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Da fúria épica ao impasse total

“Negociações do cessar-fogo azedaram”

O novo impasse entre Estados Unidos e Irã, depois de Trump e autoridades de Teerã trocarem declarações públicas duras, colocaram a possibilidade de um cessar-fogo novamente como algo distante. O presidente norte-americano declarou que seu país possui controle total do Estreito de Ormuz, chamando de “muro de aço” o cerco naval aos portos iranianos. Contudo, o Irã desmentiu Trump afirmando que a rota estratégica de petróleo permanece fechada.

As exigências para o cessar-fogo de ambos os países são desencontradas entre si e o impasse é total. O Conselho Supremo de Segurança Nacional do Irã exige o fim imediato das sanções econômicas, retirada das tropas ocidentais e o desbloqueio de ativos financeiros confiscados como condição para a reabertura do Estreito de Ormuz.

Frente ao impasse, foram vazados relatórios de inteligência militar que irritaram o presidente Trump, pois revelou vulnerabilidades do propalado “poderio” das forças armadas dos Estados Unidos. Os vazamentos apontaram que a intensa campanha aérea do país norte-americano reduziu drasticamente seus estoques de mísseis Tomahawk, com uma queda de 33%, e ainda uma queda de 65% dos Patriot.

A Guarda Revolucionária do Irã afirmou que o país produz mais mísseis do que consome e o prolongamento da guerra de atrito contra os Estados Unidos vai até o fim do mandato do presidente Trump, numa aposta de desgaste político e econômico de seu governo. E perante a reabertura do Estreito de Ormuz, o Irã impôs seis condições para que tal acordo avance na diplomacia com Donald Trump.

As exigências de Teerã incluem a interrupção imediata de todas as ações militares contra o território iraniano e contra seus aliados regionais no Líbano, na Palestina, no Iêmen e no Iraque. A suspensão total do bloqueio naval com a retirada imediata do cerco da Marinha norte-americana aos portos iranianos. Saída completa das forças navais e aéreas norte-americanas do entorno e das proximidades do Irã.

A lista ainda inclui uma indenização financeira pelos prejuízos causados ao país iraniano, tanto no conflito recente quanto na breve guerra de 2025. Cessação das sanções econômicas que atingem a economia e a indústria petrolífera do Irã e, por fim,  a devolução incondicional de todos os fundos e bens financeiros iranianos congelados em bancos no exterior.

E as negociações do cessar-fogo azedaram de vez com a resposta de Trump sobre a exigência de indenizações feita por Teerã, em que o presidente norte-americano ironizou a condição iraniana afirmando que instruiu seus negociadores a incluir uma contraexigência firme de indenização dos Estados Unidos contra o Irã por todas as vidas norte-americanas perdidas em ataques vinculados ao regime islâmico nas últimas décadas, em que cita nominalmente o atentado ao navio USS Cole no ano 2000, e ainda cita as dezenas de milhares de mortes no conflito atual.

O gargalo militar norte-americano, no entanto, tem como problema principal o esgotamento crítico dos estoques de mísseis em relação à capacidade de reposição pela indústria de defesa dos Estados Unidos. Uma campanha militar iniciada em fevereiro de 2026, que prometia ser algo rápido, batizada de “Epic Fury” (Fúria Épica), virou uma guerra de atrito que se prolonga e desafia os planos norte-americanos que enfrentam falhas de logística, numa distância abissal entre expectativa e realidade, em mais um atoleiro das guerras contemporâneas no contexto geopolítico mundial recente.

E o erro de cálculo agora também atinge a capacidade bélica em si do “poderio” dos Estados Unidos. O Exército norte-americano consumiu quase a totalidade de seus mísseis terra-terra de longo alcance, como o ATACMS (Sistemas de Mísseis Táticos do Exército) e os novos PrSM (Mísseis de Ataque de Precisão). Para a defesa aérea contra mísseis e drones iranianos, o  Pentágono gastou cerca de 80% dos interceptadores THAAD e reduziu o estoque global de mísseis Patriot de 2.200 para menos de 827 unidades.

