
Ou como tentar disfarçar a misoginia com purpurina barata
Na ópera bufa da sucessão presidencial de 2026, o Partido Liberal resolveu vestir alta costura, mas acabou desfilando no bloco da chanchada. Flávio Bolsonaro, equilibrando-se no salto agulha do pragmatismo, exibia aquele sorriso de quem jura nunca ter visto uma rachadinha — talvez confunda com promoção de supermercado. Atrás das cortinas, os marqueteiros suavam como se estivessem em sauna pública, tentando transformar a delicadeza de um hipopótamo brigando com um elefante em loja de cristal em poesia eleitoral para falar de “economia do cuidado”.
O plano era simples, como todo desastre anunciado: colocar uma mulher na vice para segurar a debandada das eleitoras. Mas o castelo de cartas ruiu quando Michelle Bolsonaro, cansada de ser tratada como “idiota” pelos enteados, resolveu jogar a toalha em vídeo bombástico. Recusou a coroa de vice salvadora oferecida por Valdemar Costa Neto, mas depois reviu a novela e decidiu colocar “uma pedra na ferida”, acompanhando Flávio de forma participativa — como quem assiste novela mexicana só para ver até onde vai a vergonha alheia.
Michelle, esperta, garantiu a pré-candidatura dela ao Senado pelo DF, evitando carregar no colo o enteado que, em momento de genialidade, explicou a ausência de mulheres na liderança dizendo que fez duas filhas para cuidarem dele na velhice, trocar-lhe as fraldas geriátricas. Um projeto de utilidade doméstica que emocionou metade das eleitoras e fez a outra metade se perguntar se não estavam presas em 1826.
Sem Michelle, o “chá revelação” da chapa pariu Alfredo Gaspar, varão da bancada da bala. Mas o que já era ruim virou esculhambação total: horas depois, descobriu-se que o vice trazia na bagagem uma acusação de estupro de vulnerável contra uma menor de 13 anos, com direito a suspeita de cala-boca em dinheiro. E ainda nasceu um rebento. Gaspar correu desesperado atrás da PGR implorando por exame de DNA em 72 horas para provar que o espermatozoide era de um primo. O detalhe é que estupro continua sendo estupro, mesmo com parentesco.
Eduardo Bolsonaro, o irmão comentarista de rodapé, disse que com Gaspar como vice, um hipotético impeachment de Flávio não teria efeito prático. Tradução: ninguém vai querer trocar um problema por um pesadelo.
E como a família tem tradição, o patriarca já havia deixado, em 2022, uma contribuição infeliz ao folclore nacional. Bolsonaro pai, em momento de sinceridade grotesca, relatou que viu meninas de 14 e 15 anos “arrumadinhas” e que “pintou um clima”. O Brasil inteiro ficou sabendo que o ex-presidente confunde denúncia de exploração sexual com roteiro de filme B. Em 2025, foi condenado a pagar R$ 150 mil de indenização ao Fundo da Infância e Adolescência. O TJDF entendeu que a frase violou os direitos das adolescentes.
Com o eleitorado feminino em fuga, surge Magno Malta, o exorcista oficial da extrema-direita. Carregado pelos louros da CPI da Pedofilia, Malta percebeu que a situação exigia mais que marqueteiro: exigia descarrego espiritual. Invocou forças siderais e transformou acusação do STF em “armadilha da esquerda”. Milagre biológico-jurídico sem laudo científico, mas com muito gogó.
Enquanto Malta polia a aura da chapa, o telão exibia, usando inteligência artificial – já que a natural falhou -, o patriarca inelegível, aquele que chamou a filha de “fraquejada”. O Datafolha estragou a festa: Flávio patina com 50% de rejeição entre mulheres. O Meio/Ideia confirmou o abismo contra Lula no segundo turno.
No final, Flávio correu para as redes prometendo o programa “Brasil por Elas”, jurando indicar “homens e mulheres” ao STF. Mas as eleitoras, 52,8% do eleitorado, só enxergam Michelle de braços cruzados. Tentar ganhar voto feminino com vice que precisa de alvará científico para não ser carimbado na Lei Maria da Penha é como apagar incêndio com gasolina.
No Espírito Santo, Lorenzo Pazolini também tenta arrumar uma vice mulher para chamar de sua. O passado de arrancar microfone da Capitã Stéfane ainda ecoa. Mais recentemente, um affair com a vice Samorini embalado por Calcinha Preta virou fofoca nacional. Agora, Pazolini usa “Seu Amor é Bom” como trilha sonora de caça à parceira política.
“É tudo que eu quero ter, o seu amor / Seu amor é bom, bom, é lindo demais / Seu amor me traz a paz.”
Agora cabe a elas decidir se vão dar paz ou apenas mais trabalho.
Rubem Roschel é jornalista e cronista de quinta.

