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Até o papagaio já percebeu…

O Louro, o louro e a loura

O nome na certidão lavrada em cartório é Agildo, mas todos o chamam Louro. Nesse ensolarado país onde a maioria dos habitantes é classificada como morena, parda, mulata e/ou negra, ser louro é uma esquisitice que chama a atenção: pele branquíssima, resultando na desagradável alcunha de Branquelo. Olhos azuis, cabelo quase branco de tão amarelo, que ele deixa cair até o ombro. Os chatos podem zombar, mas as garotas adoram.

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Por coincidência ou descuido, Louro tem um louro. Todos sabem de quem falo, não? Também conhecido como papagaio ou comedor de mamão, o louro dessa quase-tragédia adora sorvete verde e sabe declamar alguns palavrões na hora errada. Esses peraltas já foram muito populares no repertório dos chamados humoristas de araque, e longa era a lista de piadas que passavam de boca em boca, sem autoria e pagamento de direitos autorais, mas uma sábia contribuição ao patrimônio cultural.  E nem há comprovação de que eles falam. 

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A terceira pessoa no título desse tratado se chama Carol, e apesar do cabelo dourado se derramando em cachos quase até a cintura, ninguém se ilude: a cor é obtida em um popular salão de beleza. Até o papagaio já percebeu.  Mesmo assim, nos documentos oficiais que se intrometem na intimidade humana, onde perguntam qual é sua raça, a ex-morena põe a cruz no LOIRA. Desmentir quem há de? O zelo garante a farsa: nunca deixar uma reveladora  raiz marrom despontar indevidamente. Um descuido que jamais ocorreria no currículo da Carol.

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Estranha nomenclatura, essa teimosa arte de dar nomes ao que nos cerca. Um salão para cuidar dos cabelos, pele e unhas sempre estimula o ego e melhora a aparência, Nenhuma elegante que se preze deixa de visitá-los semanalmente: unhas, pés e mãos; corte, tintura, descoloração, alisamento e cacheamento dos cabelos, e a conta vai longe… A lista é extensa, os efeitos são fantásticos, melhoram o visual e ajudam a movimentar a engrenagem econômica, mas não embelezam. Deviam ser processados por propaganda enganosa. 

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Só quem não sabe que a Carol não é loura é o Louro… até o dia em que o louro resolveu denunciar: ‘Carol pintou o cabelo! Carol pintou o cabelo! Quá!’ A loura protesta: Esse louro tá louco!  E o papagaio: ‘Carol pintou o cabelo! Currupaco-papaco!’ Dizem que papagaio não raciocina, não espiona nem inventa – se fala é porque alguém falou e ele repetiu. Portanto, o louro nada tem contra a loura, mas teria mais alguém envolvido nesse triângulo? Um quadrilátero?

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O papagaio não tem cordas vocais como os humanos, portanto não fala. Tem gente que fala pelos cotovelos, e o papagaio pode imitar os sons que ouve pela siringe, um órgão que só ele possui. Maravilhas da natureza! Piadas de papagaio estão fora de moda, mas tem sempre um louro no poleiro rindo das mazelas do dono. “Carol pintou o cabelo!” O Louro não se importou com a informação, o amor tudo supera, mas quando Carol quis estrangular o louro, o Louro tomou partido. E foi assim que o romance foi pro currupaco!

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