Já dizia o filósofo David Hume que o homem deveria experimentar o mundo como se fosse uma criança sem os preconceitos e expectativas dos adultos. As crianças se surpreendem com os fatos mais banais, para elas tudo é novidade e complexo. Exatamente o que faz Israel Mendes no livro de poemas Menino Perplexo, no qual ele observa tudo como se fosse a primeira vez. O encanto dessa pequena obra é a simplicidade com que são tratados os temas da infância, o poeta joga com a língua portuguesa para criar minicontos em forma de versos. Israel também brinca com a tipografia, com o tamanho das letras e com o espaço em branco – que consegue dizer tanto quanto centenas de palavras – inventando assim poemas-objetos.
O menino interlocutor dos versos transita entre a inocência e a ousadia. Ele se assusta ao espiar a nudez por uma fechadura, tem inveja dos outros, compara um pedreiro a um poeta, fala sobre a rotina e o seu oposto. A leitura deixa uma sensação de prazerosa nostalgia até mesmo nos textos que falam sobre morte ou traumas.
Há poemas que não se contentam com a própria página e invadem a do outro ou vazam na folha. Apesar do estilo e dos assuntos infantis, Israel não abre mão da ironia, o que eleva seus versos a uma maturidade, que talvez não possa ser compreendida por leitores crianças.
Diretor de criação de uma empresa de videogames, o gaúcho Israel mostra entender bem sobre jogos e brincadeiras, principalmente em relação à Língua Portuguesa, a quem reverencia no começo da obra devido “as suas incríveis, precisas e diversas possibilidades de expressão”, como diz na dedicatória.
Serviço
Menino Perplexo
Israel Mendes
Dublinense
64 páginas
R$ 23 em média

