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Papo de RepórterCom apoios vulneráveis, Estado está de olho na disputa presidencial

Nerter Samora e Renata Oliveira

Quando se trata da relação entre o Espírito Santo e o governo federal, os políticos do Estado sempre adotam a política do “quem não chora não mama”. Por isso, no segundo turno, com uma disputa imprevisível, as lideranças se esgueiram do processo. A exceção é do governador eleito Paulo Hartung (PMDB), que assumiu o risco. Papo de Repórter discute as movimentações das lideranças.

Nerter – Neste domingo (26), o brasileiro volta às urnas para definir quem será o presidente da República. O processo deste ano ensaiou um cenário diferente, mas no frigir dos ovos, o que temos é a tradicional batalha entre PT e PSDB pelo comando do País e o controle do poder político. Neste sentido, é interessante observar a movimentação da classe política do Espírito Santo dentro do contexto desta disputa. Para isso, porém, é importante fazer uma recapitulação do que foi o primeiro turno em relação à disputa nacional. Tivemos aqui cinco palanques eleitorais: do governador Renato Casagrande (PSB), que apoiou Eduardo Campos e depois Marina Silva; Paulo Hartung (PMDB), que se uniu à candidatura de Aécio Neves (PSDB); o PT foi de Roberto Carlos para tentar erguer o palanque de Dilma Rousseff no Estado; Camila Valadão, do PSOL de Luciana Genro; e Mauro Ribeiro (PCB), que era o representante do projeto de Mauro Iase. Vamos, evidentemente, nos ater aos três principais palanques da disputa, não é?

Renata – Sim. A começar pelo projeto vitorioso no Estado. Paulo Hartung venceu a eleição e agora adota uma postura bem diferente das eleições anteriores em que disputou. Ele assumiu o risco de apostar na candidatura de Aécio Neves, mesmo não tendo o tucano uma ampla vantagem contra Dilma Rousseff. Conhecendo a posição do governador eleito de não assumir riscos, isso foi uma novidade. Mas é preciso lembrar que essa dedicação não foi constante durante o primeiro turno. Hartung assumiu a candidatura de Aécio, fez foto com ele no lançamento da campanha no Estado, e colocou como seu vice o também tucano César Colnago. Depois da morte de Eduardo Campos e a ascensão de Marina Silva ao posto de candidata a presidência, com uma vantagem sobre o tucano, Hartung adotou a cautela e largou a mão de Aécio. Houve um momento de crise dentro da campanha, que chegou aos ouvidos do presidenciável.

Nerter – Aécio teria ficado muito irritado com a atitude de Hartung e chegou a cancelar uma visita que faria ao Estado. Por intermédio do ninho tucano e do coordenador da campanha, Ricardo Ferraço (PMDB), ele veio para uma visita a Linhares e, aparentemente, as rusgas foram superadas. A movimentação de Hartung em um dado momento da campanha foi visando à possibilidade de a disputa não se resolver no primeiro turno. Marina estava no palanque de Casagrande e se Aécio não fosse para o segundo turno, ele ficaria sem um espaço nacional na segunda fase da campanha. Passou então a não atacar o governo Dilma Rousseff, que à aquela altura, era a única certeza em uma nova etapa de campanha. Mas o barco de Marina fez água e Hartung pôde voltar ao projeto inicial. Ele sabe que, independentemente do resultado nacional, o eleitor capixaba não se afina com a campanha do PT e, por isso, não desgasta sua imagem no Estado.

Renata – Mas é um risco. Se Aécio Neves perder a eleição, Hartung terá que lidar com Dilma Rousseff, que não faz parte do seu fã-clube. De certa forma, para ele isso seria bom, já que diante da impossibilidade de conquistar os investimentos ou obras que tem interesse, poderá jogar toda a conta dos problemas que encontrar pelo caminho no colo do governo federal. Se Aécio vencer, não poderá fazer isso, já que é parceiro do governo federal.

Nerter – O governador Renato Casagrande também declarou apoio à campanha de Aécio Neves, mas como, por razões óbvias, não tem condição de dividir o mesmo palanque que Paulo Hartung, se recolheu. A declaração de apoio parece ter sido mais um movimento para o PSB nacional do que um envolvimento em campanha no Estado. O candidato ao Senado em seu palanque, Neucimar Fraga (PV), também adotou a posição do PV nacional de apoio a Aécio e tem feito campanha para o tucano, sempre na linha, anti-PT. Casagrande teve a situação mais complicada em seu palanque em relação à disputa nacional e isso vem de antes da morte de Eduardo Campos. Começou ainda no ano passado. Depois de tentar demover o ex-governador de Pernambuco da disputa, sem sucesso, ele declarou neutralidade, para tentar atrair PT ou PSDB para seu grupo. Não conseguiu nem uma coisa nem outra e declarou apoio ao Pernambucano em maio.

Renata – Pois é. Para alguns observadores, essa movimentação de Renato Casagrande foi precipitada, assim como a movimentação do PSB nacional. O partido seria naturalmente o sucessor de Dilma em 2018, mas decidiu antecipar o projeto. O resultado disso foi um desgaste tremendo para a sigla em nível nacional. O partido, na melhor das hipóteses, vai sair com a metade dos governadores que elegeu em 2010 e perdeu a único Estado que governava fora do Sudeste. O partido e suas lideranças fizeram uma opção equivocada no início e a aposta em Marina Silva também não trouxe o resultado que o partido esperava. O movimento é de reflexão e de busca de reconstrução não só no Espírito Santo, mas no Brasil todo. Isso vem ao encontro do que muito se pergunta nos meios políticos, sobre o futuro de Renato Casagrande. É uma incógnita.

Nerter – O PT é que chamou a atenção. Primeiro porque o partido, em sua movimentação no primeiro turno, continuou com uma ação que já vem se tornando constante no Estado. Sob o controle de João Coser, adotou uma postura pragmática e vinha apostando tudo na eleição dele para o Senado. Suas lideranças se concentraram nisso. O resultado não foi bom para o partido e aí a militância acordou. Essa coisa de Dilma terminar atrás de Aécio no Estado deve ter mexido com os petistas. Eles foram para a rua. Mas a mesma pergunta sobre Casagrande eu faço sobre João Coser. No caso dele é mais fácil, não é?

Renata – Ah, sim. Ele deve ser absorvido pelo governo de Hartung. Fez o dever de Casa direitinho. Tirou o PT do palanque de Casagrande e colocou uma candidatura frágil ao governo, que só ajudou o peemedebista, pois não dividiu votos. Vai ter seu espaço garantido. Quanto ao PT no Estado, esse sim deve repensar sua postura em relação ao cenário político, porque o caminho trilhado até aqui não fortaleceu o partido e o resultado das urnas mostrou bem isso. Se Dilma vencer, as mudanças que ela está adotando na movimentação interna do partido nacionalmente devem afetar o Estado. Se Dilma perder, a adoção de uma posição de oposição no país pode fechar as portas para algumas lideranças mais partidárias no Estado.

Nerter – Independentemente de que vença a eleição, a situação será complicada para o Estado na relação governo federal, o que pode mexer bastante na distribuição de poder local. Enfim, tudo vai depender do resultado do segundo turno, que será anunciado nesta noite deste domingo. 

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