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O milagre da ascensão social

Ou o dia em que o céu fez hora extra

Leonardo Sá

Descer à Terra em pleno século XXI já não estava nos planos do Altíssimo, que anda com a agenda lotada administrando crises em galáxias vizinhas. Mas o clamor que subia de uma ruela das antigas palafitas e memórias da Grande São Pedro, no lado esquecido da ilha de Vitória, era de tal magnitude que interrompeu a assembleia celestial. Não era um pedido comum de cura, o fim do preço alto do café ou o milagre de tirar as manchas de esgoto do manguezal, ou ainda trocar píer pra turista por moradia popular. Era o desespero de Raimundo, um sujeito corajoso que cismou com uma ideia absolutamente herética para a realidade nacional: ele queria ficar rico no Brasil legítimo, aquele que não joga no time das elites da Praia do Canto e nem herda fazenda de monocultura de café no interior capixaba.

São Pedro, o santo homônimo que dá nome ao bairro — e que já viu o Papa João Paulo II pisar por aquelas bandas em 1991, quando o lugar ainda tentava apagar o passado de antigo lixão da cidade —, olhou o relatório do IMDS (Instituto Mobilidade e Desenvolvimento Social) e balançou a cabeça. Chamou o Chefe no canto e foi curto e grosso: “Olha, Mestre, para esse rapaz da periferia capixaba atingir o topo, aquele estrato onde a turma ganha acima de dez mil e seiscentos dinheiros, só abrindo a firma lá em cima. Porque aqui embaixo a gerência fechou as portas”. Jesus, compassivo como sempre, resolveu dar um pulo na Avenida Maruípe e arredores para ver se as oportunidades andavam. Coitado. Mal sabia Ele que a burocracia divina é fichinha perto do jeitinho capixaba de trancar os acessos aos grandes negócios e aos portos.

A verdade nua, crua e documentada pelo tal Atlas da Mobilidade Social do IMDS é de fazer o diabo tecer elogios à eficiência do sistema de castas. O negócio é desenhado com régua de alta precisão. Quem nasce no berço esplêndido das mansões de Vitória, aquelas da Ilha do Frade, da Ilha do Boi, rodeado de ar-condicionado e com lancha ancorada nos canais da ilha, tem generosos 56,5% de chance para continuar arrotando caviar na idade adulta. É o chamado “efeito chiclete” do topo da pirâmide. O sujeito pode ser um completo desprovido de massa cinzenta, mas a gravidade da conta bancária do papai, da mamãe, do vovô e da vovó, o mantém flutuando no espumante. É quase sete vezes mais fácil um herdeiro incompetente manter a pose do que o nosso Raimundo comprar uma camisa nova no comércio da Glória sem parcelar em doze vezes no cartão.

Diante do tamanho da encrenca, formou-se um comitê de crise nas proximidades do Convento da Penha. São Jorge desceu do cavalo na Prainha de Vila Velha, limpou a lança e avisou: “Olha, dragão eu mato três por expediente, mas fazer esse menino sair dos 25% mais pobres e entrar no clube dos 10% mais abastados é tarefa para mais de metro”. E o santo guerreiro tinha razão matemática. Os dados do IMDS não mentem, embora o marketing institucional tente dourar a pílula: apenas uma migalha de 1,28% dos que começam no subsolo da renda conseguem subir até o camarote principal. O resto fica ali na plateia, pegando o ônibus articulado do Transcol lotado na Rodovia Serafim Derenzi, o tal 518, e rezando para o pneu não furar na Terceira Ponte.

A situação ganha contornos de drama se o candidato a rico cometer o deslize de olhar o mapa ao redor. Jesus, em sua inspeção pelas terras capixabas, descobriu que o Estado vive uma dualidade de dar nó na cabeça dos querubins. Por um lado, o Espírito Santo até bateu no peito orgulhoso ao registrar uma taxa oficial de extrema pobreza em queda, batendo o patamar de 1,7% da população, segundo as séries históricas recentes do IBGE. O Índice de Gini estadual também quis posar de bonzinho ao cair para 0,483. “O problema”, comentou Santo Antônio, saindo do santuário e atravessando a baía de Vitória para o encontro, “é que a média do Estado esconde o abismo do CEP. Se você puxar o perfil da pobreza capixaba profunda, vai ver que 65,6% das pessoas no Cadastro Único do Estado ainda estão atoladas na vulnerabilidade, e a extrema pobreza real esmaga 41,1% desse grupo”. Ou seja, se o Raimundo nasce desprovido de fundos lá na Grande São Pedro, o sistema quase garante que ele continuará contando moedas para pagar a conta de luz, mesmo com tarifa social, até a posteridade.