Na área naval, somente no primeiro mês foram lançados mais de 850 mísseis de cruzeiro Tomahawk, o que provocou um racionamento e forçando comandantes a poupar munição no Golfo. Atualmente, o Pentágono recebe apenas cerca de 20 novos mísseis Patriot e 15 Tomahawk por mês, o que é uma fração do que é consumido. Mesmo com o pleito por um orçamento trilionário feito por Pete Hegseth, secretário de Defesa, analistas do CSIS apontam que os mísseis Patriot não atingirão o nível ideal de estoque antes de 2030.

O Pentágono emitiu um memorando de “escassez extrema”, dando 21 dias para que fabricantes como a Lockheed Martin apresentem planos emergenciais para acelerar as linhas de montagem. Os Estados Unidos gastam milhões de dólares com interceptadores para abater drones e foguetes iranianos de baixo custo, e as instalações militares norte-americanas no Oriente Médio, como no Kuwait e Bahrein, são alvos vulneráveis do arsenal de mísseis do Irã. E esse problema na reposição das forças militares norte-americanas acabaram colocando um freio nas pretensões geopolíticas de Trump, forçando a Casa Branca a evitar novas ofensivas terrestres ou bombardeios de grande escala.

Esta arquitetura de defesa aérea coordenada pelos Estados Unidos e seus aliados no Golfo Pérsico funciona como um sistema projetado para rastreamento e destruição simultânea de mísseis balísticos, de cruzeiro e enxames de drones lançados pelo Irã, em que atuam radares integrados, navios de guerra e baterias terrestres sob o comando do Centcom (Comando Central dos EUA), incluindo o sistema antimísseis Patriot (PAC-3), que é a espinha dorsal da defesa de curto e médio alcance na região, em que os Estados Unidos e seus aliados  operam dezenas de baterias Patriot.

O modelo PAC-3 utiliza tecnologia hit-to-kill (destruição por impacto direto), sendo ideal para interceptar mísseis balísticos na fase final de voo. O Sistema THAAD (Terminal High Altitude Area Defense) fica posicionado estrategicamente pelos Estados Unidos e operado também pelos Emirados Árabes, cuidando da camada de alta altitude, na interceptação de mísseis balísticos de médio e curto alcance ainda fora da atmosfera ou logo na reentrada, protegendo áreas metropolitanas e bases militares inteiras.

O Sistema de Combate Aegis é a camada naval que atua no controle do mar, com navios de guerra da Marinha norte-americana, incluindo destróieres da classe Arleigh Burke e cruzadores, em que este sistema naval patrulha o Golfo Pérsico e o Mar Arábico, usando mísseis SM-3 e SM-6, com navios que utilizam os interceptadores das famílias Standard Missile. O SM-3 é projetado para interceptação exoatmosférica (fora da atmosfera) contra mísseis balísticos de longo alcance, enquanto o SM-6 oferece defesa flexível de curto alcance contra mísseis de cruzeiro que voam rente ao mar e contra aeronaves.

Para atuar contra a defesa aérea montada pelos Estados Unidos e seus aliados no Golfo Pérsico, o Irã usa a estratégia militar da guerra assimétrica, com táticas que visam sobrecarregar os computadores e esgotar os estoques de munição dos sistemas Patriot e Aegis, que incluem ataques de saturação em massa através de enxames, em que é lançado deliberadamente dezenas ou centenas de vetores ao mesmo tempo contra o mesmo alvo.

O país iraniano ainda utiliza drones baratos que inclui uma quantidade massiva de drones kamikaze, como os da família Shahed, que voam devagar, mas custam uma fração de um míssil interceptador ocidental, forçando os gastos norte-americanos com mísseis milionários contra alvos de baixo custo, esgotando a munição antes que os mísseis balísticos reais cheguem ao alvo.

As táticas iranianas são feitas em três frentes, em que mísseis balísticos sobem a altitudes extremas e descem em alta velocidade, ao mesmo tempo, os mísseis de cruzeiro e os drones viajam em baixa altitude, usando o relevo ou a curvatura da Terra para se esconder, e atingem o alvo exatamente no mesmo segundo e por direções diferentes, confundindo os sistemas de gerenciamento de batalha dos navios e das baterias terrestres.

