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Reportagem especialFeridas de guerra

Álvaro José Silva (especial para Século Diário)
 
Florêncio Barth nunca havia colocado um par de sapatos no pés em toda a sua vida. Vivia no meio rural de Várzea Alegre, região de montanhas do interior capixaba, e os agricultores da primeira metade do século XX ou andavam descalços ou usavam sandálias rústicas. Em 1942 o Brasil entrou na II Guerra Mundial. Num meio sem televisão, rádio ou jornais, Florêncio só soube disso quando chegou a convocação para se apresentar ao Exército, em Vitória. Havia virado soldado e seria treinado para, quem, sabe vir a integrar a Força Expedicionária Brasileira na Itália.
 
Ele não entendia o que estava acontecendo. Ainda sentia dificuldades para aceitar a morte do pai, espancado por causa de caça. Caçar era o que todos os descendentes de estrangeiros na região da hoje Santa Teresa faziam para poder viver melhor. Se alimentar melhor. Houve um desentendimento com um conhecido da mesma região por causa de partilha do produto da caçada que tirou a vida do imigrante. Ele foi morto por espancamento, um caso longe de ser raro na época.
 
Com os pés sangrando
 
Florêncio nunca aceitaria aquilo. Mas quando se apresentou ao quartel do Exército, na Prainha, em Vila Velha, os demais soldados acabaram sabendo da história. Azar o dele. Quando colocou o coturno nos seus pés a dor era quase insuportável. O fato de seus pés sempre terem andado sem calçados fazia com que as rústicas botinas militares os machucasse muito a cada passo dado, a cada movimento feito nas caminhadas.
 
Nesses exercícios de treinamento militar, com quase quarenta quilos de equipamentos às costas, as dores eram quase insuportáveis. O filho de imigrantes reclamava com superiores, dizia não aguentar mais o desconforto e sangramento. Mas como chegar ao coração dos demais soldados e oficias, grande parte deles negros? Tinha que ouvir quase sempre a mesma coisa: “Alemão, grande filho da puta, seu pai morreu de porrada e você vai morrer também. Continue andando e não reclame!”
 
Florêncio continuava. Engolia em seco, fazia um esforço desesperado para suportar o insuportável e, ao voltar ao quartel, tirava o coturno para os pés poderem descansar dessa forma, levantados, recebendo o ar da noite. Nunca chegaria a ir para a Itália combater o nazifascismo. O filho de alemães foi desmobilizado após a Segunda Guerra, em 1945, e tudo o que sentiu ao voltar para casa foi uma grande sensação de alívio. Mas o trauma provocado pelo uso das botinas militares ele carregou pelo resto de sua vida.
 
Hoje seu filho, Rainaldo Pedro Barth, o Naldo, ainda vive próximo de Santa Teresa, em Aparecidinha, perto da estrada que leva ao radar da Aeronáutica. É um pequeno produtor rural e planta produtos orgânicos diversos, como alface e tomatinhos cereja “os únicos que resistem sem agrotóxicos”. Tinha um irmão, Ricardo Emílio Barth, mas este morreu faz pouco mais de três anos. Naldo toca a pequena propriedade juntamente com a mulher. Planta, colhe e vende. Ele próprio abastece seus clientes.
 
Os filhos seguiram outro caminho. Um deles, Márcio Barth, dirige uma marcenaria onde faz estrados (pallets) de madeira. É dono de uma das treze serrarias da região, onde quem não faz os estrados para indústrias, supermercados e outros, vende caixas para hortifrutigranjeiros.
 
São treze empresas do ramo empregando muita gente na região e consumindo o eucalipto de reflorestamento que também dá dinheiro a pequenos proprietários rurais autorizados pelo IBAMA. Sim, porque a madeira colhida para beneficiamento tem que ser certificada. E ela ocupa grande parte dos costados dos morros que se espalham por lá.
 
Os operários não ganham mal. A maioria chega a “tirar” mais de mil reais por mês. Mas a vida é dura. Em Aparecidinha não se descansa em feriados normais, nacionais ou mundiais, nem mesmo no dia 15 de novembro da Proclamação da República. O trabalho vai de segunda a sexta-feira. Paradas somente em feriados religiosos, o que só os católicos, a maioria, respeita. Os protestantes, quase todo anglicanos, labutam nesses dias também.
 
Como o transporte coletivo se limita a idas e vindas de alunos e professores à rede escolar, é grande o número de motocicletas que trafegam por aquelas estradas vicinais. E também carros antigos como fuscas, a maioria bem conservados e que levam os trabalhadores para cima e para baixo. Quando para baixo, geralmente às compras. Padarias, supermercados, farmácias e outros estabelecimentos estão todos em Santa Teresa.  
 