Para complicar o que já estava no nível do impossível, o comitê celestial percebeu que as regras do jogo mudam de acordo com os traços da certidão de nascimento. Se o vivente for não branco, a probabilidade de continuar amargando o panteão da miséria sobe para mais da metade: 51,64%. Se for mulher da periferia capixaba, a subida da ladeira é com salto agulha e carregando o piano nas costas, já que 65% delas permanecem no rés do chão da pirâmide de renda. Diante disso, Santa Rita de Cássia, saída ali da Praia do Canto, pediu licença, pegou sua sombrinha e declarou: “Desisto. Isso aqui não é falta de fé, é problema de estrutura urbana, de herança do antigo lixão e falta de vergonha na política pública de integração. Nem com reza braba na madrugada no Morro da Fonte Grande”.

Veríssimo, de verdade, se estivesse vivo, tomando uma cerveja no Triângulo das Bermudas, diria que o Espírito Santo inventou a “imobilidade sustentável”. Passam as décadas, a economia comemora a exportação de minério, celulose e petróleo, a chegada de uma montadora chinesa, a construção de sabe-se lá quantos portos, mas o avanço geracional para quem vive naquele pedacinho esquecido da ilha soa como uma piada. Os dados nacionais mostram que os nascidos entre 1983 e 1987 tinham 7,9% de chance de ver a cor do dinheiro grosso. A geração seguinte, dos anos de 1988 a 1990, teve a possibilidade aumentada para espantosos 8,8%. Um aumento tão monumental que não dá nem para comprar uma porção de peroá frito com herança culinária capixaba na Praia da Costa. É a estabilidade da penúria, blindada pela segregação socioespacial que joga os crimes e a falta de oportunidades estruturais sempre para os mesmos bairros periféricos.

São João, vendo o desespero de Raimundo, sugeriu um curso técnico nos institutos federais ou um preparatório para concurso. Mas aí esbarraram no nó górdio do Ideb e da distorção idade-série. Onde a escola pública municipal de Vitória funciona e o investimento em tempo integral acontece, a engrenagem social até ameaça rodar. O problema é achar essa vaga garantida, sem que a dinâmica das redes de exclusão ou a violência urbana do território atrapalhem o contraturno dos meninos. Como o pai de Raimundo passou a vida quebrando pedra na Joana D’Arc ou descarregando caminhão de cimento para pagar o aluguel na ocupação, o empurrão foi direto para o mercado informal capixaba, sem carteira assinada, vivendo de bico e assistindo ao PIB do Estado crescer apenas nos relatórios dos jornais.

Reunidos na grande mesa do julgamento final da economia, os santos chegaram a uma conclusão unânime e melancólica. Para fazer um jovem da Grande São Pedro virar classe média alta, não basta multiplicar os peixes da Baía de Vitória. É preciso multiplicar as vagas reais em escola de tempo integral, dar moradia digna que não dependa de invasão de manguezal, formalizar o emprego da rapaziada e torcer para o preço das commodities não entrar em pane na próxima quarta-feira de cinzas.

Jesus, então, olhou para o Raimundo, deu um tapinha complacente em suas costas calejadas pelo sol das ruelas do bairro e carimbou o veredicto definitivo:

— Meu filho, transformar água em vinho eu faço num piscar de olhos, caminhar sobre o mar da Galileia — ou sobre as águas de Camburi — é rotina, e até ressuscitar defunto a gente resolve no plantão. Mas garantir a tua ascensão social nesse sistema estratificado, onde a geografia de Vitória divide quem tem futuro e quem tem barreiras, está além das minhas prerrogativas. É mais fácil eu descer duas vezes, com direito a transmissão em rede nacional e camarote no Sambão do Povo no Carnaval de Vitória, do que você furar esse bloqueio da elite sem um bilhete premiado.

E assim, Raimundo voltou para o ponto de ônibus da Serafim Derenzi, conformado de que, no Brasil e no Espírito Santo, até a santidade bate cabeça na hora de fechar a conta do trabalhador.

Rubem Roschel é jornalista e cronista de quinta.

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