Comissão de Meio Ambiente da Assembleia foi acionada para cobrar investigação

O pescador Alexandre Rosa voltou a denunciar problemas de poluição no Rio Bubu, em Cariacica, na região metropolitana e afirma ter identificado dois pontos de lançamento de efluentes nas proximidades de uma unidade ligada a um frigorífico no bairro Tabajara. Segundo ele, a água do rio, que antes permitia enxergar o fundo, passou a apresentar coloração muito escura e forte odor. O pescador também relata o desaparecimento de espécies, peixes com lesões e redução de mariscos e crustáceos na região. A denúncia foi apresentada por Alexandre à Comissão de Proteção ao Meio Ambiente da Assembleia Legislativa do Espírito Santo (Ales), que tem Fabrício Gandini (PSD) como presidente, Camila Valadão (PSOL) como vice-presidente e Iriny Lopes (PT) entre os integrantes efetivos.
O pescador afirma que a alteração na água vem sendo percebida há cerca de duas semanas, embora problemas relacionados ao lançamento de resíduos na região sejam mais antigos. “A gente é acostumado com essa água aqui, de ver o fundo, a areia, tudo transparente. E de uns tempos pra cá, a gente tem percebido que essa água tá ficando escura”, relatou. Alexandre diz ter percorrido uma área próxima ao frigorífico e encontrado uma grande estrutura de armazenamento de efluentes dentro de uma propriedade particular.
O local, de acordo com o pescador, seria formado por uma espécie de barragem ou lagoa destinada a receber resíduos da atividade da empresa. Alexandre questiona a eficiência do sistema. “Não vi filtro, não vi nada. É como se fizesse um poço e lançasse o produto todo lá dentro do e botasse um ladrão em cima, na boca”, descreveu. Ele afirma que a estrutura é de grandes dimensões e estaria próxima do limite de sua capacidade. Uma chuva forte poderia fazer com que o conteúdo transbordasse, alerta. “Tá quase no limite do barranco, da barragem. Se der uma chuva potente mesmo ali, não segura não”, afirmou.
Alexandre diz ter identificado dois pontos que, segundo ele, estariam relacionados ao despejo. Um deles seria um tubo de aproximadamente 100 milímetros que anteriormente lançava água diretamente no rio. Após denúncias, afirma, o cano foi retirado da superfície, mas teria sido enterrado. “Eles tiraram o cano que jogava direto no rio, esconderam ele na terra e deixaram uma parte onde era pedra”, afirmou. Segundo ele, as pedras podem ser observadas nas imagens encaminhadas à reportagem e estariam sobre a saída da tubulação.
O segundo ponto seria um tubo de aproximadamente 300 milímetros, de maior diâmetro, pelo qual, segundo Alexandre, continuaria havendo lançamento. Ele descreve a água que sai do local como esverdeada e com odor forte. A identificação da atividade e do empreendimento precisa ser confirmada pelos órgãos ambientais e pela própria empresa, mas a atividade de abate e processamento de carnes na região é citada em documentos técnicos produzidos pelo Iema e pela Ufes como poluidora na bacia do Rio Bubu.
Para Alexandre, o impacto mais evidente está na pesca. “O rio está morto. Os peixes sumiram. Não tem como ter peixe numa água daquela ali”, afirmou. O pescador relata que tilápias estariam aparecendo com manchas e lesões e que alguns peixes foram encontrados mortos. Segundo ele, espécies antes comuns deixaram de ser encontradas no trecho. “Robalo não sobe mais. Tainha não sobe mais. Pitu, camarão pitu, não tem mais. Cascudo, não tem mais”, relatou. Na avaliação dele, apenas espécies mais tolerantes à degradação, como tilápia e o bagre africano, continuariam aparecendo, mas com menor frequência.
Alexandre também afirma que a alteração teria atingido organismos associados ao manguezal e à região de influência do rio. Segundo ele, ostras estariam morrendo, o sururu teria diminuído de tamanho e o camarão teria desaparecido da área há cerca de dois anos. A relação direta entre esses impactos e o despejo atribuído ao frigorífico, entretanto, ainda precisa ser estabelecida tecnicamente. O pescador sustenta a denúncia a partir da observação cotidiana do rio, das imagens que registrou e da proximidade entre os pontos de lançamento e as áreas onde percebe as alterações.
Alexandre destacou a preocupação com os riscos para quem compra pescado sem saber onde foi capturado e classificou o caso como uma questão de saúde pública. Ele afirma que já procurou o Iema em outras ocasiões para denunciar problemas ambientais no Rio Bubu e considera insuficiente a fiscalização realizada no local. Segundo o pescador, uma das dificuldades é o acesso à área onde está a estrutura que considera mais problemática.
O Rio Bubu integra a bacia hidrográfica do Santa Maria da Vitória e possui pontos de monitoramento da qualidade da água mantidos pela Agência Estadual de Recursos Hídricos. A estação BUB1C010, por exemplo, está localizada sob a ponte da Rodovia José Sette. A existência das estações permite comparar os parâmetros registrados pelo poder público com a situação denunciada atualmente pelo pescador. A Agerh disponibiliza dados de indicadores como demanda bioquímica de oxigênio (DBO), demanda química de oxigênio (DQO), sólidos suspensos, nutrientes, coliformes, oxigênio dissolvido, pH e temperatura.
Alexandre cobra o cruzamento dessas informações e realização de uma análise capaz de apontar a origem e a composição do material lançado no rio. “O certo mesmo seria uma equipe ir a campo com a gente”, afirmou. Ele defende que a população precisa saber o que foi encontrado, quais medidas serão tomadas e se elas efetivamente resolverão o problema.
A reportagem procurou a Prefeitura de Cariacica e o Iema para questionar a existência dos pontos de lançamento, a situação da estrutura de armazenamento, as licenças ambientais, as fiscalizações anteriores e eventuais análises realizadas no Rio Bubu, mas não teve retorno até o fechamento da edição.

