Nerter Samora e Renata Oliveira
No Espírito Santo a política de grupo tenta passar por cima das diferenças nacionais. Papo de Repórter discute até que ponto vai o vale tudo das composições partidárias para a eleição deste ano.
Nerter – Ganhou destaque esta semana o esperneio das lideranças da corrente petista Articulação de Esquerda contra as declarações do vice-presidente do partido, José Carlos Nunes, de que mesmo com a incompatibilidade nacional do PT com o DEM o partido pode participar da aliança que apoia a candidatura do ex-governador Paulo Hartung (PMDB). O PT tem até resolução nacional afirmando que vai intervir no que considera costuras esdrúxulas nos estados para a eleição, o que se refere, por exemplo, a alianças que incluam o PSDB e DEM.
Renata – Aí vamos ver o que vale mais, se é o interesse da nacional, especialmente do ex-presidente Lula em fazer uma costura com Hartung pelo palanque de Dilma, ou manter a coerência. Por aqui as lideranças do partido dizem que a resolução trata da majoritária, então, fica evidente qual é a posição do PT capixaba. No DEM a única voz destoante é a de Atayde Armani, que classificou a aliança como uma tentativa de misturar de água e óleo.
Nerter – Essa coisa de que em eleição tudo é possível foi reforçada no Estado com a criação da unanimidade “em nome da reconstrução do Estado”. Seu principal operador, o ex-governador Paulo Hartung, que já assinou ficha em meia dúzia de partidos desde o início de sua carreira política, tem um grupo de aliados muito restrito, que não vê coloração partidária. Vai do DEM, de Rodney Miranda ao PT de João Carlos Coser. Como ele se coloca como candidato, vem tentando reunir os aliados para fortalecer seu palanque e, evidentemente, para ele não há por que se prender a essa questão ideológica, porque seu método é completamente pragmático. Sua neutralidade nas disputas nacionais reforça e legitima essa posição, porque em seu entender isso impede que as questões nacionais interfiram na disputa local. É verdade que não há mais verticalidade, mas há uma linha programática que deve ser seguida. Se o DEM é oposição ao PT, apoia o candidato do PSDB, Aécio Neves, contra a presidente petista Dilma Rousseff, como esses partidos poderiam dividir um palanque no Estado?
Renata – A senadora Ana Rita fez uma colocação importante na nota divulgada por ela essa semana. Se houver uma coligação partidária, os votos em um candidato do DEM podem migrar para um candidato petista e vice-versa. Como explicar isso para o eleitor? Lembra quando Iriny Lopes deixou a Câmara para assumir o cargo de ministra, dando lugar ao suplente? Muita gente que votou em Iriny se revoltou porque o suplente em questão era ninguém menos do que Camilo Cola (PMDB).
Nerter – Pois é. Imagine a confusão na cabeça do eleitor que vota, por exemplo, em Ana Rita ou Perly Cipriano e de repente ajuda a eleger Elcio Alvares? Como o PT vai explicar isso para seus eleitores? E ainda que não fechem uma coligação proporcional. O fato de fecharem um acordo e dividirem o palanque em torno de Paulo Hartung mostraria que vale tudo mesmo em nome da manutenção do projeto de unanimidade.
Renata – Agora, tem uma conversa que está começando a preocupar os meios políticos. Parece que, chamado a Brasília, pelo presidente da Câmara, Deputado Henrique Eduardo Alves (PMDB-RN) para discutir as candidaturas peemedebistas nos estados. Dizem que ele não foi e mandou recado que não é candidato. Isso, às vésperas do início das convenções pode assustar não só os peemedebistas, mas também os aliados. É verdade que depois de ter disponibilizado o nome para a disputa, Hartung vem mantendo um silêncio sepulcral sobre o assunto.
Nerter – Por outro lado, ele vem se movimentando de forma intensa para a disputa, se despediu da coluna que assinava no jornal A Gazeta, às sextas, conversa com as lideranças políticas, faz reuniões públicas que têm ficado cada vez maiores, tem uma estrutura já organizada de campanha. Sem falar que não haveria outros espaços para que ele dispute. Mas também se ele confirmar a candidatura agora, não garante nada. O pra valer mesmo é em 5 de julho. Tem gente que vai fazer plantão na porta do TRE aguardando o registro da chapa.
Renata – O problema de Hartung hoje não seria político, até porque, mesmo com o esperneio dos partidos, ele está conseguindo juntar até gregos e troianos em seu palanque. Explicar isso é outra história. O palanque de Renato Casagrande é bem mais povoado, mas ele há partidos de peso político histórico no Estado. Além disso, muita gente que assinou a tal carta de apoio a Casagrande vai trabalhar pela candidatura de Hartung, por motivos que Século Diário já apontou anteriormente, como a “ameaçadora” influência do ex-governador no Tribunal de Contas do Estado, onde a maioria dos prefeitos e ex-prefeitos têm pendências. Mas também há muita resistência. O problema aqui seria o tempo de permanência dele no poder, mais oito anos de Hartung “ninguém aguenta”, disse uma liderança de peso dos meios políticos dia desses.
Nerter – Não aguenta porque há uma fila, que foi bagunçada em 2010, mas que começa a ser refeita. Aí entra o senador Ricardo Ferraço (PMDB). As lideranças políticas e econômicas do Estado precisam fazer com que essa fila ande em 2018. Como Ricardo faz parte do projeto político vigente no Estado, tem bom trânsito nos meios políticos e entre os empresários, é melhor ficar com essa aposta. Até porque a mesma intransigência que o ex-governador dispensa à classe política, também emprega na relação com setor financeiro do Estado. Casagrande é mais, digamos, maleável. Mas é bom lembrar que não é só o palanque de Hartung que tem problemas. Casagrande também não pode dizer que já está com uma das mãos na taça.
Renata – Sim. Se Hartung confirmar a candidatura, a eleição vai ser dura. Se Casagrande tem a vantagem da máquina na mão, o ex-governador tem um discurso pronto, fácil, que pega: o dos gastos. Colocou na “cabeça” da opinião pública que o Estado está quebrado. Que seu sucesso foi fraco. Independentemente das agendas positivas que Casagrande vem acumulando nos últimos dias. Se Hartung conseguir plantar essa ideia, nada vai adiantar. A não ser que Casagrande reaja, e tente, o que não será fácil, desconstruir a imagem superficial de governo de excelência que Hartung criou em seus dois mandatos. Casagrande teve problemas no que diz respeito às relações institucionais, sobretudo com o governo federal, desde o início de seu mandato. Mas com relação às políticas públicas, foi melhor. Não que isso seja excelente, longe disso, mas se comparado com o governo Paulo Hartung, foi melhor, sim.
Nerter – Mas mostrar isso na eleição vai ser difícil e fazer com que seus captadores de votos mostrem isso, mais difícil ainda. Temos, então, dois cenários possíveis. Um com Hartung, que mostra uma eleição parelha, e um sem ele, que não teria disputa.

