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Encruzilhada

É preciso reagir à extrema direita e construir presença nos territórios

Por José Carlos Pigatti

Há momentos na história em que um país inteiro parece caminhar sobre uma encruzilhada. O Brasil vive um desses momentos. Não se trata apenas de números da economia, estatísticas de emprego ou crescimento do Produto Interno Bruto (PIB). O que está em jogo é algo mais profundo: a forma como o povo percebe sua própria vida, interpreta suas conquistas e constrói esperança no futuro.

Muitos brasileiros sentem isso no cotidiano. De um lado, há sinais concretos de melhora: mais empregos, retomada de políticas sociais, crescimento econômico, recuperação da dignidade nacional. De outro, o ambiente político parece cada vez mais agressivo, confuso e polarizado. Essa sensação não é individual nem passageira. Ela expressa uma disputa histórica pela consciência do povo brasileiro.

Durante muito tempo, acreditou-se que bastava governar bem e entregar resultados para conquistar reconhecimento político. Mas o Brasil mudou. O chamado “voto de gratidão” perdeu força diante de uma nova realidade: direitos conquistados passaram a ser vistos como aquilo que realmente são, direitos do povo, e não favores de governos.

Isso é, ao mesmo tempo, uma grande vitória democrática e um enorme desafio político.

Quando o povo entende que universidade pública, valorização do salário mínimo, acesso à comida, programas sociais, emprego e proteção social são conquistas permanentes da cidadania, significa que a consciência popular avançou. O problema é que, nesse novo cenário, governar bem já não basta. É preciso construir sentido coletivo, disputar narrativa, dialogar permanentemente e transformar políticas públicas em consciência política organizada.

A nova geração, especialmente, carrega pressa. Muitos jovens cresceram já sob a existência de programas sociais, universidades ampliadas e direitos mínimos garantidos. Não conheceram o Brasil do desemprego estrutural, da fome massiva e da ausência de proteção social que marcou os governos autoritários e neoliberais do passado. Para eles, melhorar um pouco não basta. Querem transformação profunda, ruptura definitiva com a desigualdade histórica.

E essa pressa é legítima.

O povo trabalhador não quer apenas sobreviver. Quer viver plenamente. Quer mobilidade social verdadeira, dignidade permanente e oportunidade real de construir futuro para seus filhos. Essa é a energia histórica que move as grandes transformações sociais.

Mas essa esperança enfrenta hoje um inimigo poderoso: a máquina global de desinformação da extrema direita.

Vivemos numa era em que a velocidade vale mais do que a verdade. As redes sociais transformaram a política em disputa permanente de emoções, medo e ressentimento. A mentira industrializada ganhou escala planetária. Algoritmos priorizam choque e indignação, porque isso gera lucro e engajamento. Nesse ambiente, fatos objetivos deixam de bastar por si só.

Não é por acaso que setores da extrema direita tentam reescrever a memória coletiva. Tentam apagar o horror da pandemia, relativizar a fome, banalizar o sofrimento do povo e normalizar discursos autoritários. O absurdo passa a ser tratado como opinião legítima. A violência verbal vira método político. A mentira se transforma em estratégia organizada de poder.

A disputa atual não acontece apenas sobre governos. Ela acontece sobre a própria percepção da realidade. Por isso, defender a democracia hoje também significa defender a memória histórica do povo brasileiro.

Significa lembrar quem fortaleceu políticas sociais, quem ampliou universidades, quem valorizou o trabalhador, quem enfrentou a fome e quem debochou da dor popular. Significa compreender que soberania nacional não combina com submissão aos interesses estrangeiros nem com ataques permanentes às instituições democráticas.

Nesse cenário, o povo trabalhador tem um desafio histórico: transformar conquistas concretas em consciência coletiva duradoura.

Isso exige presença nas ruas, organização popular, formação política e comunicação permanente. Não basta reagir aos ataques da extrema direita, é necessário construir uma presença enraizada nos territórios, nos locais de trabalho, nas escolas, nas redes e nas comunidades.

A política volta a exigir aquilo que sempre foi sua essência mais profunda: escuta, diálogo e organização popular.

É nesse contexto que iniciativas de mobilização, comunicação popular e formação política ganham importância estratégica. Comitês populares, militância digital, núcleos de base e participação comunitária deixam de ser tarefas secundárias e se tornam instrumentos fundamentais para conectar o projeto democrático à vida concreta do povo.

Porque a verdade precisa voltar a ter rosto, voz e território.

Traduzir crescimento econômico em sentimento popular de pertencimento talvez seja a grande tarefa política do nosso tempo. Fazer o povo sentir que cada avanço lhe pertence, que cada direito conquistado é patrimônio coletivo e que o futuro pode, sim, ser melhor do que o passado.

A eleição de 2026, portanto, não será apenas mais uma disputa eleitoral. Será uma batalha sobre o sentido do Brasil que queremos construir. Um Brasil submetido ao medo, à mentira e ao individualismo agressivo ou um Brasil democrático, soberano, solidário e comprometido com a dignidade da classe trabalhadora.

A história mostra que nenhum avanço popular é permanente sem organização social consciente. Direitos só permanecem vivos quando o povo os reconhece como seus e se mobiliza para defendê-los.

E talvez seja justamente essa a principal lição deste tempo histórico: não basta melhorar o Brasil. É preciso fazer com que o povo sinta essa mudança pulsando em sua própria vida, reconheça nela sua própria luta e compreenda que cada conquista coletiva nasceu da organização popular.

Porque é nas ruas, nas redes, nos bairros, nas fábricas, nas escolas e nos corações do povo que o futuro do Brasil será decidido.

E quando o povo trabalhador se reconhece como sujeito da própria história, nenhuma máquina de mentira consegue impedir a força transformadora da esperança organizada.

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