Nerter Samora e Renata Oliveira
Faltando apenas uma semana para o fim do prazo para as filiações partidárias, a próxima semana deve ser decisiva para os políticos que almejam uma boa acomodação para a disputa de 2014
Nerter – Essa semana que passou foi marcada por uma série de movimentos no Estado e em Brasília que afetam diretamente ou indiretamente tanto as disputas majoritárias quanto as proporcionais no próximo ano. Seja no campo macro, com a criação de novos partidos e o quase certo naufrágio da minirreforma política, seja nas questões mais internas e específicas dos partidos, como a contagem regressiva para o fim do prazo de filiações partidárias, o campo segue indefinido para 2014. Se para uns essa incerteza compromete projetos eleitorais, para outros é vantagem manter o clima de tensão para transitar sem desgastes em meio à confusão das lideranças com o processo, não é?
Renata – Como é muita coisa, vamos começar com as deliberações de Brasília. Ao mesmo tempo em que prolonga-se a agonia da Rede Sustentabilidade que terá a recontagem de assinaturas, o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) deu aval para a criação de mais dois partidos políticos: Solidariedade e PROS. No Estado, o deputado federal Carlos Manato e o ex-deputado federal Capitão Assumção, respectivamente vão comandar as siglas e devem ter uma semana de intenso trabalho de filiação, já que o prazo termina no sábado (5). Enquanto isso, os apoiadores de Marina Silva, presidenciável com capital de 20 milhões de votos, deverão ter uma semana difícil. No Estado o projeto que já estava dividido internamente, agora corre o risco de não ter mais condições de disputar a eleição de 2014. O outros dois nascem tão tradicionais que se dividirão nacionalmente entre o apoio a Aécio Neves (PSDB-MG), no caso do Solidariedade e a base da presidente Dilma Rousseff, no caso do PROS.
Nerter – Nunca a escolha da sigla veio tanto a calhar, no caso do PROS (risos). Mas voltando ao campo político, a criação dos dois partidos é um alívio e tanto para quem pretende disputar a proporcional no ano que vem e está em partidos que tendem a coligações pesadas. Com a diminuição de 10% nas vagas tanto para deputado federal quanto para estadual, o peso das alianças proporcionais pode definir vida ou morte política para os candidatos. É preciso observar os movimentos. Só na Assembleia, o PMDB conta com sete deputados, o PT com cinco, o PDT com quatro, o DEM com três e por aí vai. Temos nomes que hoje estão sem mandato, como ex-prefeitos, por exemplo, que vão dividir muito os votos, mas é bom lembrar que o quociente eleitoral sobe na mesma proporção da redução das vagas. Não precisa dizer que a eleição proporcional do próximo ano será bastante disputada. É claro que a maioria dos mandatários terá estrutura eleitoral, seja de apoio político, seja de financiamento de campanha, mas é aquela história, quem tá dentro não quer sair, mas quem tá fora quer entrar.
Renata – É isso que está motivando essa inquietação no PMDB, por exemplo. A cúpula no Estado, que é basicamente o grupo do ex-governador Paulo Hartung (PMDB) tentou empurrar goela abaixo da enorme bancada uma disputa majoritária, sem qualquer discussão sobre o arco de aliança que vai selar o destino político dos deputados do partido. É estranho como esse episódio serviu para unir a bancada, que sempre foi dividida, mesmo quando era menor. Os deputados estão unidos pela sobrevivência política, embora será quase impossível manter o tamanho do grupo na próxima legislatura. Gente grande pode ficar de fora da próxima Assembleia com isso.
Nerter – Ainda na proporcional teve o movimento do PT que também chamou a atenção. Primeiro, o ex-prefeito João Coser vem a público para dizer que se for chamado à responsabilidade vai disputar o governo. Bom, sabemos que ele não tem capital para isso, principalmente, depois da desgastada gestão na Capital, que embora tenha reproduzido avanços ao longos dos últimos oito anos, teve um desfecho para lá de melancólico. Fora que tem gente dentro do PT avaliando que ele não tem condições de disputar. Mas depois de sofrer uma ofensiva dos demais candidatos a presidente do PT, em debate realizado em Guarapari. Coser usou e muito bem, o fato criado com a notícia publicada na Folha de S. Paulo para jogar água na fervura do partido, como você bem destacou no início da semana.
Renata – Coser foi cobrado pelos companheiros sobre sua ligação com Hartung, sobre o enfraquecimento do partido sob sua gestão e matéria da Folha veio bem a calhar para que ele tente apaziguar os ânimos dentro do partido…
Nerter – Muito embora ele tenha o completo favoritismo na disputa, é melhor evitar o barulho.
Renata – Mas, na mesma semana que fala isso, coloca seu aliado, o presidente do partido José Roberto Dudé para transmitir o recado verdadeiro, que o partido quer ficar na base do governador Renato Casagrande para a disputa do próximo ano. Assim como não quer entregar os cargos, como sugeriu a cúpula do PSB ao romper com o governo Dilma, e não quer desmanchar uma aliança que tem história não só no Estado, como também em nível nacional. Até porque, o PT não tem a menor condição de entrar em pé de igualdade em uma disputa do tamanho da que se projeta para o próximo ano. Não construiu na última década um projeto político para o Estado, não tem uma liderança com peso para sustentar sozinho o palanque de Dilma Rousseff. Servirá novamente de coadjuvante para a disputa dos aliados e vai novamente negociar espaços políticos no próximo governo. É o que resta.
Nerter – Para Casagrande, melhor impossível. A retomada do crescimento da popularidade da presidente Dilma e a tendência de manutenção do PT na gestão socialista, o governador consegue um bom alicerce para seu palanque de reeleição. Ainda mais com a previsão de que Dilma venceria no primeiro turno. Caso se confirme o cenário fragmentado de disputa no Estado, Renato terá que enfrentar um segundo turno e por isso é importante estar em um palanque vencedor. É claro que não dá para desconsiderar nenhum dos outros palanques, já estamos a um ano da disputa. Eduardo Campos tem pouca densidade hoje, mas entre os candidatos é o que mais tem condições de crescer. Até porque esse desempenho esperado de Marina Silva, pela Rede, pode não se concretizar. Esta posição de Casagrande, de neutralidade, é muito confortável. Abre espaço para todo mundo e permite muitas rotas de fuga.
Renata – Na próxima semana, quando acabar o prazo de filiação partidária e o destino da Rede estará selado, e os cenários políticos nacional e o do Espírito Santo estarão bem mais claros. A semana promete ser de muita movimentação, perdas e ganhos para os partidos e para as lideranças que articulam a disputa pelo governo do Estado no próximo ano. Portanto, no próximo papo de repórter o cenário poderá estar totalmente diferente ou reforçado nas costuras que estão sendo amarradas.

