terça-feira, abril 21, 2026
23.6 C
Vitória
terça-feira, abril 21, 2026
terça-feira, abril 21, 2026

Leia Também:

Os funcionários do povo e seus direitos

Associação capixaba reage a deputado que defende acabar com subsídios de vereadores

Amom Mandel. Foto: Mario Agra/Câmara dos deputados

A Associação das Câmaras Municipais e de Vereadores do Espírito Santo (Ascamves) reagiu na última semana a uma iniciativa que visa acabar com os subsídios de vereadores de cidades de até 30 mil habitantes no Brasil. O deputado federal Amom Mandel (Republicanos-AM) coleta assinaturas para uma Proposta de Emenda à Constituição (PEC) que visa tornar parlamentares desses municípios em “conselheiros” que recebem por sessão, sem remuneração fixa.

“A tentativa de descaracterizar o mandato parlamentar municipal, reduzindo-o a uma função informal e sem a devida remuneração, compromete a independência do Legislativo, fragiliza a representação popular e pode abrir espaço para a exclusão de cidadãos que não possuem condições financeiras de exercer a função sem subsídio digno”, diz um dos trechos da nota de repúdio.

Amom Mandel foi alvo de outra nota de repúdio no mesmo dia, publicada pela União dos Vereadores do Brasil (UVB), pelo fato de ter afirmado que “ser vereador e merda é a mesma coisa”. Mandel ironizou nas redes sociais, com um vídeo em que compilava registros pouco honrosos de câmaras municipais Brasil afora.

Esses episódios servem como bons exemplos da trágica disputa política em que o Brasil se enfiou desde a Operação Lava Jato (2014-2021). De um lado, um sujeito com um “figurino” de antissistema. Do outro, grupos corporativistas que se unem basicamente para proteger o “sistema”.

Com apenas 25 anos, Amom Mandel é um fenômeno da “nova política”. Elegeu-se para a Câmara de Manaus em 2020 (foi lá que, segundo ele, descobriu que ser vereador é uma “merda”), e em 2022 pulou para o Congresso Nacional, firmado em estratégias de comunicação digital, nas bandeiras de “combate a privilégios” e no perfil de “empreendedor”. Mandel é autista e também defende pautas relacionadas às demandas dos neurodivergentes.

A possibilidade de a PEC reivindicada pelo deputado federal prosperar é bem próxima de zero. Essa é uma das críticas feitas a Amom Mandel: um grande número de projetos com pouca possibilidade de efetivação. Mas ele vai poder dizer que tentou e o “sistema” reagiu contra ele, mais ou menos como fazia Jair Bolsonaro (PL) para justificar a minguada produção de seus quase 30 anos na Câmara dos Deputados. Um dos inúmeros comentários negativos na postagem da Ascamves nas redes sociais contra Mandel diz que “90% da população concorda com o deputado!”.

A tragédia é que, de fato, existe a necessidade de combater privilégios. A aprovação de projetos de lei que instituem ou aumentam o valor de auxílio-alimentação para vereadores se tornou uma rotina nas câmaras do Espírito Santo. Em março, foi aprovado 13º salário para o prefeito de Cariacica, Euclério Sampaio (MDB), e a vice, Shymenne de Castro (PSB). Antes de sair da Prefeitura de Vitória, Lorenzo Pazolini (Republicanos) incluiu secretários no projeto de reajuste salarial para servidores, o qual a base governista articulou para aprovar na Câmara. E não param de aumentar iniciativas do mesmo tipo.

“Nós comemos também”, afirmou no ano passado o presidente da Câmara de Vitória, Anderson Goggi (Republicanos), sobre a aprovação de auxílio-alimentação para os vereadores. A frase é reveladora: os parlamentares defendem a si mesmos como se fossem funcionários públicos sem concurso, e não represantes eleitos pelo povo, exercendo a função temporariamente, e, conforme pesquisas mais recentes, com baixa aprovação popular.

Na defesa da inclusão de reajuste para secretários em Vitória, parlamentares da base governista argumentarem que é necessário manter um bom patamar salarial para atrair bons quadros da iniciativa privada, o que é uma falácia. Grande parte do secretariado é composto por indicações meramente políticas – haja vista a permanência de Coronel Ramalho (Republicanos) na pasta de Meio Ambiente durante um ano, ainda que ele não tivesse a menor afinidade com as demandas da secretaria.

Mesmo nos casos de secretários de perfil “técnico”, o que vemos nos municípios, em geral, são quadros alinhados a grupos políticos que pulam de cargo em cargo pelas gestões públicas de municípios e estados. Não é necessário tanto esforço assim para se contrapor aos salários e condições oferecidos pela iniciativa privada.

De todo modo, a iniciativa de Amom Mandel é apenas uma resposta falsa a um problema concreto. Até mesmo porque, só se preocupa com vereadores. Mandel deve estar tentando lidar com traumas pessoais da vereança…

Deveríamos, pelo menos, voltar a discutir reforma política a sério, buscando renovação total nas nossas instâncias decisórias. Essa é uma daquelas pautas que a esquerda infelizmente abandonou, porque também está bem acomodada ao sistema e muito preocupada em defendê-lo.

Lucas Schuina é repórter de Século Diário, com graduação em Comunicação Social – Jornalismo e mestrado em Comunicação e Territorialidades pela Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes). É autor do livro A luta pelo cinema: Memórias do cineclubismo no Espírito Santo” (2025) e coautor da obra Brice Bragato, uma mulher de luta: Da limpeza do curral à tribuna da Assembleia” (2023). Em 2026, lançou na internet, junto ao Cineclube Jece Valadão e ao espaço Sessão 1013, o documentário de curta-metragem Ciclo Sentidos da Loucura, com depoimentos de usuários do Centro de Atenção Psicossocial II (Caps II) de Cachoeiro de Itapemirim.

Mais Lidas