Naldo gosta de retornar no tempo e ainda se recorda das convocações que atingiram principalmente os mais pobres no Brasil. Ou então, no caso capixaba e de outros estados ocupados por imigrantes do longo da segunda metade do Século XIX, descendentes de estrangeiros que tiveram de ir para o país de origem de seus pais e avós e, quem sabe, por um golpe do destino, matar ou serem mortos por irmãos, primos, etc. “Quando nós soubemos, já tínhamos que ir. Meu irmão Ricardo foi alistado depois da guerra. O que ganhamos com isso? Conseguimos nos aposentar como ex-combatentes. Isso somente os que foram convocados na guerra. Os de depois dela, não”.
 
Dos estragos provocados pelos combates na Itália para onde a Força Expedicionária Brasileira foi e voltou de navio ele tem uma única certeza: Olívio Coser, que acabou embarcando com a divisão brasileira de 25 mil homens encarregada de derrotar as tropas nazifascistas de Hitler e Mussolini, voltou vivo de lá. Mas deixou uma perna em Pistóia, cemitério dos brasileiros.
 
Em outro episódio, um soldado “alemão” matou um “inimigo” brasileiro. Cercado pelos três remanescentes da tropa pediu clemência em português. Era na verdade um brasileiro filho de alemães que havia sido mandado a combate nas tropas de Hitler. Ele foi solto pelos compatriotas e viveu para ver os três morrerem numa carga suicida contra vários “boches”. Restou a ele enterrar os mortos, identificá-los nas cruzes como heróis e depois responder a uma corte marcial a que o exército alemão o submeteu. Por traição. Não reconheceram nele o direito de reverenciar seus compatriotas mortos em combate diante dele num bosque da Itália.
 
Sorteio tardio
 
Ignez Maria Biasutti vive em Aparecidinha mesmo. É um distrito de Santa Teresa, pequeno, mas com muita gente gravitando no entorno. À frente do comércio de Ignez e do marido Daniel, onde há bar, mercearia, mesas de bilhar e onde param os ônibus escolares, estão apenas a pequena igreja, uma espécie de ginásio de esportes para reunir a comunidade em eventos como os famosos casamentos da roça e as festas religiosas, e o campo de futebol. Afora algumas poucas casas das proximidades, acabou Aparecidinha.
 
De lá é possível seguir em frente para o radar da Aeronáutica, para as estradas vicinais onde proliferam pequenas propriedades rurais, sítios ou então a estrada com os primeiros oito quilômetros sem calçamento e que termina em Santa Leopoldina. O distrito de Aparecidinha fica alto. Bem alto. Sobe-se até lá por trecho asfaltado. Para chegar a Santa Leopoldina é preciso descer os oito quilômetros em estrada de chão antes do asfalto.
 
Ao longo do caminho, mais propriedades rurais. Em todas elas gente que ainda carrega forte sotaque estrangeiro. Ou italiano ou alemão, principalmente. Isso também ocorre em outros distritos como Rio do Norte, em Santa Teresa e povoados em Santa Leopoldina, como Rio Claro. Em todos os casos, os sítios de culturas diversas, inclusive de subsistência se misturam aos de lazer numa incrível colcha de retalhos.  
 
Luciano Biasutti Primo, morto faz 24 anos, também foi convocado para a guerra e alistado em 1942. Foi sorteado em 1945, mas jamais chegaria a embarcar. Antes disso o Eixo Berlim-Roma-Tóquio se renderia. Muita sorte para que ele pudesse voltar a Várzea Alegre, próximo de Santo Antônio do Canaã. São todos descendentes de italianos de Udine. O avô, Pedro Biasutti, viera de lá num navio que trazia várias famílias para o Espírito Santo.
 
Hoje essas famílias de misturam. Descendentes de italianos se casam, às vezes, com descendentes de alemães ou holandeses que também imigraram. Têm todos traços europeus. Muitos desceram a serra, “seguindo em frente”, como dizem, para colonizar, dentre outros municípios, Itarana e Itaguaçu.
 
Em comunidades pequenas como a de Aparecidinha é comum não apenas todos se conhecerem, mas serem parentes através de casamentos nem sempre formais. Numa ida até a casa de Naldo Barth, para me ensinar o caminho, passamos por um sítio à margem da estrada. “Essa é a casa do irmão do Naldo, Alfredinho. – disse Ignez – Ele é casado com a minha irmã”.   
 
Desse passado rico, Ignez guarda uma preciosidade. Ao menos para ela. O documento de identidade do pai. Protegido dentro de um plástico, ele resiste aos tempos quase intocado.  Dele, somente uma foto pode ser feita. Sob os olhares atentos da filha, guardiã do passado da família, que no tocante a documentos se resume àquele papel oficial brasileiro.
 
