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As reações de China e União Europeia contra o tarifaço de Trump

“Trump enfrenta queda de popularidade”

O tarifaço de Trump causou respostas estratégicas da China e da União Europeia. Em que os europeus realizaram um contra-ataque cirúrgico, como parte da doutrina geoeconômica da “Autonomia Estratégica”. A União Europeia já tinha calculado previamente este movimento, com uma retaliação simétrica e não-ideológica pré-aprovada pela Comissão Europeia.

Bruxelas mirou produtos de estados norte-americanos com bases eleitorais importantes do Partido Republicano para aplicar tarifas, o que implicou numa resposta que atingiu mercadorias como motocicletas, bourbon e produtos agrícolas do Midwest, como modo de pressão sobre Trump, para que sua base exigisse seu recuo. No pacote, a UE acelerou impostos sobre as Big Techs, endurecendo regras ambientais de importação, contando com um mercado consumidor interno robusto como tática de dissuasão. 

Na guerra comercial, a China atacou de modo assimétrico, aplicando tarifas sobre a soja norte-americana, e praticando seu usual dumping, com uma desvalorização controlada de sua moeda, o Yuan, mantendo a competitividade internacional de seus produtos, conseguindo neutralizar parte do tarifaço trumpista. Além disso, os chineses se utilizaram do monopólio que possuem sobre o refino de terras raras e minerais críticos essenciais na transição energética e para as indústrias de alta tecnologia, impondo severas restrições de exportações desses materiais para as empresas norte-americanas.

A China teve um senso de oportunidade e avançou com a sua iniciativa Belt and Road (Nova Rota da Seda), traduzida por Iniciativa Cinturão e Rota, enquanto os Estados Unidos, sob o Governo trumpista e seu tarifaço, fechava o seu mercado. Os chineses assinaram novos acordos comerciais com a América Latina, África e Sudeste Asiático, o que também isolou produtores norte-americanos.

Tal nomenclatura, que é histórica, se refere à Rota da Seda de antigas rotas comerciais históricas entre o Oriente e o Ocidente, e que, atualizada, busca a criação de corredores econômicos ligando a China à Ásia Central, Rússia e Europa, além de rotas marítimas através de conexões pelo Oceano Índico e Pacífico, unindo portos estratégicos na Ásia, Oriente Médio e África.

A China lançou a Nova Rota da Seda (ou Iniciativa Cinturão e Rota) em 2013, como um megaprojeto global de infraestrutura e comércio, com objetivos de ligar a Ásia à Europa, África e América Latina através de redes terrestres e marítimas, o que visa à expansão da influência geopolítica e econômica chinesa, com investimentos de mais de US$ 1 trilhão em portos, ferrovias, rodovias e energia em mais de cem países.

Tal expansão se dará através do rearranjo das cadeias globais de suprimentos, exportando o excedente de capacidade industrial da China e que levará à consolidação do país como a principal potência da Eurásia. Esta investida chinesa que abala a hegemonia global norte-americana e o sistema de alianças que o país tem na geopolítica mundial.

A integração econômica entre Ásia e Europa busca reduzir a influência transatlântica dos Estados Unidos. A criação de rotas terrestres através de ferrovias e gasodutos tem objetivos de segurança energética e evita o uso do Estreito de Malaca, que é indiretamente controlado pelo país norte-americano. A moeda chinesa, com a internacionalização do Yuan, entra cada vez mais em contratos comerciais globais, enfraquecendo o domínio mundial do dólar.

A China atua diplomaticamente na atração de países em desenvolvimento para o seu bloco de votação em fóruns como, por exemplo, em questões que envolvam a ONU. Na concorrência com os Estados Unidos, os chineses atuam no Sul Global com financiamento estratégico em infraestrutura.

Pela chamada “Rota da Seda Digital” ocorre a competição pela instalação de redes 5G/6G e cabos submarinos de fibra óptica.  E a China ainda atua na compra de dívidas, com empréstimos impagáveis, assumindo ativos soberanos, como o Porto de Hambantota, com acusações dos Estados Unidos sobre estas ações chinesas.

O país norte-americano, na sua contraofensiva, atua com iniciativas lideradas pelo G7, oferecendo alternativas de financiamento sustentável e transparente. Para concorrer com a Nova Rota da Seda chinesa, existe uma parceria chamada corredor IMEC, que envolve os Estados Unidos, Índia, Oriente Médio e Europa, rivalizando contra a China com uma política de financiamentos alternativos de infraestrutura, uma política protecionista agressiva de mercado, sanções e segurança tecnológica.

Nesta guerra comercial contra a China, a principal dos Estados Unidos, o tarifaço trumpista adota tarifas recíprocas, com base nos superávits de parceiros comerciais, com taxas sobre produtos estrangeiros, forçando as cadeias de suprimento na saída da dependência dos chineses, para a contenção da capacidade industrial da China, e umas das vantagens utilizadas é o fato de os Estados Unidos possuírem um gigante mercado consumidor como moeda de troca na geopolítica comercial para que países recusem investimentos chineses.

