roberto de Souza, o Betinho! Assassinado aos 16 anos em Costa Barros com 111 tiros da polícia, enquanto saía com os amigos para gastar seu primeiro salário de Jovem Aprendiz. Cento e onze tiros. Após a morte do filho, a mãe, Joselita, não aguentou a dor e foi internada. O salão de cabeleireiro, que ela tanto sonhou abrir, fechou. Nessa última semana, essa mesma que passou, o seu filho mais velho, Vinicius, foi visitar a mãe no hospital.”
O Episódio então se encerra : “MACACO: Aquela foi a última conversa entre mãe e filho. Joselita de Souza, quarenta dias no hospital, sem alegria e comendo apenas sopa, morreu. Não aguentou a morte do caçula. Quando a gente fala sobre o “genocídio negro” no Brasil, a gente sempre imagina que será uma figura negra, na maioria das vezes homens entre 20 e 30 anos, mortos pelas mãos do Estado brasileiro. Mas e as mães? E as mães do genocídio negro? E essas mães? E as mães do genocídio negro? Quem fala delas, dessas mães?” A peça Macacos também foi publicada em livro pela editora Cobogó, pela Coleção Dramaturgia, em 2022, com 72 páginas. E sobre o Episódio 4, destaquei o texto de Clayton que fala por si.
Gustavo Bastos, filósofo e escritor.
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