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Defensoria cobra mediação em conflito que ameaça assentamento em Palhal

Área ocupada há 11 anos seria transferida ao Incra para criar assentamento

Redes Sociais / Reprodução

As 49 famílias que vivem no acampamento João Gomes, na comunidade de Palhal, distrito de Bebedouro, em Linhares, aguardam o julgamento de um recurso apresentado pela Defensoria Pública do Espírito Santo contra a decisão que determinou a reintegração de posse da área. A ordem judicial estabeleceu 190 dias para o cumprimento da remoção e, segundo o coordenador estadual do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), Marco Carolino, o prazo termina em novembro.

A Defensoria, por meio do Núcleo de Defesa Agrária e Moradia (Nudam), sustenta que a decisão precisa ser revista porque o caso envolve uma coletividade de pessoas vulneráveis e, portanto, deve observar procedimentos previstos na Resolução 510/2023 do Conselho Nacional de Justiça (CNJ). O recurso ainda não foi apreciado.

“Temos a expectativa de que o recurso apresentado pela Defensoria seja atendido por entender que a decisão descumpre a Resolução 510”, afirma Carolino. Para o MST, a preocupação é que uma eventual retirada interrompa um processo de criação de assentamento que, segundo o movimento, vem sendo construído há anos com participação de órgãos públicos.

A área foi desapropriada pelo Governo do Estado em 2012. O terreno havia sido destinado à Petrobras para a implantação da fábrica de fertilizantes UFN4, mas a estatal desistiu do projeto em 2015 e anunciou a devolução do imóvel. As discussões sobre a destinação da área se intensificaram a partir de 2020, depois de uma notificação do Governo às famílias. Naquele período, o conflito passou a ser acompanhado pela então Mesa de Resolução de Conflitos, coordenada pela Secretaria de Estado de Direitos Humanos (SEDH).

Segundo informações já apresentadas pelo MST, a ocupação atual é resultado de uma trajetória marcada por despejos e novas ocupações. As famílias permaneceram de forma contínua na área nos últimos anos e passaram a organizar moradias, lotes e produção agrícola. Os moradores são majoritariamente de Linhares, Aracruz e Serra.

Em abril de 2024, segundo o MST, o então governador Renato Casagrande (PSB) assumiu o compromisso de transferir a área para o Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra), permitindo a criação oficial do assentamento. O acordo foi anunciado durante uma agenda que contou com a presença do então ministro do Desenvolvimento Agrário, Paulo Teixeira. “Foi um compromisso do Governo Casagrande e do ministro Paulo Teixeira”, reforça Carolino.

A partir do compromisso, conforme relatado pelo movimento, o Incra passou a realizar levantamentos e estudos para viabilizar a transferência. O processo, entretanto, não foi concluído. Com a mudança de posição do Governo do Estado, a transferência deixou de avançar e o Executivo pediu o prosseguimento da ação de reintegração de posse.

Para Carolino, a pressão da ordem judicial se soma a outro problema enfrentado atualmente pelos moradores: a presença de gado na área. Segundo ele, os animais estão avançando sobre os espaços utilizados pelas famílias e destruindo plantações e estruturas. “Estamos tendo muito problema com o gado na área. Não tem como produzir nada porque destrói tudo”, afirma.

O dirigente relata ainda que os animais entram nas áreas ocupadas, quebram estruturas e representam dificuldade para as pessoas que precisam circular pelo local. O MST afirma não saber a quem pertence o rebanho e cobra uma fiscalização do Instituto de Defesa Agropecuária e Florestal do Espírito Santo (Idaf). “Não sabemos de quem é. Quem tem que identificar esse gado é o Idaf, que é responsável e deveria ir na área e identificar de quem é o gado”, diz.

A situação, segundo Carolino, é hoje um dos principais problemas enfrentados pelas famílias. “A dificuldade do gado é uma coisa e a segunda é a pressão da liminar”, resume. Ele afirma que a preocupação também está relacionada ao trabalho já realizado para estruturar o futuro assentamento. “A preocupação é com a área doada há muito tempo, com muito trabalho do Incra já consolidado”, afirma. Na avaliação do MST, depois de anos de permanência e investimentos das famílias, uma remoção não significaria apenas a desocupação de moradias, mas a interrupção de um processo de organização produtiva e territorial.

MST

A Defensoria Pública afirma que o caso é uma ação de reintegração de posse contra uma coletividade de pessoas vulneráveis e que, por isso, atua como custos vulnerabilis, conforme previsto no artigo 554, §1º, do Código de Processo Civil. A defensora pública Marina Dalcolmo, diretora administrativa do Nudam, explica que a situação também atrai a aplicação da Resolução 10/2018 do Conselho Nacional dos Direitos Humanos (CNDH) e da Resolução 510/2023 do CNJ. Os instrumentos estabelecem diretrizes para o tratamento de conflitos fundiários coletivos, tendo entre seus fundamentos a dignidade da pessoa humana, o direito social à moradia e a função social da propriedade.

A Defensoria defende que o processo seja analisado pela Comissão Regional de Soluções Fundiárias do Tribunal de Justiça do Espírito Santo (TJES), que pode criar um espaço para diálogo entre as partes e instituições envolvidas, além de permitir uma nova tentativa de conciliação e a elaboração de um plano de ação para o caso.

Esse procedimento, explica a defensora, deve ser considerado inclusive diante da possibilidade de uma eventual remoção. A Resolução 510, a Resolução 10 do CNDH e as determinações do Supremo Tribunal Federal na ADPF 828 estabelecem, segundo ela, a necessidade de medidas como audiências e reuniões participativas, visitas técnicas, relatórios sociais e encaminhamentos habitacionais e assistenciais. “A remoção forçada de coletividade de pessoas vulneráveis, sem a adoção desses procedimentos e diretrizes se torna ilegal”, destaca a defensora.

Até o momento, porém, o pedido apresentado pela Defensoria ainda não foi apreciado. O órgão também afirma não ter previsão de novas reuniões com as famílias ou com o poder público nem levantamento atualizado sobre quantas pessoas permanecem no acampamento. Após o julgamento do recurso, a Defensoria informou que deve reavaliar o caso e definir as medidas jurídicas e extrajudiciais consideradas necessárias para a proteção das famílias.

Século Diário buscou informações junto à Secretaria de Estado de Segurança Pública (Sesp) que, desde maio de 2026, por conta do Decreto nº 6.414-R, assinado pelo governador Ricardo Ferraço, que criou a Comissão Estadual de Prevenção e Conciliação de Conflitos Fundiários, passou a ser responsável pela coordenação da política estadual, função que era desempenhada pela Secretaria de Estado de Direitos Humanos (SEDH). No entanto, até o fechamento dessa reportagem, não houve retorno. Da mesma forma, a SEDH foi procurada, mas também não encaminhou qualquer informação.

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