A globalização procura colar os cacos da fragmentação ideológica que sofremos desde o fim da modernidade. A queda do Muro de Berlim é só o ponto de partida de uma mudança histórica em que a utopia já perde seu sentido de ser e a hegemonia se expande cada vez mais pelo globo.
A política se enfraquece e necessita rever seus parâmetros numa época em que a população está desacreditada com aportes insuficientes. Vários territórios buscam a independência numa tentativa de reerguer uma ordem própria, respeitando valores culturais dos habitantes e sem entrar na lógica internacional de um governo centralizado.

A Nova Caledônia é uma pequena ilha no Pacífico em poder da França desde a nova onda imperialista. Cansados da situação submissa de colônia, seus habitantes buscam expulsar o exercito francês de seu território. Após uma invasão com mortes à base cria-se um clima de guerra separatista na ilha.
Pouco a pouco percebe-se que a política fala mais alto, e à beira de eleições presidenciais francesas, toda tentativa de reestabelecer a ordem e a moral é a única via aceitável, mesmo que para isso se sacrifiquem várias vidas.
Com um olhar humanista, o filme recorre a diálogos precisos e brilhantes, cujas tensões demarcam o ritmo da trama. O avanço gradual do conflito é marcado pela presença do protagonista, capitão Phillippe (interpretado pelo próprio diretor), que define os tons do conflito pacífico, enquanto o exército opta pela definição bélica.
A implosão étnica numa França desequilibrada e fragmentada no meio da globalização que tenta em vão homogeneizar o mundo inteiro. Felizmente as culturas se rebelam e forçam a buscar uma convivência múltipla, em que as forças institucionais dos estados já não têm lógica.
O lado documental aliado às inovações digitais que permitem a reconstrução ficcional de imagens de arquivo de guerra, com a criação de um amplo exercito de ocupação numa longínqua ilha no pacífico.
O diretor, Mathiew Kassovitz, utiliza muitos recursos do aclamado O Ódio (1995) que alçou o diretor à fama: movimentação contínua de câmera, flashbacks explicativos e o próprio roteiro, com tons de violência e confrontação social, entre grupos étnicos múltiplos.
O mesmo olhar contemplativo da violência e a forma de tentar explicar a situação pelo olhar do outro também criam similaridades entre as tramas.
Um belo filme, com a guerra de pano de fundo, mas que visa o diálogo como forma de buscar soluções a conflitos. Uma tendência contemporânea, não mais a violência caracterizada pelos grupos extremistas.
Será que essa época sem extremos a que vivemos, onde qualquer tipo de ideologia é demasiado romântica e piegas, cria uma vivência homogênea entre várias culturas?
Serviço
A Rebelião (L’ordre et la morale, França, 2011, 136 minutos, 14 anos)
Cine Jardins – Shopping Jardins: Sala 1. 16h50 e 21h10.
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