Após avanço em comissão da Câmara, movimento cobra aprovação de PEC neste semestre

Centrais sindicais mobilizam categorias para os atos do 1º de maio, Dia do Trabalho, com uma agenda que combina manifestações políticas e atividades culturais pela redução da jornada de trabalho e pelo fim da escala 6×1. O protesto em Vitória será realizada na Praça Getúlio Vargas, no Centro, das 8h às 14h.
A programação inclui apresentações de mulheres sambistas e um encerramento com o bloco Regional da Nair. Também estão previstas atividades voltadas para crianças, em uma tentativa de tornar o espaço mais acessível às famílias trabalhadoras. Na Serra, um ato político também foi convocado para as 8h, na Praça Encontro das Águas, em Jacaraípe.
A defesa do fim da escala 6×1 aparece como a principal bandeira das mobilizações deste ano e está em debate no Congresso Nacional por meio da Proposta de Emenda à Constituição (PEC) 8/2025, da deputada Erika Hilton (Psol-SP), e da PEC 221/2019, do deputado Reginaldo Lopes (PT-MG). Também serão levadas ao ato pautas da valorização das negociações coletivas, o combate ao feminicídio, e críticas à judicialização das relações de trabalho.
Enquanto a PEC de Erika Hilton propõe uma jornada de 36 horas semanais em escala 4×3, a segunda prevê uma redução gradual ao longo de dez anos. Os textos avançaram na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) da Câmara na última semana e devem seguir para uma comissão especial que vai analisar os méritos antes da votação em plenário, onde precisarão ser aprovados em dois turnos.
O debate sobre a redução da jornada semanal no país ganhou força nos últimos anos a partir do Movimento Vida Além do Trabalho (VAT), que ganhou projeção nacional ao pautar a promoção da saúde mental e da garantia de fins de semana livres para que os trabalhadores tenham tempo de lazer e convivência com a família. A articulação impulsionou a proposta apresentada pela deputada federal Erika Hilton e tem como uma de suas principais lideranças o ativista Rick Azevedo, ex-balconista de farmácia eleito vereador com o maior número de votos no Rio de Janeiro justamente com essa bandeira, após um vídeo desabafo no TikTok se tornar viral ainda em 2024.
“Quando comecei a falar sobre o fim da escala 6×1, era só um trabalhador cansado, indignado, gravando um vídeo no balcão de farmácia. Hoje, essa pauta virou debate nacional. Chegou onde sempre deveria ter estado: no centro da política. Mas ninguém se engane. Nada foi dado. Tudo foi arrancado com pressão, com mobilização e com gente que não aceitou mais viver só pra trabalhar”, afirmou Rick em vídeo recente em que alertou para a resistência no Congresso Nacional. O líder da maior bancada na Câmara, deputado Sóstenes Cavalcante (PL-RJ), já declarou publicamente que o grupo deve votar contra a proposta.
No Espírito Santo, um dos coordenadores estaduais do VAT, Vinícius Machado, destacou que o 1º de maio será um momento de intensificar a pressão popular para que o texto seja votado ainda no primeiro semestre de 2026. “O grito de um trabalhador esgotado se tornou a maior luta do Espírito Santo e do Brasil na atualidade, e vamos continuar nessa luta até que o trabalhador tenha de fato dignidade e vida além do trabalho”, defende.

A presidente da Central Única dos Trabalhadores no Espírito Santo (CUT-ES), Clemilde Cortes, reforça o alerta para o aumento de adoecimentos entre trabalhadores, “principalmente por doença psicológica, com exigência de metas, sobrecarga de trabalho e assédio”.
Clemilde enfatiza o apoio popular à extinção da jornada de “superexploração: “74% da população defende o fim da escala 6 por 1. Isso não é pouca coisa”, afirma. Ela destaca que as centrais sindicais apostam na força das ruas para influenciar o desfecho da votação e aponta que a história mostra que direitos trabalhistas sempre enfrentaram resistência inicial. “Quando foram instituir o 13º, falavam que quebraria o país. Não quebrou. Com férias, a mesma coisa”, aponta.
A dirigente também criticou a última reforma trabalhista, que prometeu geração de empregos e precarizou as condições de vida dos trabalhadores e trabalhadoras. “A última redução de jornada foi na Constituição de 1988, quando passou de 48 para 44 horas. Agora a gente quer avançar de novo, e só o povo na rua garante conquistas. Se não for o trabalhador lutando para garantir os seus direitos, ninguém vai fazer isso por nós”, completa.
A expectativa das centrais é de que a mobilização ajude a manter o tema em evidência e amplie a pressão sobre parlamentares. A construção do ato é coletiva e articulada entre a CUT Intersindical, Central dos Trabalhadores e Trabalhadoras do Brasil (CTB), Nova Central e Força Sindical, que decidiram em plenária por um formato que prioriza uma manifestação concentrada no espaço da Praça Getúlio Vargas, com falas políticas e atividades culturais.
“É um dia de luta, mas é também de confraternização. Temos pouca oportunidade para isso”, afirma Clemilde. Os trabalhadores da construção civil vão realizar uma assembleia de fechamento de campanha salarial na Praça Oito antes e, em seguida, uma caminhada até o local principal do ato.
Saúde mental
Dados do “Atlas da Escala 6×1 no Brasil”, realizado em 2025 com mais de 3,7 mil trabalhadores submetidos a jornadas extensas, distribuídos em 394 municípios brasileiros, apontou exaustão física e mental, além de dificuldades de convivência familiar e acesso ao lazer, como fatores de adoecimento psicológico.
A pesquisa indica que 70% dos trabalhadores enfrentam estresse ocupacional e 27% apresentaram atestados médicos no mês anterior à coleta. Além disso, o levantamento mostrou que a escala 6×1 afeta de forma mais intensa jovens, mulheres e trabalhadores negros, especialmente em setores como comércio e serviços, evidenciando desigualdades estruturais no mercado de trabalho.
O estudo contabilizou mais de 600 mil vínculos empregatícios com carga superior a 40 horas semanais no Estado, o que evidencia a predominância de jornadas extensas como regra, e não exceção. Desse total, 235,2 mil vínculos estão concentrados no setor de serviços, segmento que reúne algumas das ocupações mais expostas ao desgaste físico e emocional.
Entre as funções com maior número de trabalhadores submetidos a essas condições no território capixaba estão os vendedores do comércio varejista, que somam 35,4 mil vínculos ativos. Em seguida aparecem os faxineiros, com 19,3 mil trabalhadores; os operadores de caixa, com 15,3 mil; e os motoristas de caminhão, com 12,1 mil. São atividades marcadas por rotinas intensas, metas rígidas, baixa autonomia e, em muitos casos, remuneração limitada — fatores que, combinados, contribuem para o aumento de quadros de estresse, ansiedade e esgotamento.
Esse conjunto de fatores tem relação com o crescimento de afastamentos por transtornos mentais e comportamentais, além de sintomas como fadiga crônica, irritabilidade e perda de qualidade de vida, aponta o estudo nacional.

