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Em meio à Derrama, Theodorico Ferraço renasce das cinzas

Nerter Samora e Renata Oliveira

O presidente da Assembleia, Theodorico Ferraço (DEM) sofreu um grande golpe em sua musculatura política, mas consegue em menos de uma semana recuperar sua cadeira de presidente e ainda ficar bonito na foto. Papo de Repórter discute a manobra que blindou o deputado e ex-prefeitos.

Renata – A semana do presidente da Assembleia, Theodorico Ferraço foi marcada por altos e baixos. Acusado de participação em um esquema de corrupção envolvendo recuperação de créditos em pelo menos oito prefeituras do Estado, ele viu de perto a possibilidade de perder a reeleição para a presidência da Casa, pela qual lutou tanto, sem falar na incerteza do futuro das investigações. Mas, Ferraço deve ter dormido bem sossegado neste fim de semana, afinal contou com uma mãozinha salvadora do procurador-geral de Justiça, Eder Pontes da Silva, que pediu o relaxamento da prisão dos ex-prefeitos e desqualificou as investigações e ainda pediu o desmembramento do inquérito. Tudo isso para assegurar a reeleição de Ferraço.  

Nerter – Na verdade, o presidente da Assembleia viveu uma semana decisiva em relação ao seu futuro político. Ele perde estatura política, após todo esse bombardeio por conta das ligações dele com a empresa CMS Assessoria. Mas acabou costurando apoios importantes, mesmo que informais, como foi com o Ministério Público, que deu um parecer que ele precisava para garantir sua reeleição, e até com a OAB/ES, que sob o pretexto da defesa das prerrogativas dos advogados presos, acabou também pressionando em favor não só dos advogados, mas também da turma toda, que acabou sendo relacionada na “Operação Derrama”.

Renata – Do ponto de vista político, mais especificamente, no que se refere à eleição da Mesa Diretora da Assembleia, essa ameaça sobre Ferração desarmou o processo que estava todo acertadinho, desde a aprovação da PEC da Reeleição, no final do ano passado. Os deputados estavam em férias quando foram surpreendidos com a notícia de que o candidato único poderia cair. A semana começou com dois discursos: um para fora, defendendo Ferração de forma intransigente, reafirmado o apoio do plenário à sua candidatura; mas havia também um discurso interno, de que era preciso se preparar para o pior. Enquanto alguns deputados tentavam convencer Ferraço de que o melhor seria ele mesmo recuar da candidatura, o presidente do Legislativo bateu o pé e cobrou dos colegas a contrapartida de tudo aquilo que tinha feito pelo plenário – quer dizer, por alguns, não é? Havia também os oportunistas de plantão que saíram gastando munição, sem saber o que acontecia nos bastidores.

Nerter – E são justamente esses bastidores que foram decisivos para garantir o salvo-conduto para Ferraço. É preciso relembrar que a cobertura da mídia corporativa nos fornece muitos elementos sobre as intensas conversas que aconteciam nos meios políticos. O silêncio de Ferraço, após declarações infelizes em um primeiro momento, acusa que estava sendo costurada uma manobra. Mas claro ainda é notícia que você trouxe sobre o buchicho nos bastidores de que Eder Pontes foi um dos acompanhantes de Ferraço a um encontro no Palácio Anchieta. Quem também teria participado do encontro é o conselheiro do Tribunal de Contas, Sergio Aboudib, que sempre um interlocutor importante com a classe política, desde sua passagem pela Casa Civil, no governo Paulo Hartung.

Renata – Os elementos foram colocados, mas alguns deputados preferiram manter os olhos vendados, por conveniência ou por artimanha. Mas ao fecharem questão em torno de Ferraço estão assumindo uma responsabilidade muito grande em relação à imagem do Legislativo. Uma prova disso foi que o que causou mais desgaste não foi nem a possibilidade de Ferraço estar à frente de um esquema de corrupção em prefeituras, mas sim, a nomeação do diretor financeiro da Casa, Eder Botelho da Fonseca, que saiu justamente do centro desse escândalo. Ele era o secretário de Finanças em Itapemirim e foi indicado para o cargo na Assembleia pelo próprio Ferraço. Bom, agora o que acontecer no caso, não vai atingir apenas Ferraço. Ele teve um voto de confiança da Assembleia e o plenário pode sair muito desgastado se  a coisa feder para o lado do presidente. Da última vez que isso aconteceu, quase um terço da Casa foi atingido, e quase ninguém permaneceu por muito tempo no mesmo lugar.

Nerter – Mas diferentemente desse caso, o momento agora é pouco propício ao avanço das investigações. Se naquele momento, na outra Assembleia, a ordem dos acusadores era levantar suspeitas, neste caso do Theodorico Ferraço o movimento é contrário. Mesmo com o arsenal de documentos e indícios trazidos pelas investigações da Polícia Civil e do Tribunal de Contas do Estado contra o esquema, o chefe do Ministério Público não viu conexão entre os contratos dos municípios com a CMS. Fato que coloca em dúvida até a eventual responsabilização dos envolvidos, transformando Ferraço em um protetor dos outros ex-prefeitos presos.

Renata – O que chama a atenção nessa história toda é a total inversão de papéis no cenário político do Estado. O Ministério Público ficou conhecido por muito tempo pelo seu perfil acusador. Muitos prefeitos sofreram com o chamado julgamento público por conta das denúncias do Ministério Público…

Nerter – Mas temos que lembrar que isso acontecia com os prefeitos que não eram aliados do ex-governador Paulo Hartung. Isso ficou muito latente na gestão do ex-procurador-geral de Justiça Fernando Zardini. Com a chegada de Eder Pontes, já no governo Renato Casagrande, acendeu a esperança de que a instituição iria tomar outro rumo. Mas o que se viu com esse episódio foi o surgimento de um “new Zardini”, como ele vem sendo chamado nos bastidores da instituição.

Renata – Pois é. Neste caso, o que aconteceu foi o Ministério Público sair na defesa dos acusados. Mas, vamos combinar que já havia um clima criado para isso e no fundo, no fundo, sabiam que a coisa ia descambar para isso. O procurador lançou mão de um recurso que já está ficando manjado no MPES: a síndrome de “Jack, o estripador”. Sob o menor pretexto, as ações são desmembradas. A ideia é fragmentar para minar as investigações, pelo menos é o que dizem.

Nerter – Com o desmembramento, a probabilidade de as investigações avançarem sobre o esquema criminoso, que envolve prefeitos, procuradores, empresários e advogados, pode se transformar em pequenas ações de improbidades.

Renata – O que podemos concluir com tudo isso, pelo menos até aqui, é que a pobre coitada da “Dona Justiça”, além de cega, esta semana ficou pelada em público. E assim segue o Espírito Santo.

 

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