Físico nuclear da Ufes cita ocorrências no litoral e em áreas de mineração do Estado
O interesse crescente por terras raras, grupo de elementos químicos considerados estratégicos para a indústria de alta tecnologia e para a transição energética, já mobiliza empresas de mineração no Espírito Santo. Segundo o físico nuclear e professor do Departamento de Física da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes) Marcos Tadeu Orlando, mineradoras que atuam no Estado têm procurado a academia para identificar a presença desses elementos em áreas onde já desenvolvem atividades de extração.
Representante da Ufes no Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia (INCT) de Terras Raras, o pesquisador afirma que empresas ligadas principalmente aos setores de rochas ornamentais, granito e mineração de areia passaram a encaminhar amostras para análises especializadas. O objetivo é verificar o teor de elementos como cério, samário, ítrio e outros minerais estratégicos, cuja identificação depende de técnicas laboratoriais que vão além do levantamento geológico convencional.
“As mineradoras estão me procurando para fazer esse levantamento. Você precisa pegar amostras e descobrir o teor dessas terras raras em cada um dos lotes. Elas não conseguem identificar isso sozinhas, porque são necessárias técnicas especiais, como fluorescência de raios X e técnicas nucleares”, explica.

De acordo com Marcos Tadeu, o Espírito Santo possui potencial para a ocorrência desses minerais, especialmente em áreas associadas às areias monazíticas do litoral, conhecidas há décadas pela presença de minerais que concentram elementos terras raras (ETRs). Além do litoral sul, pesquisas também identificam ocorrências em outras regiões do Estado, embora o pesquisador evite detalhar os locais antes da conclusão dos levantamentos.
As ocorrências aparecem principalmente associadas a minerais fosfatados, como a monazita, abundante em trechos do litoral capixaba, destaca. Nesses depósitos podem ser encontrados elementos como cério, samário e ítrio, utilizados na fabricação de ímãs de alta performance, chips, motores elétricos e equipamentos de alta tecnologia.
O aumento do interesse ocorre em um momento de intensa disputa internacional por minerais críticos. Terras raras são empregadas na fabricação de motores de veículos elétricos, turbinas eólicas, chips, equipamentos médicos, lasers, LEDs, celulares, radares e sistemas de navegação, além de aplicações na indústria aeroespacial e de defesa. Atualmente, a China concentra a maior parte da capacidade mundial de processamento desses elementos, fator que tem levado os Estados Unidos, a União Europeia e outros países a buscar novas fontes de fornecimento.
Apesar do potencial econômico, Marcos Tadeu afirma que o principal desafio brasileiro não é encontrar depósitos minerais, mas desenvolver tecnologia para processá-los. “O segredo não é encontrar a terra rara. O segredo é separar. É a tecnologia de separação que agrega valor. Você pode vender um sedimento por muito pouco ou transformar uma pequena quantidade de material separado em um produto de alto valor econômico”, observa.
Segundo ele, esse é justamente o ponto que diferencia as terras raras de outras atividades minerárias tradicionais. “Não é como minério de ferro ou ouro. Você não encontra um filão pronto. As terras raras aparecem misturadas a outros minerais e precisam ser separadas. Esse processo é o grande segredo tecnológico”, pontua. Para o pesquisador, o Brasil possui conhecimento científico suficiente para desenvolver essa cadeia produtiva, mas ainda carece de uma estratégia nacional de longo prazo. “Nos anos 1960, nós já fazíamos esse tipo de processamento. Depois faltou continuidade. Não existe um projeto de Estado; existe um projeto de Governo. Um Governo investe, outro deixa de investir, e nós vamos patinando enquanto outros países avançam”, afirma.

Na avaliação do professor, repetir o modelo histórico da mineração brasileira — baseado na exportação de matéria-prima e na importação de produtos industrializados — representaria uma oportunidade perdida. “As mineradoras investem em tecnologia de extração. Elas não investem em tecnologia de refinamento. Procuram extrair o mais rápido possível, gastando o mínimo para obter o maior lucro possível. Com terras raras isso não faz sentido”, destaca. Ele classifica como inadequado um modelo de exploração baseado apenas na retirada do recurso mineral. “Terra rara exige tecnologia. Exploração predatória não funciona. Esse tipo de mineração pertence a uma indústria de baixa qualidade tecnológica. O que gera riqueza é agregar valor aqui, e não simplesmente vender matéria-prima”, completa.
Enquanto cresce a pressão internacional por minerais considerados estratégicos, ele aponta que empresas e governos estrangeiros acompanham o potencial brasileiro e buscam ampliar sua participação nessa cadeia produtiva. “Existem interesses internacionais. Tem grupos dos Estados Unidos, da China e do Japão. Enquanto o Brasil não desperta para isso, eles tentam conseguir áreas de mineração a baixo custo. Depois o valor agregado fica todo no processamento”, explica.
O pesquisador integra um grupo nacional de cientistas que discute alternativas para fortalecer a cadeia tecnológica brasileira e participa de uma cooperação internacional voltada ao aprimoramento da caracterização mineralógica desses depósitos. Para ele, a discussão sobre soberania mineral, que ganhou força com a tramitação da Política Nacional de Minerais Críticos e Estratégicos no Congresso Nacional, precisa ir além da abertura de novas áreas para mineração. “O debate não pode ser apenas sobre extrair mais. O desafio é transformar esses minerais em tecnologia, produzir componentes, fabricar materiais de alto desempenho e criar uma cadeia produtiva nacional”, avalia.
Segundo o físico nuclear, os impactos ambientais de uma eventual exploração dependem diretamente da tecnologia empregada. Para ele, as terras raras não exigem necessariamente o mesmo modelo de mineração utilizado em grandes jazidas de ferro ou ouro. “Você pode processar a areia, retirar os elementos de interesse e devolver o restante do material ao ambiente. O problema não é a terra rara. O problema é quando se faz mineração sem investir em tecnologia”, reitera.
Uma exploração baseada apenas na abertura de grandes cavas reproduziria erros históricos da mineração brasileira, analisa o pesquisador. “Não faz sentido criar um buraco e deixar um passivo ambiental. Se existe tecnologia para recuperar o material e devolver praticamente as mesmas características ao solo, é esse o caminho que deve ser seguido”, constata, diante do interesse crescente das empresas pelos depósitos existentes no Espírito Santo.
Ele defende que a principal corrida não deve ser apenas pela descoberta de novas ocorrências, mas pelo domínio científico e tecnológico capaz de transformar esses recursos em desenvolvimento econômico para o país. “O Brasil precisa decidir se quer continuar exportando matéria-prima ou se quer participar da etapa que realmente gera riqueza. É isso que está em disputa quando falamos de terras raras”, analisa.
Por fim, o professor critica a falta de estudos para identificação desses minerais no Espírito Santo. “Existem alguns estudos insipientes. Nada que seja estruturante, nada contínuo. Chamamos de ‘trabalho aventureiro’. Isso talvez seja por conta do Estado, que é pequeno e nunca se empenhou em resolver problemas como, por exemplo, da areia monazítica, explorar isso melhor. Um Estado que não teve essa aptidão, diferente de São Paulo e Rio de Janeiro.Talvez agora, com o aumento do interesse, o Estado queira desenvolver algo”, concluiu.