Outra concorrência contra a Nova Rota da Seda, também, é o Corredor de Lobito, que liga Angola, República Democrática do Congo e Zâmbia, no escoamento de minerais críticos. A Corporação Financeira de Desenvolvimento Internacional (DFC) possui projetos em logística e energia. E os Estados Unidos ainda tem o PGII (Parceria para Infraestrutura e Investimento Global), um consórcio do G7 liderado pelo país norte-americano, que mobiliza capital privado e público em projetos no Sul Global. 

O Departamento de Estado norte-americano financia ainda a substituição de cabos de fibra óptica obsoletos e a instalação de novas redes na América Central e no Caribe, como forma de  impedir que empresas estatais chinesas tenham controle da infraestrutura de telecomunicações próxima ao território dos Estados Unidos. Além disso, o governo trumpista atua através do bloqueio global contra tecnologias chinesas 5G/6G, semicondutores e IA em redes estratégicas de países parceiros sob alegações de riscos à segurança nacional.

Outra política norte-americana é a de estabelecer um contraste com a promoção de critérios rígidos de governança, sustentabilidade ambiental e direitos trabalhistas no financiamento de obras, em oposição ao flexível modelo chinês. Com os Estados Unidos se utilizando de canais diplomáticos no alerta de países em desenvolvimento sobre os riscos de calote e perda de soberania de ativos, tais como portos e aeroportos vinculados a empréstimos chineses.

No caso da reação da União Europeia e da China contra o tarifaço trumpista, foi feito um mapeamento das vulnerabilidades econômicas e políticas dos Estados Unidos. Ou seja, ao invés de uma reação genérica, os dois blocos escolheram alvos de alto impacto como a melhor forma de pressão sobre o Governo Trump, forçando uma negociação. Por exemplo, os alvos específicos da União Europeia visaram atingir os interesses do mercado consumidor norte-americano que consiste em eleitores e financiadores de campanha do Partido Republicano, mirando os Estados-chave (swing states) e redutos de aliados de Trump, com taxações sobre bebidas e alimentos de luxo.

A União Europeia aplicou tarifas sobre o Bourbon (uísque americano), produzido majoritariamente no Kentucky, Estado do líder republicano no Senado. Também foram atingidas as motocicletas, com sobretaxas severas contra a Harley-Davidson, sediada no Wisconsin, um Estado eleitoral decisivo e altamente disputado. Tivemos a tarifação do milho e do tabaco norte-americanos, com prejuízos no agronegócio do Meio-Oeste, que envolve prejuízos diretos aos fazendeiros que formam a base eleitoral mais fiel de Trump. Por fim, houve uma aceleração de multas bilionárias e impostos sobre as Big Techs, tais como Google, Apple, Meta e Amazon.

Os chineses miraram nas terras raras e minerais críticos, com a restrição sobre a exportação de gálio, germânio e grafite, minerais dos quais detém o controle global de fornecimento, e que são fundamentais na fabricação de semicondutores, chips de Inteligência Artificial, baterias de carros elétricos e equipamentos de defesa do Pentágono. Tendo ainda a suspensão imediata de compras estatais de soja e carne de porco vindas dos Estados Unidos, o cancelamento e suspensão de contratos de compra de aeronaves da Boeing, negociando com a rival europeia Airbus ou fomentando a estatal chinesa COMAC.

A retaliação contra o tarifaço trumpista atinge os consumidores norte-americano. Os Estados Unidos elevaram a sua inflação anual, produtores rurais enfrentam perdas multibilionárias e operam no prejuízo em grãos como soja devido ao redirecionamento de compras da China para outros países; e a manufatura norte-americana registrou perda de dezenas de milhares de postos de trabalho, com recuo do índice de confiança das grandes empresas norte-americanas, com risco de recessão e adiamento de investimentos de longo prazo.

Trump enfrenta um processo administrativo no Tribunal de Comércio Internacional dos Estados Unidos, em Nova York, processo realizado por um grupo de 25 Estados norte-americanos, alegando abuso de autoridade presidencial ao usar o pretexto de combate ao trabalho forçado para reinstaurar taxas derrubadas pela Suprema Corte.

Trump enfrenta queda de popularidade provocado pelo tarifaço, ameaçando diretamente a maioria do Partido Republicano no Congresso às vésperas das eleições de meio de mandato (midterms). O setor rural, tradicional base aliada de Trump, foi duramente atingido por tarifas de retaliação e pela inflação, e o apoio ao presidente nas zonas rurais despencou 10%, atingindo mínimos históricos, com eleitores sentindo diretamente o encarecimento de alimentos e combustíveis. E a inflação virou o principal combustível da oposição. Com os Democratas já abriram vantagem nas pesquisas de intenção de voto genéricas para o Legislativo.

Projeções apontam uma alta probabilidade de que os republicanos percam a maioria no Senado e com fortes chances de derrota também na Câmara dos Representantes, paralisando os dois anos finais do mandato de Trump. Enquanto este tenta novamente a estratégia de contestação da confiabilidade do sistema eleitoral e acusações de interferência estrangeira para desviar o foco da inflação do país, do desgaste econômico que virou seu tarifaço.

Gustavo Bastos, filósofo e escritor.

Blog : poesiaeconhecimento.blogspot.com

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