Carta aberta aponta descaracterização, falta de diálogo e “violência simbólica”
Moradores da comunidade quilombola de Araçatiba, em Viana, denunciam um processo de apagamento histórico no restauro da Igreja de Nossa Senhora d’Ajuda, localizada no território tradicional. Em carta aberta, o Fórum Comunitário afirma que as obras foram conduzidas sem diálogo com os moradores e desconsideram a contribuição dos ancestrais negros e dos descendentes que preservam o patrimônio material e imaterial há gerações.
Os moradores cobram explicações da gestão de Wanderson Bueno (Podemos), do Instituto Modus Vivendi e da Mitra Arquidiocesana de Vitória sobre a forma como as intervenções foram conduzidas. O projeto integra um contrato de colaboração financeira não reembolsável no valor de até R$ 2,4 milhões, firmado entre o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) e o Instituto Modus Vivendi, com interveniência da Mitra, destinado ao restauro da igreja, implantação de um centro de interpretação e ações de educação patrimonial no município.

Os quilombolas afirmam que a restauração privilegia a memória dos jesuítas e invisibiliza a permanência e o protagonismo da população negra que construiu e preservou o território ao longo dos séculos. “O que tem sido apresentado à sociedade como uma recuperação do ‘legado jesuítico’ é, para nós, uma nova etapa de colonização que ignora nossa existência, desrespeita nossos mortos e ameaça nossa permanência no chão que nossos antepassados garantiram”, critica o documento.
Para a comunidade, a igreja funciona como um marco de identidade coletiva, que conecta gerações, práticas culturais e a própria permanência no território. Na carta, os moradores reforçam que a memória “não está apenas nas pedras ou nos documentos oficiais, mas na escuta das narrativas, na oralidade, no afeto e na relação das pessoas com o espaço onde vivem”.
Esse significado aparece na fala da moradora Rita de Cássia dos Reis Garcia, bisneta de Mãe Petronilha, uma das referências da tradição local e integrante da Banda de Congo que leva o nome da ancestral. “Para mim, aquela igreja é um marco, nossa identidade, faz parte de nós. Eu cresci cuidando da igreja”. Ela descreve como o espaço é vivido pela comunidade nessa relação cotidiana, como lugar de rezas, festas, encontros, transmissão de saberes e continuidade cultural.
Os moradores afirma que, embora a origem da igreja esteja associada ao período jesuítico, foram as populações negras que permaneceram no território e garantiram sua preservação ao longo do tempo. “No passado fomos nós que ficamos em torno da igreja para impedir os fazendeiros que queriam derrubá-la. E até hoje ela está de pé, tendo orações, sob o nosso cuidado”, completa Rita.
A carta reforça essa posição ao apontar que a comunidade se constituiu como guardiã não só da construção física, mas também das práticas culturais e religiosas ligadas ao espaço, como o congo, a devoção e os rituais coletivos. Apesar disso, de acordo com os moradores, as decisões sobre o restauro foram tomadas sem consulta prévia e apresentadas já prontas, relegando a eles o “papel de meros espectadores da nossa própria história”.
Rita relata que o acesso às informações sobre as obras foi restrito. “Com esse restauro, a gente ficou de canto, de lado. A comunidade não teve acesso a nada, não teve informação sobre como seria feito o restauro, como o lugar ficaria quando terminasse”, reitera. Os moradores classificam essa exclusão como uma forma de “violência simbólica”, ao retirar da comunidade o direito de narrar e participar da própria história.
Além disso, denunciam alterações físicas que consideram descaracterização do espaço e apagamento de referências importantes da memória local. Entre os exemplos citados estão a retirada ou ocultação de elementos históricos, como a inscrição “SVM 1849” no frontão da igreja (cujo significado, segundo moradores, está ligado à história da ocupação do território), a alteração das cores originais do edifício, a descaracterização do coreto e a substituição de referências locais por imagens sem identificação com a comunidade.
O questionamento se estende à instalação de uma imagem feminina sem identificação ou vínculo conhecido com a história da comunidade, destaca Rita. “A gente não sabe quem é aquela pessoa. As pessoas perguntam e ninguém sabe responder”, observa.
Na avaliação do grupo, essas mudanças contribuem para substituir a memória construída pela comunidade por uma narrativa externa, voltada ao turismo religioso e centrada na presença jesuítica. Outro ponto sensível envolve intervenções no cemitério. A carta aponta remoção de lápides e padronização do espaço, dificultando a identificação dos túmulos. “O solo onde enterramos nossos mortos é sagrado. Tratá-lo com tal negligência técnica e desrespeito simbólico é uma ferida aberta em nossa comunidade”, critica o documento.
Os quilombolas manifestam sentimento de preocupação com a perda de referências concretas que permitem às novas gerações reconhecerem sua própria história e temem o impacto a longo prazo sobre a identidade da comunidade. “Nós estamos com medo de a gente não existir mais, de apagar, acabar. As nossas crianças não vão saber da nossa existência”, relata Rita.
A inauguração do restauro está prevista para o próximo dia 7 de maio. Antes disso, no dia 3, moradores organizam um encontro de bandas de congo no pátio da igreja, como forma de reafirmar a presença cultural no território.