O nonagenário Pedro
 
Distante dali, à margem da rodovia ES-261, Pedro Lauretti, 90 anos de idade, vive ao final da subida da serra, antes do trevo que marca a ida para Santa Teresa ou Santa Leopoldina. Aos 90 anos de idade, é um velhinho de olhos vivos, memória aparentemente intacta e muito sagaz.
 
Único filho ainda vivo de Antônio Lauretti, Pedro começou a vida como todo mundo. Morava quando criança em Holanda de Mangaraí, em Santa Leopoldina, antes de se mudar para o lugar onde vive até hoje. Sua comunidade original tinha o nome do país de onde vieram. Os avós de Lauretti eram imigrantes holandeses chegados ao fim do século XIX.
 
Ele se recorda de que em 1942 foram todos chamados “direto” para a guerra. Teve que se deslocar até Vila Velha e se apresentar no quartel da Prainha. E, ao contrário do que aconteceu com Florêncio, não encontrou dificuldades com o equipamento. Ficou um ano “mobilizado” lá, recebendo treinamento militar, mas acabou não indo para a Itália. Depois desse período foi comunicado do desligamento do Exército. Considerado ex-combatente, ganhou a boina e a medalha que usa até hoje. Os únicos reconhecimentos do Governo brasileiro além da pensão que vai receber até morrer.
 
“Eles não gostavam dos  'alemães' (assim todos os descendentes de europeus de raça branca e não italianos ou de traços asiáticos eram chamados), diz Pedro. Foi desmobilizado com a anotação de “boa conduta” e, surpreendentemente, sem sofrer maiores discriminações. Chegou soldado, soldado ficou o tempo todo e a dispensa definitiva veio depois de 1945. Até lá, a qualquer momento, poderia ser chamado novamente.
 
A família, antes de ir para Holanda de Mangaraí, vivia perto de lá, em Pau Amarelo, também Santa Leopoldina. Os lugares eram sempre próximos, não obrigatoriamente cidades ou distritos e tinham de ser alcançados em lombo de equinos – as conhecidas tropas de burros comandadas pelos tropeiros conhecedores dos caminhos – ou em caminhadas sempre lentas e cansativas, cortando mato a facão, na ausência de estradas.
 
Como todos trabalhavam na roça em lugares isolados, quando ele foi convocado não sabia do que se tratava. De guerra alguma. “Me apresentei sem saber de nada. Nem para onde iria ser mandado”. Recebeu um equipamento que, imagina, deveria pesar quinze quilos, com um fuzil de uns cinco quilos. Caminhavam todos os dias e as aulas de tiro eram realizadas às quintas-feiras. Pedro sempre tirava primeiro lugar naquelas provas de pontaria e chegou a ser elogiado pelos oficiais como até hoje se recorda com orgulho.
 
Depois da guerra chegou a participar de desfiles como ex-combatente e é membro da Associação dos Ex-Combatentes do Brasil onde, admite, já há poucos vivos. Perdeu, por exemplo, o amigo Álvaro Zamprogno, de quem sente saudades. E mais gente foi ficando pelo longo caminho percorrido.
 
Hoje o neto de holandeses, que ainda encontra certa dificuldade para dominar perfeitamente o português acha que desde o início o Brasil sabia que não necessitaria na Guerra de ninguém mais do que os 25 mil homens da Divisão enviada à Itália. E conta o motivo dessa certeza: “A guarita do Terceiro Batalhão de Caçadores não podia ficar vazia à noite. Pelo menos um de nós tinha que ir para lá e servir de sentinela. Sempre que eu fazia isso, passava a noite em pé naquela espécie de portaria com um fuzil sem balas”, confessa. Ou era desconfiança ou a certeza da não agressão armada.
 
A comunidade dessa região do interior capixaba guarda um quadro do que foram os “pracinhas” do Brasil na II Guerra Mundial. Afora oficiais (alguns), altos oficias e pilotos do Senta a Pua, a esquadrilha da Força Aérea Brasileira, os convocados eram quase todos filhos de imigrantes, negros, pobres em geral. São esses os homens que, dentre outras coisas, tomaram Monte Castelo e fizeram se render uma divisão alemã de quase 25 mil homens, com um general à frente deles. Voltaram ao Brasil para serem o mesmo que eram antes. Com a diferença de que sabiam ter ido para a Itália.
 
Os pracinhas de Zenóbio, o general brasileiro cuja missão era a de comandar a Força Expedicionária Brasileira, até hoje encontram dificuldade para entender os motivos da guerra da qual participaram na Itália.
 
No caso específico dos camponeses filhos ou netos de europeus tirados de suas roças e levados aos quartéis, chegaram lá perdidos, sem ter noção de onde estavam e para onde poderiam ir. Afinal, confessam quase todos: eles não entendem nada de política. Seu negócio é principalmente agricultura.  

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