
Cuidado com os eventos que exigem testemunhas
Carlos Drummond foi um poeta – e não me refiro ao famoso menestrel de Itabira. O Carlos desse relatório era escrivão de cartório em ES, nos idos do século anterior. Quem, dentre vós, não foi registrado em uma dessas instituições arcaicas que só existem no Brasil? (INC: Informação Não Comprovada). Nos States, os hospitais fazem o registro automaticamente. Mr. Trump quer criar uma lei exigindo que a certidão de nascimento informe que a criança pertence ao Partido Republicano, mas ainda não obteve maioria de voto.
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Nosso Carlos (sem Andrade) insere no gordo livro de Registros da Pessoa Física as informações necessárias para um ente que mal aprendeu a respirar adentrar oficialmente o vasto marasmo da nossa burocracia: um cabedal de documentos oficiais que se desgastam e desaparecem com o correr dos anos e vão consumir tempo e dinheiro para serem ressuscitados: a malfadada Segunda Via. Se temos o papelzinho da Identidade, por que exigir certidão de nascimento?
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O Carlos capixaba não se preocupa com essas trivialidades: o problema é da pessoa física, não dele. O emprego no cartório é apenas uma desgastante obrigação para sustentar a família. Nem mesmo o xará de Minas Gerais viveu de versos: Carlos Drummond de Andrade era funcionário público. O grande menestrel João Cabral de Mello Neto era diplomata e não ficou milionário com seu magnífico ‘Morte e Vida Severina’, onde narra a épica trajetória do migrante Severino pela aridez do sertão pernambucano. Digna de um Homero, melhor que a Odisseia! Quando morei em Recife, a metade da população masculina se chamava Severino. Como o ovo e a galinha, qual inspirou qual?
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“O meu nome é Severino, não tenho outro de pia.” Antigamente, o batismo na pia da Igreja era suficiente para comprovar a introdução do recém-nascido na vasta colmeia brasileira. Não mais: em 7 de março de 1888, o governo passou a exigir certidão de nascimento assinada e juramentada, com duas testemunhas para comprovar a veracidade do fato. Um conselho: Cuidado com os eventos que exigem testemunhas: Olha quantos divórcios por aí!
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Naqueles idos, a maioria dos pais era analfa, e não levava o papelzinho com o nome da criança. Era quando nosso Carlos deixava sua alma poética se manifestar: Nome do rebento? Quem? O espanto do pai. O escrivão simplifica: Nome do seu filho? E o pai: Sim Senhor. O escrivão repete a pergunta e o pai repete a resposta: Sim Senhor… pro minino ser obidiente. Um poeta jamais permitiria esse insulto a um indefeso cidadão brasileiro e lavra: Símbalo Sereno, respeitando as duas primeiras sílabas.
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Que nome darão a ela? Salavisiana Alfampia Batista, tirado das duas avós. O escrivão se desespera… Como essa indefesa miniatura vai arrastar esse insulto vida afora? ‘Salavisiana, lava a pia e a varanda!’ O Brasil é o único país onde é quase impossível trocar o nome de batismo (INC). Carlos Drummond de Alcaparra sabe disto e se esmera na caligrafia gótica: Salamandra de Alabastro Batista. De uma coisa ele tem certeza, a menina vai ficar feliz quando aprender a ler. Se é que…