Houve um investimento em mísseis de cruzeiro terrestres e antinavio, como as séries Quds e Abu Mahdi, projetados para voar a poucos metros do chão ou da superfície do mar, o chamado sea-skimming, em que esse mísseis permanecem abaixo da linha de visão dos radares de longo alcance por mais tempo, aparecendo nas telas de defesa somente quando estão a poucos quilômetros de distância, reduzindo drasticamente o tempo de reação dos operadores.

No caso dos mísseis balísticos iranianos mais modernos, como o Kheibar Shekan ou variantes reivindicadas como hipersônicas, estes são veículos de reentrada que conseguem realizar manobras aerodinâmicas na fase final do voo, em que a ogiva iraniana muda de direção repentinamente pouco antes do impacto, conseguindo fazer o míssil interceptador errar o alvo, pois os sistemas antimísseis como o Patriot PAC-3 calculam o ponto de interceptação prevendo uma trajetória parabólica fixa. E o Irã ainda utiliza ogivas que se separam do corpo do míssil, gerando múltiplos detritos no radar para camuflar a carga explosiva real.

Os sistemas de guerra eletrônica (EW) e de interferência (jamming) tornaram-se a ferramenta de primeira linha e de menor custo para os Estados Unidos e seus aliados neutralizarem os drones iranianos, evitando maiores prejuízos financeiros e de estoque do sistema Patriot. Do lado iraniano, os drones são guiados através de frequências de rádio e transmissões de dados em tempo real, ao passo que os sistemas de guerra eletrônica montados em navios da Marinha norte-americana e veículos terrestres inundam o espaço aéreo com ruído eletromagnético nas mesmas frequências usadas pelo Irã.

Com sinais potentes que bloqueiam a recepção dos satélites no receptor do drone, este fica cego e incapaz de navegar com precisão. Ou seja, com a interrupção desse link, o drone perde o contato com a base, e sem comandos, a maioria dos modelos entra em pane, ativa protocolos automáticos de pouso forçado no mar ou simplesmente cai por falta de combustível, uma vez que os drones kamikaze iranianos de longo alcance dependem fortemente de sistemas de navegação por satélite, como o GPS, GLONASS ou BeiDou, para encontrar as coordenadas exatas das bases aliadas ou navios mercantes.

Outra tática de guerra é o chamado Spoofing (Falsificação) que, em vez de apenas bloquear, os sistemas eletrônicos avançados emitem sinais de satélite falsificados, e o computador do drone aceita esses dados falsos como verdadeiros, recalculando sua rota de forma errada, em que os operadores norte-americanos conseguem desviar os drones iranianos em pleno voo, forçando-os a cair em áreas desertas ou no oceano, longe dos alvos reais.

Uma tática agressiva é a dos sistemas de energia direcionada, com micro-ondas e lasers, com uso do HPM (Micro-ondas de Alta Potência), em que equipamentos como o sistema terrestre Leonidas disparam pulsos massivos de energia eletromagnética, e esses pulsos penetram nas carcaças de plástico ou metal dos drones e queimam instantaneamente os circuitos eletrônicos, placas-mãe e chips de navegação, sendo sistemas utilizados contra enxames, pois o feixe de micro-ondas pode derrubar dezenas de drones simultaneamente em um amplo setor do céu.

Outra tática é a das armas de laser, que é o HEL (High Energy Laser), que são sistemas embarcados em navios norte-americanos no Golfo, como o ODIN ou o HELIOS, que rastreiam os drones opticamente e disparam um feixe de laser invisível de alta energia, que é um laser que concentra calor extremo em partes críticas do drone, queimando os sensores de câmera, derretendo as superfícies de controle das asas ou detonando o combustível e a ogiva explosiva no próprio ar.

Por fim, fuzileiros navais e forças especiais norte-americanas utilizam armas portáteis antidrones, com o estilo jammers em formato de rifle, como o DroneDefender, em que os soldados apontam diretamente para o drone iraniano visível e disparam um feixe direcionado de interferência, derrubando o invasor nos arredores imediatos de postos de controle e bases avançadas. No entanto, neste momento da guerra assimétrica, como citado, o problema principal do chamado “poderio” militar dos Estados Unidos reside na sua capacidade de reposição das peças de sua indústria bélica e não de seus feitos tecnológicos aqui descritos.

Gustavo Bastos, filósofo e escritor. Blog : poesiaeconhecimento.blogspot.com

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